Resumo
Moçambique enfrentou recentemente cheias devastadoras, levando o Governo a reagir com medidas emergenciais, como a distribuição de sementes e insumos agrícolas aos afetados. Contudo, estas ações são vistas como paliativas, não resolvendo o problema de forma definitiva. O ministro da Agricultura reconhece a dependência do país em insumos externos e a fragilidade do sistema agrícola nacional. Apesar dos recursos limitados, defende-se a necessidade de reformas estruturais, investimento em infraestruturas resilientes e fortalecimento da produção interna para uma resposta mais eficaz a desastres naturais. As famílias afetadas em Bilene consideram o apoio governamental tardio e insuficiente, destacando a falta de uma abordagem sustentável e de longo prazo por parte do Governo para garantir a resiliência nacional perante catástrofes naturais recorrentes.
Moçambique enfrentou, no início do ano, mais um ciclo de cheias devastadoras, famílias desalojadas, à luz disso o Estado reage com medidas emergenciais que, embora necessárias, raramente resolvem o problema de forma definitiva. No caso recente de Bilene, o Governo mobilizou apoio às famílias afectadas. Alinhado a isso, o ministro da Agricultura, Roberto Albino, propôs a distribuição de sementes e insumos agrícolas para os produtores atingidos.
As cheias de 2025-2026 afectaram centenas de milhares de pessoas, destruíram infraestruturas e meios de subsistência em larga escala, mesmo assim, a resposta do Estado mantém-se em socorrer depois da tragédia, em vez de investir seriamente na prevenção.
No campo agrícola, a proposta do ministro em distribuir sementes aos agricultores afectados surge com a lógica aliviar o presente sem garantir o futuro. Ora vejamos, o próprio ministro reconhece a dimensão do problema ao afirmar que são necessários cerca de “170 mil kits de insumos agrários” para responder às perdas provocadas pelas cheias, entretanto, ainda, admite que apenas uma pequena parte desses insumos é produzida internamente, evidenciando uma dependência estrutural e fragilidade do sistema agrícola nacional.
É justo reconhecer que os recursos são limitados e que a dimensão das cheias ultrapassa, muitas vezes, a capacidade imediata de resposta. No entanto, essa limitação não pode servir de justificação permanente. Pelo contrário, deveria ser o ponto de partida para reformas mais profundas, que incluam planeamento territorial sério, investimento em infraestruturas resilientes e fortalecimento da produção nacional.
O ministro chegou a afirmar que a entrega de sementes representa um “passo decisivo” para fortalecer a agricultura, mas esta afirmação merece contestação. Distribuir sementes após uma catástrofe não é uma política agrícola sustentável, e sim uma medida paliativa. Do lado das populações afectadas, a percepção tende a ser mais dura. Para muitas famílias em Bilene, o apoio governamental chega tarde, limitado e não resolve a reconstrução da vida com dignidade.
Receber alimentos ou sementes pode aliviar o imediato, mas não garante estabilidade futura. Neste sentido, o Governo actua, mas actua tarde e de forma fragmentada. As políticas existem, mas carecem de continuidade, profundidade e coerência. E, sobretudo, falta uma visão de longo prazo que transforme a resposta a desastres numa estratégia de resiliência nacional. Moçambique sofre de desastres naturais, gestão estruturalmente frágil do risco.






