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Mercado Global De Gás Enfrenta Nova Pressão. O Que Significa Para Moçambique?

Questões-Chave

A indústria mundial do gás natural entrou novamente num período de elevada incerteza. Depois de um breve período em que se antecipava uma gradual normalização dos mercados energéticos, o agravamento das tensões no Médio Oriente, particularmente em torno do Estreito de Ormuz, voltou a colocar em evidência a vulnerabilidade das cadeias globais de abastecimento de gás natural liquefeito (GNL).

Segundo uma análise que reúne as mais recentes projecções da Agência Internacional de Energia (AIE), do International Gas Union (IGU) e da Reuters, três factores continuam a condicionar o mercado internacional: oferta limitada, preços elevados e risco geopolítico. A recente deterioração da situação regional veio reforçar simultaneamente estes três elementos, aumentando a volatilidade dos mercados energéticos.

A Procura Mundial Volta A Recuar

De acordo com a mais recente previsão da Agência Internacional de Energia, o consumo global de gás deverá diminuir 0,5% em 2026, representando a terceira contracção anual nos últimos sete anos. Segundo a instituição, a combinação entre oferta restrita e preços elevados deverá reduzir sobretudo o consumo industrial e a utilização de gás na produção de electricidade.

A evolução representa uma inversão relativamente às expectativas existentes há poucos meses, quando o mercado acreditava que a estabilização das tensões entre o Irão e os Estados Unidos poderia aliviar parte da pressão sobre o abastecimento internacional.

Contudo, o recrudescimento da instabilidade regional voltou a aumentar os custos do transporte marítimo, dos seguros e da própria percepção de risco dos mercados.

Europa E Ásia Continuam Sob Pressão

A desaceleração da procura não será homogénea.

Segundo a AIE, o Médio Oriente poderá registar uma redução de cerca de 4% no consumo de gás, a primeira contracção anual desde 1993, consequência directa da instabilidade regional e da reorganização dos mercados energéticos.

Na Ásia, onde se concentra uma parcela crescente da procura mundial de GNL, o consumo deverá diminuir aproximadamente 0,5%, uma vez que os preços elevados tornam novamente o carvão mais competitivo para a produção de electricidade e reduzem igualmente a procura industrial.

Na Europa, a procura deverá recuar mais de 2%, reflectindo simultaneamente os preços elevados e a expansão contínua da produção de electricidade proveniente de fontes renováveis.

Este último aspecto merece particular atenção.

Ao contrário da crise energética de 2022, quando a Europa aumentou fortemente as importações de GNL para substituir o gás russo, o actual ajustamento resulta cada vez mais da combinação entre eficiência energética, electrificação, crescimento das energias renováveis e procura industrial moderada.

Mercados Emergentes Permanecem Mais Vulneráveis

O International Gas Union alerta igualmente que preços persistentemente elevados poderão afectar sobretudo os mercados emergentes asiáticos.

Segundo a organização, vários países poderão reduzir importações de GNL devido ao aumento dos custos, adiando investimentos ou regressando temporariamente ao carvão para assegurar a produção de electricidade.

Apesar disso, o relatório anual do IGU recorda que 2025 foi um ano recorde para o comércio internacional de GNL, impulsionado pelo crescimento das exportações norte-americanas e pelo reforço das compras europeias, embora as importações asiáticas tenham diminuído.

Este aparente paradoxo demonstra que o mercado continua extremamente segmentado: enquanto algumas economias conseguem absorver preços elevados, outras reduzem consumo por razões estritamente económicas.

O Estreito De Ormuz Continua A Ser Um Dos Maiores Riscos Do Mercado

A deterioração da situação no Médio Oriente voltou igualmente a chamar a atenção para um dos maiores pontos de vulnerabilidade da segurança energética mundial.

O Estreito de Ormuz constitui uma das principais rotas marítimas para o transporte internacional de petróleo e gás natural liquefeito. Qualquer interrupção, mesmo temporária, pode afectar rapidamente os custos de transporte, os prémios de seguro marítimo e os preços internacionais da energia.

Embora o abastecimento mundial não tenha sido interrompido, a simples percepção de risco já provocou um aumento significativo da incerteza entre operadores e investidores, reforçando a volatilidade dos mercados.

O Que Significa Este Cenário Para Moçambique?

Para Moçambique, o contexto internacional apresenta uma combinação de oportunidades e riscos.

Por um lado, a manutenção de preços relativamente elevados pode reforçar a atractividade económica dos grandes projectos nacionais de gás natural liquefeito, incluindo o Coral Sul FLNG, actualmente em produção, o Coral Norte FLNG, que se aproxima da decisão final de investimento, o Mozambique LNG, liderado pela TotalEnergies, e o Rovuma LNG, desenvolvido pela ExxonMobil e parceiros.

O O.Económico tem vindo a acompanhar estes projectos e recorda que a capacidade potencial combinada dos principais desenvolvimentos da Bacia do Rovuma poderá ultrapassar 25 milhões de toneladas anuais de GNL, colocando Moçambique entre os maiores exportadores mundiais nas próximas décadas.

Por outro lado, a crescente volatilidade internacional reforça igualmente a necessidade de acelerar decisões de investimento, assegurar estabilidade regulatória e diversificar mercados de exportação.

Quanto maior for a dependência de um número reduzido de compradores ou de rotas marítimas específicas, maior será também a exposição aos riscos geopolíticos.

O Gás Continua A Ser Um Combustível De Transição, Mas O Mercado Está A Mudar

Outro elemento importante da análise reside na própria evolução estrutural da procura mundial.

Embora o gás natural continue a desempenhar um papel relevante na transição energética, sobretudo como substituto do carvão, observa-se uma crescente pressão proveniente do rápido crescimento das energias renováveis, da electrificação industrial, da melhoria da eficiência energética e da redução das emissões de carbono.

O cancelamento recente de um grande projecto de hidrogénio azul e captura de carbono nos Estados Unidos, referido na análise da AIE, demonstra igualmente que alguns modelos considerados estratégicos para a descarbonização enfrentam dificuldades económicas, sociais e regulatórias.

Tudo indica, por isso, que o mercado mundial de gás continuará importante durante várias décadas, mas tornar-se-á progressivamente mais competitivo, selectivo e sensível às oscilações geopolíticas.

Uma Janela De Oportunidade Que Não Será Permanente

Para Moçambique, a principal conclusão é clara.

O actual contexto continua a oferecer espaço para o desenvolvimento dos grandes projectos de GNL, sobretudo porque a procura mundial permanecerá elevada em termos absolutos. Contudo, essa oportunidade não deverá ser considerada permanente.

A concorrência entre exportadores aumenta rapidamente, novas capacidades de produção entram em funcionamento nos Estados Unidos, Qatar e Canadá, enquanto muitos países aceleram simultaneamente os investimentos em energias renováveis e eficiência energética.

Neste cenário, a vantagem competitiva de Moçambique dependerá menos da abundância das suas reservas e cada vez mais da rapidez com que conseguir transformar os seus recursos em produção, exportações, receitas públicas e desenvolvimento económico.

O verdadeiro desafio consiste, portanto, em utilizar a actual janela de oportunidade para construir uma economia mais diversificada, industrializada e resiliente. Afinal, a riqueza do gás não será medida apenas pelo volume exportado, mas pela capacidade de converter esse recurso finito em capital humano, infra-estruturas, empresas nacionais mais fortes e crescimento inclusivo.

Fonte: O Económico

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