Por: Gentil Abel
A recuperação das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) voltou a ganhar destaque depois de o Governo aprovar o Plano Director da Aviação Civil (PDAC) 2026–2045. A expectativa é que o documento sirva de base para revitalizar a companhia estatal e impulsionar o desenvolvimento do sector aeronáutico. No entanto, o próprio plano reconhece que o caminho para a recuperação será longo, exigirá reformas profundas, elevados investimentos e capacidade para enfrentar desafios acumulados ao longo de vários anos.
Antes mesmo da aprovação deste plano, a LAM já atravessava uma crise marcada por problemas de gestão, endividamento crescente, dificuldades no pagamento de fornecedores de combustível e taxas aeroportuárias, além de sucessivos casos de corrupção interna. Como consequência, a empresa perdeu grande parte da sua capacidade operacional, deixou de contar com uma frota própria suficiente e passou a depender, em muitos casos, do aluguer de aeronaves e de serviços prestados por empresas terceiras.
Perante este cenário, o Plano Director da Aviação Civil (PDAC) coloca a recuperação da transportadora nacional entre as prioridades estratégicas para os próximos vinte anos. O documento reconhece que a LAM continua a desempenhar um papel essencial na ligação entre as províncias do país, mas alerta que a sua sustentabilidade está comprometida por diversos factores estruturais.
Entre os principais problemas identificados estão o envelhecimento da frota, a reduzida rentabilidade das operações, as limitações financeiras, a perda de competitividade e o aumento da concorrência por parte de companhias aéreas da região e do mercado internacional. Assim sendo, o plano considera que, sem uma reestruturação abrangente, a empresa continuará a perder espaço no mercado e terá dificuldades para acompanhar as exigências actuais da aviação, cada vez mais orientadas para a eficiência, inovação tecnológica, segurança e qualidade dos serviços.
Desta feita, o Governo pretende implementar um conjunto de medidas destinadas a inverter este quadro. Entre elas destacam-se a renovação e expansão da frota, o reforço da governação corporativa, a melhoria da gestão financeira, a modernização tecnológica, a ampliação da rede de destinos e a criação de parcerias estratégicas com operadores internacionais.
O objectivo passa por transformar a LAM numa empresa mais eficiente, financeiramente sustentável e menos dependente do financiamento do Estado. No entanto, o próprio plano observa que mais de 80% das operações da companhia continuam concentradas em voos domésticos, realidade que limita a geração de receitas em moeda estrangeira e reduz as oportunidades de expansão do negócio.
Num mercado interno relativamente pequeno e fortemente influenciado pela situação económica do país, qualquer desaceleração da actividade económica tende a reflectir-se directamente na procura por transporte aéreo. Ao mesmo tempo, a reduzida presença em rotas internacionais impede a transportadora de aproveitar o crescimento do tráfego regional na África Austral e competir em mercados com maior potencial de rentabilidade.
Outro desafio identificado pelo PDAC está relacionado com a renovação da frota. Para ultrapassar este obstáculo, o documento recomenda a adopção do modelo internacional conhecido como Sale and Leaseback, mecanismo que permite vender aeronaves a instituições financeiras e, posteriormente, alugá-las, libertando recursos para novos investimentos.
A situação financeira da companhia constitui igualmente uma das maiores preocupações. Segundo o Plano Director, a LAM acumula uma dívida estimada em cerca de 4,97 mil milhões de meticais junto da Aeroportos de Moçambique (ADM). Por sua vez, a própria ADM enfrenta dificuldades financeiras, apresentando um património líquido negativo superior a 1,26 mil milhões de meticais e uma dívida global acima dos 24 mil milhões de meticais.
Desta forma, os problemas financeiros da transportadora acabam por afectar outras instituições estratégicas do sector, tornando o processo de recuperação ainda mais complexo e exigindo soluções coordenadas entre diferentes entidades.
Enquanto procura reorganizar a sua estrutura, a LAM enfrenta também um ambiente competitivo cada vez mais exigente. Nos últimos anos, várias companhias aéreas da África Austral reforçaram as suas operações, aumentaram as respectivas frotas, abriram novas rotas e investiram significativamente em tecnologia, eficiência operacional e melhoria do atendimento aos passageiros.
Assim sendo, caso a transportadora nacional não acompanhe este ritmo de modernização, poderá perder competitividade, sobretudo nas ligações regionais, onde a presença de operadores estrangeiros continua a crescer.
O PDAC chama igualmente a atenção para as limitações existentes nas infra-estruturas aeroportuárias e nos sistemas tecnológicos. Uma auditoria identificou vulnerabilidades consideradas graves na cibersegurança da LAM e do Aeroporto Internacional de Maputo, situação que evidencia a necessidade de reforçar os investimentos na protecção digital, na gestão de riscos e na modernização dos sistemas operacionais.
Outro obstáculo apontado pelo documento é a escassez de profissionais qualificados para responder às exigências da aviação moderna. O crescimento do sector exige pilotos, engenheiros aeronáuticos, técnicos de manutenção, controladores de tráfego aéreo, especialistas em tecnologias de informação e gestores com elevada qualificação.
Por fim, o Plano Director reconhece que o sucesso da recuperação da LAM não dependerá apenas das reformas internas. Factores externos, como as oscilações cambiais, o aumento do preço internacional dos combustíveis, a inflação, períodos de desaceleração económica, crises sanitárias ou conflitos internacionais, poderão influenciar directamente os custos operacionais da companhia e reduzir a procura pelo transporte aéreo, condicionando o alcance das metas definidas para os próximos anos.






