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Escassez De Divisas Já Fechou Mais De 500 Empresas E Eliminou 15 Mil Empregos Em Moçambique

Resumo

A escassez de divisas em Moçambique levou ao encerramento de mais de 500 empresas e à perda de cerca de 15 mil empregos, segundo um estudo do Centro de Integridade Pública. A capacidade de importação das empresas diminuiu em cerca de 40%, afetando a produção e os investimentos. A taxa de câmbio oficial não reflete a realidade do mercado, podendo a depreciação cambial reduzir o crescimento económico e aumentar a inflação. O relatório destaca que a crise cambial afeta não só as empresas, mas também as famílias, com a perda de empregos a impactar indiretamente cerca de 75 mil pessoas. A estabilidade do metical é considerada "artificial", com um diferencial de cerca de 15% em relação ao mercado paralelo. Os efeitos da crise cambial estendem-se à economia macroeconómica, influenciando a inflação, o crescimento económico, o défice fiscal e a dívida pública.

Questões-Chave:
• Mais de 500 empresas encerraram actividades devido à escassez de divisas;
• Cerca de 15 mil trabalhadores perderam emprego de forma directa;
• Capacidade de importação das empresas caiu aproximadamente 40%;
• Estudo aponta desalinhamento entre taxa de câmbio oficial e condições reais do mercado;
• Depreciação cambial poderá reduzir o crescimento económico e acelerar a inflação;
• CIP alerta para impactos sociais, fiscais e macroeconómicos persistentes.

A persistente escassez de divisas em Moçambique já provocou o encerramento de mais de 500 empresas e a perda de aproximadamente 15 mil postos de trabalho, segundo um estudo divulgado esta terça-feira pelo Centro de Integridade Pública (CIP), que traça um quadro particularmente preocupante sobre os impactos macroeconómicos e sociais da actual crise cambial no país.

O estudo, intitulado “Impactos Macro-Fiscais Associados à Escassez de Divisas e Taxa de Câmbio: O Caso de Moçambique (1990–2024)”, sustenta que as dificuldades persistentes de acesso à moeda estrangeira reduziram em cerca de 40% a capacidade de importação das empresas, afectando directamente a produção, os investimentos e o normal funcionamento da actividade económica.

Durante a apresentação pública do relatório, realizada em Maputo, a investigadora do CIP, Teresa Boene, afirmou que a escassez de divisas passou a constituir um dos principais constrangimentos estruturais à economia nacional, numa altura em que o mercado continua a enfrentar fortes limitações de liquidez externa e um crescente desfasamento entre a taxa de câmbio oficial e a realidade do mercado paralelo.

O relatório mostra que, entre 2024 e 2026, o mercado cambial moçambicano registou uma inversão significativa nas vendas líquidas de divisas, passando para saldos negativos estimados em cerca de 5,89 milhões de dólares por dia em 2025 e 5,52 milhões de dólares em 2026. Paralelamente, o estudo aponta que a estabilidade do metical observada desde 2021 tem sido “artificial”, com um diferencial estimado em cerca de 15% face ao mercado paralelo, citando dados do FMI e do Banco de Moçambique.

O documento alerta que os impactos da crise cambial transcendem o sector empresarial, atingindo directamente os agregados familiares e o bem-estar social. Segundo o CIP, os 15 mil empregos perdidos afectam indirectamente cerca de 75 mil pessoas, considerando a média nacional de cinco membros por agregado familiar. A redução do rendimento disponível das famílias, associada ao aumento do custo de vida, está igualmente a pressionar o consumo agregado e a agravar a vulnerabilidade social.

Câmbio E Inflação Sob Pressão

Do ponto de vista macroeconómico, o estudo conclui que Moçambique permanece estruturalmente vulnerável à escassez persistente de moeda estrangeira e às oscilações cambiais. Segundo os investigadores, a evolução da taxa de câmbio exerce efeitos directos sobre variáveis críticas como inflação, crescimento económico, défice fiscal e dívida pública.

Os resultados econométricos apresentados pelo CIP indicam que um aumento de 1% na taxa de câmbio poderá reduzir o crescimento económico em aproximadamente 0,65% e elevar a inflação em cerca de 0,3%.

O estudo refere ainda que a depreciação cambial agrava os encargos associados à dívida externa, sobretudo num contexto em que uma parte significativa da dívida pública permanece denominada em moeda estrangeira.

Ao longo do período analisado — entre 1990 e 2024 — o relatório identifica uma tendência persistente de desaceleração económica, inflação estruturalmente elevada e crescente vulnerabilidade externa. Segundo os autores, a combinação entre restrições cambiais, elevada dependência de importações e baixa diversificação produtiva tornou a economia particularmente sensível a choques externos.

Sector Privado Sob Pressão Crescente

O trabalho do CIP baseou-se igualmente em entrevistas realizadas entre Fevereiro e Abril de 2026 com gestores de empresas e associações empresariais cujas actividades dependem fortemente de matérias-primas e bens importados.

Além da quebra na capacidade de importação, as empresas relataram dificuldades crescentes na aquisição de insumos, atrasos operacionais, redução de produção e suspensão de investimentos. O estudo aponta ainda impactos negativos sobre a arrecadação fiscal, resultado da desaceleração da actividade económica e do encerramento de unidades produtivas.

O CIP considera que a actual conjuntura evidencia limitações estruturais profundas da economia moçambicana, particularmente a elevada dependência de importações e a reduzida capacidade exportadora fora dos megaprojectos extractivos.

Recomendações Apontam Para Reforma Estrutural

Perante este cenário, o estudo recomenda um conjunto de medidas estruturais para reduzir a vulnerabilidade externa da economia moçambicana. Entre as principais recomendações constam o reforço da produção interna, a diversificação económica, a industrialização, o fortalecimento da capacidade exportadora e uma gestão mais eficiente da dívida externa e da política cambial.

Os autores defendem igualmente maior investimento em infra-estruturas produtivas, capital humano, modernização agrícola e melhoria do ambiente de negócios, argumentando que a redução da dependência estrutural de divisas será decisiva para restaurar a estabilidade macroeconómica e assegurar crescimento sustentável no médio e longo prazo.

Fonte: O Económico

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