Por: Gentil Abel
A prática de pendurar-se ou viajar pendurado em transportes públicos, frequentemente vista nos chapas (transportes semi-colectivos de passageiros) e autocarros, é um reflexo da superlotação e dos desafios no sistema de mobilidade urbana, especialmente na Área Metropolitana de Maputo, Nampula, Beira e Quelimane. Pois, trata-se de um sinal evidente de um sistema sob pressão, que nos últimos dias se agravou com o que muitos já classificam como uma crise de combustível, ainda que oficialmente existam garantias de abastecimento.
Nos terminais e ao longo das principais vias, a realidade é visível e difícil de ignorar. Passageiros amontoam-se, disputam espaços e, em muitos casos, aceitam viajar pendurados nas portas como única alternativa para chegar ao trabalho, à escola, ao hospital ou ate mesmo à casa. Um transporte semi-colectivo, com capacidade para cerca de 15 passageiros, chega a levar mais de 25 passageiros, num cenário que expõe o desgaste físico e psicológico de quem depende dele diariamente.
A situação torna-se ainda mais crítica quando associada à aparente escassez de combustível. Apesar das informações de que milhões de litros foram recentemente descarregados nos portos de Nacala e da Matola, o sentimento predominante nas ruas é de incerteza. Filas nos postos, redução de circulação de viaturas e aumento do tempo de espera reforçam a percepção de que algo não está a funcionar como deveria. Isso levanta uma questão: Estamos diante de uma falha logística, de problemas de distribuição ou de práticas oportunistas que agravam artificialmente a crise?
Em momentos como este, surgem também distorções preocupantes no comportamento de alguns operadores. Há relatos consistentes de aumento arbitrário de tarifas, com passageiros a pagarem até 100 meticais por trajectos que, em condições normais, custariam menos de 20. Trata-se de uma prática que penaliza directamente os mais vulneráveis e evidencia a fragilidade dos mecanismos de regulação e fiscalização.
Ao mesmo tempo, a segurança dos passageiros parece ter sido relegada para segundo plano. Viajar pendurado não é apenas ilegal, é potencialmente fatal. No entanto, a normalização dessa prática revela um cenário onde a necessidade fala mais alto do que o cumprimento das regras. E quando a fiscalização existe, frequentemente esbarra em limitações estruturais ou, como muitos denunciam, em práticas de corrupção que comprometem a sua eficácia.
Este quadro aponta para um problema mais profundo e estrutural. A mobilidade urbana não pode continuar a ser tratada como uma questão secundária. A falta de investimento consistente em transporte público de qualidade, a insuficiência de autocarros e a gestão ineficiente do sistema criam um ambiente propício ao caos, especialmente em períodos de crise.
Neste momento, a introdução de mais autocarros surge como uma medida necessária para aliviar o sofrimento dos passageiros, sobretudo no período matinal e nas horas de ponta. Em contextos de crise como o actual, torna-se igualmente relevante a mobilização dos Transportes Públicos de Maputo (TPM), operando de forma reforçada, inclusive com viaturas em pares por cada rota e com destinos coincidentes. Essa estratégia poderia melhorar significativamente a mobilidade urbana nos períodos mais críticos, reduzindo a superlotação e oferecendo condições mais dignas de transporte à população.
Paralelamente, é essencial reforçar a fiscalização, garantindo não apenas o cumprimento das tarifas, mas também condições mínimas de segurança e dignidade para os passageiros.




