Angola está a negociar um empréstimo de apoio orçamental com o Banco Africano de Desenvolvimento (BAD), num momento em que procura gerir simultaneamente pressões fiscais internas e os impactos externos decorrentes da instabilidade no Médio Oriente.O financiamento em discussão, estimado em cerca de 165 milhões de dólares, insere-se numa estratégia mais ampla de mobilização de recursos externos, que inclui o recurso a financiamento bilateral e aos mercados internacionais para cobrir necessidades adicionais próximas de mil milhões de dólares em 2026.Segundo a Ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, o processo encontra-se ainda em fase de preparação, exigindo a implementação prévia de medidas de política económica para viabilizar a aprovação pelo conselho do BAD.A evolução dos preços do petróleo surge como um factor determinante para a trajectória económica angolana.Com o Brent a negociar próximo dos 100 dólares por barril — bem acima dos 61 dólares considerados no orçamento — o país beneficia de um ganho inesperado de receitas, criando uma margem adicional para acomodar choques externos e financiar despesas públicas.Este efeito compensatório permite mitigar o impacto negativo da instabilidade internacional sobre outros sectores da economia, reforçando o papel do petróleo como principal amortecedor macroeconómico.Apesar do ambiente global adverso, o crescimento económico de Angola deverá manter-se em torno de 4% em 2026, sustentado pela expansão do sector petrolífero.A dinâmica evidencia, contudo, a persistente dependência da economia em relação ao crude, num contexto em que outros sectores enfrentam desaceleração devido às condições externas.Um dos principais desafios estruturais permanece o elevado custo do serviço da dívida, que absorve quase metade das projecções orçamentais iniciais para 2026.Perante este cenário, o Governo tem vindo a explorar mecanismos para reduzir encargos, incluindo operações inovadoras como a conversão de dívida em investimento social, nomeadamente no sector da educação.Apesar das pressões, Angola não está, neste momento, a procurar um novo programa de financiamento junto do Fundo Monetário Internacional, optando antes por assistência técnica para melhorar a arrecadação de receitas, a eficiência da despesa e a implementação de reformas estruturais.Esta abordagem reflecte uma tentativa de preservar autonomia na condução da política económica, ao mesmo tempo que se reforça a credibilidade junto dos parceiros internacionais.O actual contexto coloca Angola numa posição ambivalente. Por um lado, beneficia de um ambiente externo favorável ao nível das receitas petrolíferas; por outro, continua exposta a vulnerabilidades estruturais, incluindo elevada dependência do petróleo e forte pressão da dívida.A capacidade de transformar este momento de alívio conjuntural numa trajectória sustentável dependerá da implementação efectiva de reformas e da diversificação da base económica — um desafio recorrente, mas ainda por consolidar.
Fonte: O Económico






