InícioNacionalSociedadeCheias e seca ameaçam mais de 170 mil pessoas em Inhambane 

Cheias e seca ameaçam mais de 170 mil pessoas em Inhambane 

A província de Inhambane volta a viver dias de incerteza climática. Entre a ameaça de cheias nas zonas ribeirinhas e a persistência da seca nas regiões semiáridas, mais de 170 mil pessoas poderão ser afetadas durante a época chuvosa 2025/2026. A previsão é do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD), que alerta para uma situação complexa e contraditória, onde a água e a sua ausência convivem perigosamente lado a lado.

Segundo o delegado do INGD em Inhambane, Gilberto Miguel, as análises mais recentes apontam para uma época chuvosa marcada por contrastes extremos. “O Plano de Contingência da província já foi aprovado e traz uma análise detalhada das ameaças que vão impactar Inhambane. Segundo o INAM, espera-se a ocorrência de chuvas normais, com tendência para acima do normal, entre outubro e dezembro deste ano, e também entre janeiro e março de 2026”, explicou.

Mas o delegado faz questão de sublinhar um paradoxo que a província conhece bem. “Mesmo quando chove bastante, há distritos como Panda, Govuro, Mabote e Funhaloro que continuam a enfrentar escassez de água. São zonas semiáridas onde a chuva que cai não chega para garantir água para consumo humano, para o gado ou para a agricultura. Temos regiões a viver a abundância da chuva e outras o drama da seca — tudo ao mesmo tempo.”

Gilberto Miguel adverte que, para além da irregularidade das chuvas, o sector da hidrologia prevê riscos de cheias significativos na bacia do rio Save. “Para o primeiro período, entre outubro e dezembro, há probabilidade de cheias de risco baixo a moderado. Já no segundo período, de janeiro a março, o risco aumenta para moderado a alto, especialmente na bacia do Save, onde historicamente temos registado inundações graves”, destacou.

No terreno, o ambiente é de alerta. Em Govuro, pescadores e camponeses seguem as previsões meteorológicas com o coração apertado. “Quando o rio sobe, não há aviso. Em 2022 perdemos casas e gado. Agora estamos com medo que volte a acontecer”, conta António Chimundo, morador de Nova Mambone, olhando para o leito do Save, ainda sereno, mas com marcas da última cheia visíveis nas margens.

O Plano de Contingência provincial, aprovado a 10 de outubro, prevê três cenários possíveis. O primeiro contempla eventos de pequena magnitude, mas de ocorrência frequente — chuvas fortes, inundações urbanas e secas localizadas — capazes de causar danos severos em comunidades vulneráveis. Neste cenário, cerca de 134 mil pessoas podem ser afetadas. O segundo cenário, considerado o mais provável, prevê a ocorrência combinada de ciclones, cheias e secas em várias zonas, podendo atingir até 174 mil pessoas. “São situações que podem ocorrer isoladamente ou em simultâneo. Estamos a falar de cheias, ventos fortes, seca, e até ciclones, que podem afetar diferentes pontos da província ao mesmo tempo”, explicou o delegado.

Em Maxixe, as equipas do INGD revisitam armazéns e verificam o estado dos materiais de emergência. O delegado admite que os recursos disponíveis estão muito aquém das necessidades. “Temos bens alimentares e não alimentares nos nossos armazéns, mas quando olhamos para o tamanho da população em risco, percebemos que os recursos ainda são escassos. Estamos a mobilizar meios com parceiros de cooperação, e também a recorrer a ações de antecipação, financiadas com base nas previsões de seca ou cheias.”

Segundo Gilberto Miguel, o plano está orçado em pouco mais de 26 milhões de meticais, mas há um défice de cerca de 24 milhões para garantir resposta total durante a época chuvosa. “É um esforço grande. Estamos a trabalhar com parceiros que já preposicionaram recursos estratégicos em zonas críticas como Govuro, Vilankulo e Inhambane. São embarcações, bens alimentares e não alimentares, que vão permitir uma resposta imediata caso se verifiquem emergências.”

Enquanto o governo afina os planos de contingência, as comunidades tentam adaptar-se à incerteza climática. Em Panda, uma das zonas semiáridas, o lavrador Ernesto Nhassengo mostra o seu campo de milho seco. “Aqui a chuva vem e vai. Às vezes cai muito e destrói tudo, noutras não chove nada. Vivemos com medo. Se vier seca outra vez, não sei o que vai ser da nossa colheita.”

Situação semelhante vive-se em Mabote, onde o gado magro percorre longas distâncias em busca de pasto. “Os poços estão a secar. Quando a seca aperta, temos de andar mais de dez quilómetros por água”, lamenta Joana Tamele, pastora da zona de Chigubo.

Gilberto Miguel reconhece o drama vivido por estas famílias e garante que a estratégia do INGD para esta época chuvosa aposta na descentralização e na rapidez de resposta. “Temos vindo a reforçar as capacidades locais, com formação de comités de gestão de risco em comunidades vulneráveis e com o apoio dos serviços distritais. O nosso foco é prevenir antes de reagir.”

Em paralelo, o INGD alerta para os riscos urbanos, sobretudo nas cidades de Inhambane e Maxixe, onde as deficiências no saneamento e o acúmulo de lixo dificultam o escoamento das águas. “As inundações urbanas são uma preocupação crescente. Mesmo chuvas de intensidade moderada provocam grandes transtornos. É preciso uma coordenação entre municípios e serviços de proteção civil para minimizar impactos.”

A previsão é clara: entre outubro e março, Inhambane poderá viver uma das épocas chuvosas mais desafiantes dos últimos anos. A província, conhecida pela sua beleza e tranquilidade, prepara-se para enfrentar o lado mais imprevisível da natureza. A incerteza é grande — tanto quanto a força da água que pode inundar campos e casas, quanto a ausência dela, que seca rios, plantações e esperanças.

“Temos de estar preparados para o pior cenário, sem deixar de acreditar no melhor”, conclui Gilberto Miguel. “A natureza é imprevisível, mas a prevenção e o planeamento podem salvar vidas.”

Apesar dos esforços do governo provincial e do INGD, a realidade mostra que a vulnerabilidade climática em Inhambane continua a crescer mais depressa do que a capacidade de resposta. Os recursos são escassos, a prevenção ainda depende de apoios externos e a urbanização desordenada agrava os riscos. A cada época chuvosa, renova-se o mesmo ciclo de medo, perdas e promessas. A província precisa, mais do que planos de contingência, de investimento estruturante — em drenagem, abastecimento de água, agricultura, resiliência e educação ambiental — para que o futuro deixe de ser um exercício de sobrevivência diante da natureza.

Fonte: O País

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