Por: Alfredo Júnior
O alerta lançado esta semana pela Organização Meteorológica Mundial (OMM) confirma aquilo que muitos cientistas vêm repetindo há anos: o aquecimento global deixou de ser uma ameaça futura e transformou-se numa crise presente, estrutural e cada vez mais difícil de conter. Segundo o novo relatório “Actualização Climática Global Anual e Decenal”, as temperaturas médias globais deverão permanecer em níveis recorde nos próximos cinco anos, aproximando o planeta de um ponto crítico climático com impactos potencialmente irreversíveis.
O documento, produzido pela OMM em parceria com o Met Office do Reino Unido, prevê que as temperaturas globais anuais entre 2026 e 2030 poderão situar-se entre 1,3°C e 1,9°C acima dos níveis pré-industriais registados entre 1850 e 1900. Mais preocupante ainda é a previsão de 91% de probabilidade de o planeta ultrapassar temporariamente a barreira de 1,5°C durante pelo menos um desses anos.
Embora o Acordo de Paris considere o limite de 1,5°C numa média de longo prazo e não num único ano isolado, os cientistas alertam que a frequência crescente desses episódios demonstra que o mundo está perigosamente próximo de falhar o principal objectivo climático internacional.
O relatório também aponta uma probabilidade de 86% de que um dos próximos cinco anos ultrapasse 2024 como o ano mais quente já registado na história moderna. Isso significa que o planeta poderá entrar numa sequência contínua de recordes térmicos num intervalo extremamente curto de tempo.
A gravidade da situação torna-se ainda mais evidente quando se observa a velocidade da mudança climática recente. Entre 2023 e 2025, o mundo registou os três anos mais quentes desde o início das medições modernas em 1850. Os dados mostram que o aquecimento já não acontece de forma gradual como previsto há décadas, mas sim através de aceleração cada vez mais intensa impulsionada pela emissão contínua de gases com efeito de estufa.
O principal responsável continua a ser o modelo energético global baseado em combustíveis fósseis. Petróleo, carvão e gás natural permanecem no centro da economia mundial, apesar do crescimento das energias renováveis. As emissões globais de dióxido de carbono continuam elevadas e a concentração de CO₂ na atmosfera mantém tendência histórica de subida.
Ao mesmo tempo, fenómenos climáticos naturais como o El Niño intensificam temporariamente o aquecimento global. O relatório da OMM alerta para a possível formação de um novo episódio forte de El Niño entre o final de 2026 e 2027, o que poderá empurrar ainda mais as temperaturas globais para níveis extremos.
Mas o impacto do aquecimento global já não pode ser medido apenas em números científicos. As consequências tornaram-se visíveis em praticamente todas as regiões do planeta.
Ondas de calor extremas, secas prolongadas, incêndios florestais, ciclones mais intensos, cheias devastadoras e alterações nos padrões agrícolas passaram a ocorrer com maior frequência e intensidade. O Ártico, por exemplo, continua a aquecer a uma velocidade muito superior à média global. Algumas projecções indicam que a região poderá aquecer até 3,5 vezes mais rapidamente do que o resto do planeta nos próximos anos.
O derretimento acelerado do gelo polar e o aquecimento dos oceanos representam riscos globais crescentes, incluindo subida do nível do mar, erosão costeira, impactos na pesca e aumento da vulnerabilidade de cidades costeiras.
Moçambique é considerado um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas no mundo. Nos últimos anos, o país enfrentou ciclones devastadores como Idai, Kenneth, Freddy e Gombe, que destruíram infra-estruturas, afectaram a agricultura, deslocaram milhares de pessoas e agravaram a insegurança alimentar.
A dependência da agricultura de subsistência, a fragilidade das infra-estruturas urbanas e a limitada capacidade de adaptação tornam países como Moçambique particularmente expostos aos efeitos do aquecimento global. Pequenas alterações nos padrões de chuva ou temperatura podem afectar directamente produção agrícola, preços dos alimentos, acesso à água e estabilidade económica.
Enquanto governos discutem metas climáticas e transição energética em fóruns internacionais, muitos países continuam a expandir exploração petrolífera, produção de gás natural e mineração de carvão. A própria corrida global por segurança energética após a guerra na Ucrânia levou várias economias a reforçar temporariamente o consumo de combustíveis fósseis.
A transição energética global avança, mas ainda de forma insuficiente para impedir aceleração do aquecimento. Embora energias renováveis estejam a crescer rapidamente, o sistema económico mundial continua estruturalmente dependente de petróleo, gás e carvão.
Outro aspecto preocupante é o impacto desigual da crise climática. Os países mais pobres, que historicamente contribuíram menos para as emissões globais, tendem a sofrer os efeitos mais severos do aquecimento global. África representa uma pequena parcela das emissões mundiais, mas enfrenta alguns dos maiores riscos climáticos do planeta.
A questão climática deixou também de ser apenas ambiental. Tornou-se económica, geopolítica e social. O aumento das temperaturas afecta segurança alimentar, migração, estabilidade política, saúde pública, produtividade económica e acesso a recursos naturais.
Os próximos cinco anos poderão ser decisivos para determinar se o mundo ainda conseguirá limitar os impactos mais graves da crise climática ou se entrará numa fase de aquecimento cada vez mais difícil de controlar.
O relatório da OMM mostra que a ciência já não trabalha com cenários distantes. O planeta aproxima-se rapidamente de limites climáticos que durante décadas pareciam improváveis. E enquanto as temperaturas continuam a bater recordes, cresce também a percepção de que o tempo para evitar consequências mais profundas está a tornar-se cada vez mais curto.






