Por: Gentil Abel
O cancro deverá afectar, directa ou indirectamente, cerca de 92% da população mundial, seja através do diagnóstico da doença ou da sua ocorrência em familiares próximos. O alerta consta de um novo relatório conjunto da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Agência Internacional para a Investigação do Cancro (IARC), divulgado recentemente, e aponta para o agravamento da doença como um dos maiores desafios da saúde pública mundial.
Segundo o relatório, estima-se que uma em cada cinco pessoas desenvolverá cancro ao longo da vida. A OMS alerta que a doença já representa uma crescente crise sanitária, social e económica, afectando milhões de famílias em todo o mundo. Embora tenham sido registados progressos na prevenção, diagnóstico e tratamento, o acesso desigual aos cuidados de saúde continua a determinar as possibilidades de sobrevivência dos doentes.
Em 2024, foram registados mais de 20,6 milhões de novos casos de cancro em todo o mundo, dos quais 19,5 milhões excluindo o cancro de pele não melanoma. Entre os homens, o cancro do pulmão foi o mais frequente, com cerca de 1,6 milhão de novos casos, seguido pelo cancro da próstata, com 1,5 milhão.
Nas mulheres, o cancro da mama manteve-se como o tipo mais diagnosticado, com 2,4 milhões de novos casos, enquanto o cancro do pulmão ocupou a segunda posição, com cerca de um milhão de diagnósticos.
O relatório indica ainda que o cancro colorrectal foi o terceiro mais comum entre homens e mulheres. Em 2024, foram registados aproximadamente 1,1 milhão de novos casos entre os homens e 900 mil entre as mulheres.
A doença continua igualmente a afectar milhares de crianças. De acordo com a OMS, cerca de 400 mil crianças e adolescentes, com idades entre os zero e os 19 anos, são diagnosticados com cancro todos os anos, sendo a maioria dos casos registada em países de baixo e médio rendimento.
Em relação à mortalidade, o relatório estima que o cancro tenha provocado 9,7 milhões de mortes em 2024. Deste total, mais de 4,8 milhões ocorreram entre pessoas com idades entre os 30 e os 69 anos, evidenciando o peso da doença nas mortes prematuras.
As projecções indicam que um em cada nove homens e uma em cada 13 mulheres poderão morrer de cancro antes dos 75 anos. Além disso, a doença já representa 16,5% de todas as mortes registadas no mundo, sendo actualmente a segunda principal causa de morte, apenas atrás das doenças cardiovasculares.
O impacto do cancro vai além da saúde. Segundo a OMS, as mortes provocadas pela doença deixaram 2,45 milhões de crianças órfãs em 2020. Paralelamente, milhões de famílias enfrentam dificuldades económicas devido aos elevados custos do tratamento, perda de rendimento e despesas associadas aos cuidados médicos.
O relatório revela ainda que mais de metade das pessoas afectadas desenvolveram problemas de saúde mental e 45% enfrentaram dificuldades financeiras.
As previsões da OMS e da IARC apontam para um crescimento contínuo da doença. Até 2050, o número anual de novos casos poderá atingir 35 milhões, representando um aumento de 66,7% em relação aos níveis actuais.
No entanto, a organização alerta que o aumento será mais acentuado nos países de baixo rendimento, onde os novos casos poderão crescer 133%, pressionando ainda mais sistemas de saúde já considerados frágeis.
O relatório conclui que reduzir o impacto do cancro dependerá não apenas dos avanços científicos, mas também da capacidade dos países em garantir acesso equitativo à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao tratamento, diminuindo as desigualdades que continuam a comprometer a sobrevivência de milhões de pessoas.






