InícioSaúdePOBREZA E FOME AGRAVAM CENÁRIO HUMANITÁRIO NO PAÍS

POBREZA E FOME AGRAVAM CENÁRIO HUMANITÁRIO NO PAÍS

Por: Gentil Abel

O País enfrenta uma realidade que há anos insiste em marcar o quotidiano de milhares de famílias: a desnutrição infantil. O alerta do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) não é apenas mais um relatório sobre pobreza ou insegurança alimentar. É um sinal de que o país está perante uma emergência humanitária profunda, silenciosa e perigosa, cujas consequências poderão comprometer o futuro de toda uma geração.

Segundo a Unicef, cerca de 100 mil crianças menores de cinco anos deverão necessitar de tratamento contra desnutrição aguda grave ao longo deste ano. O número, por si só, já revela a dimensão do problema. Mas o cenário torna-se ainda mais preocupante quando se sabe que Moçambique possui uma das taxas mais elevadas de desnutrição na África Subsaariana e que aproximadamente 4% das crianças enfrentam níveis críticos de desnutrição aguda, incluindo casos considerados severos, associados a risco imediato de morte.

A crise não surgiu agora, tampouco pode ser explicada apenas pela pobreza do país. Ela é resultado de um conjunto de factores que se acumulam há décadas: fragilidade dos sistemas de saúde, dificuldades de acesso à alimentação adequada, desigualdades sociais e impactos das mudanças climáticas.

Nos últimos anos, Moçambique tem sido sucessivamente atingido por ciclones e cheias. Cada desastre natural destrói culturas agrícolas, interrompe serviços básicos e agrava a vulnerabilidade das comunidades mais pobres. Em muitas zonas afetadas pelas chuvas e inundações, famílias passaram a consumir água imprópria, aumentando os casos de diarreia, uma das principais causas de mortalidade infantil no país.

A própria Unicef reconhece que o país vive uma “crise humanitária de grande escala com um rosto profundamente infantil”. Metade do mais de um milhão de pessoas afetadas pelas cheias recentes são crianças. Num país cuja média etária ronda os 17 anos, ignorar a situação significa comprometer directamente o futuro económico, social e humano do país.

Entretanto, um dos aspectos mais inquietantes deste cenário é a redução do financiamento internacional. A Unicef alerta que Moçambique enfrenta actualmente um défice de 18% nos recursos necessários para garantir Alimentos Terapêuticos Prontos para Uso (ATPU), fundamentais no tratamento da desnutrição aguda grave.

Na prática, isso significa menos suplementos nutricionais, menos medicamentos, menos capacidade logística e menor alcance dos serviços básicos de saúde. Ou seja, enquanto o número de crianças vulneráveis aumenta, os recursos para salvá-las diminuem.

Este é um paradoxo preocupante. A comunidade internacional continua a reconhecer Moçambique como um país prioritário em termos humanitários, mas os apoios financeiros revelam-se insuficientes diante da dimensão da crise. E quando o financiamento falha, a consequência mais imediata recai sobre os mais frágeis: as crianças.

No entanto, a solução exige investimento em agricultura familiar, saneamento, acesso à água potável, educação alimentar e fortalecimento dos serviços comunitários de saúde. Exige também políticas públicas consistentes que coloquem a infância no centro das prioridades nacionais.

Muitas comunidades continuam sem acesso regular a cuidados médicos básicos, enquanto milhares de famílias vivem em situação de insegurança alimentar permanente. Em várias regiões rurais, a fome deixou de ser uma emergência passageira para tornar-se parte da rotina.

Há ainda um elemento frequentemente ignorado no debate público: a desnutrição infantil não afecta apenas a saúde das crianças. Ela reduz capacidades cognitivas e compromete o desempenho escolar. Uma criança subnutrida hoje poderá ser um adulto com menor rendimento escolar, menor produtividade e maior vulnerabilidade económica amanhã.

Por isso, a crise nutricional em Moçambique deve ser encarada não apenas como um problema humanitário, mas também como um desafio de desenvolvimento nacional.

O alerta da Unicef surge, portanto, como um chamado urgente à acção colectiva. O Governo, parceiros internacionais, organizações da sociedade civil e o sector privado precisam agir de forma coordenada e sustentável. Não basta responder às emergências quando os números se tornam alarmantes. É necessário prevenir.

No fundo, os números apresentados pela Unicef representam muito mais do que estatísticas. Representam crianças reais, famílias desesperadas e comunidades inteiras tentando sobreviver entre a fome, as cheias e a incerteza.

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