Resumo
Reunião em Maputo prepara posição africana para a Conferência Ministerial de Yaoundé, focando-se em industrialização, equidade agrícola e aumento do valor acrescentado. África procura coesão num contexto global tenso, visando reafirmar-se no sistema multilateral de comércio antes da 14.ª Conferência Ministerial da OMC em Março. Moçambique lidera a concertação continental, harmonizando posições africanas e destacando a importância estratégica do comércio para transformação estrutural e prosperidade partilhada. O comércio intra-africano cresceu 12,5% em 2024, mas representa menos de 20% do total das trocas do continente, evidenciando a necessidade de superar constrangimentos para uma integração produtiva eficaz. A AfCFTA surge como plataforma de soberania económica, promovendo a diversificação produtiva e a estabilidade comercial na região.
Sistema Multilateral Sob Pressão E África Em Busca De Coesão
Num contexto internacional marcado por tensões geopolíticas, aumento de medidas unilaterais e fragmentação das cadeias globais de valor, África procura afirmar uma posição estratégica e coesa no sistema multilateral de comércio. A preparação da 14.ª Conferência Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), agendada para Março em Yaoundé, surge como momento determinante para redefinir o posicionamento do continente.
A Directora-Geral da OMC, Ngozi Okonjo-Iweala, alertou recentemente que o comércio global atravessa “as piores disrupções políticas dos últimos 80 anos” . Ainda assim, sublinhou que cerca de 72% do comércio mundial de mercadorias continua a operar sob as regras da OMC , preservando um nível mínimo de previsibilidade para economias emergentes.
Num ambiente de crescente incerteza, a preservação de um sistema baseado em regras assume importância estratégica para países africanos, cuja vulnerabilidade a choques externos permanece elevada.
Moçambique Lidera Concertação Continental
Moçambique acolheu a Reunião dos Ministros Africanos do Comércio, assumindo o papel de Coordenador do Grupo Africano na OMC . O encontro visa harmonizar posições africanas antes da conferência ministerial, reforçando a capacidade negocial colectiva do continente.
Entre os dossiês prioritários figuram a reforma institucional da OMC, as negociações agrícolas, o comércio electrónico, o tratamento especial e diferenciado para países em desenvolvimento e a articulação com a Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) .
Para a Primeira-Ministra, Maria Benvinda Levi, a dimensão estratégica do comércio ultrapassa o mero intercâmbio de bens. “Para a África, o comércio é um instrumento de transformação estrutural, é um imperativo de segurança alimentar, é um meio para industrializar, criar empregos dignos, reduzir a pobreza e promover prosperidade partilhada” .
AfCFTA Como Plataforma De Soberania Económica
O comércio intra-africano registou crescimento de 12,5% em 2024 , mas permanece inferior a 20% do total das trocas do continente . Este dado evidencia tanto o potencial da AfCFTA como os constrangimentos estruturais que ainda limitam a integração produtiva africana.
A AfCFTA, ao consolidar um mercado de cerca de 1,4 mil milhões de pessoas, surge como instrumento de mitigação de choques externos e plataforma de diversificação produtiva. Num cenário de volatilidade global, a integração regional pode funcionar como mecanismo de previsibilidade e estabilidade comercial.
Algodão, Valor Acrescentado E Mudança De Modelo
Um dos anúncios mais concretos da reunião em Maputo foi a intenção da OMC de mobilizar 5 mil milhões de dólares em investimento privado para desenvolver a cadeia de valor do algodão africano . Actualmente, 90% do algodão produzido no continente é exportado em bruto e apenas 2% é processado localmente .
A meta estabelecida aponta para elevar o processamento para 25% na próxima década, reduzindo dependência de exportações primárias e fomentando indústria têxtil, emprego jovem e maior retenção de valor.
Este esforço insere-se num quadro mais amplo: cerca de 60% das exportações africanas continuam concentradas em matérias-primas , realidade que limita a capacidade de crescimento sustentado e a inserção qualificada nas cadeias globais de valor.
Agricultura, Equidade E Inclusão Digital
No plano negocial, África defende maior equidade nas negociações agrícolas, visando corrigir distorções prejudiciais aos produtores africanos . Paralelamente, o comércio electrónico e os serviços digitais são identificados como novas fronteiras de crescimento, desde que acompanhados por inclusão digital e transferência de conhecimento.
A Directora-Geral da OMC destacou que as exportações africanas de serviços digitais cresceram 15% em 2024, ritmo superior ao de qualquer outra região, embora representem apenas 1% do total global .
Entre Risco Global E Estratégia Continental
A MC14 em Yaoundé será mais do que um fórum técnico. Representará um teste à capacidade africana de converter coesão diplomática em reformas concretas e políticas de industrialização efectiva.
Num mundo fragmentado, a estratégia africana assenta em três pilares: reforma do sistema multilateral para restaurar previsibilidade, consolidação da AfCFTA como instrumento de soberania económica e transição de um modelo baseado em matérias-primas para um paradigma de valor acrescentado.
O desafio não é apenas negociar melhor. É transformar comércio em desenvolvimento estrutural.
Fonte: O Económico






