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Banco De Moçambique Alerta Para Possível Inflação De Dois Dígitos E Travagem Da Economia

Resumo

O Banco de Moçambique reviu em alta as perspectivas de inflação, admitindo a possibilidade de atingir dois dígitos devido a pressões geopolíticas no Médio Oriente, aumento dos preços do petróleo e fragilidade fiscal. O Comité de Política Monetária (CPMO) manteve a taxa de juro em 9,25%, mas aumentou as reservas obrigatórias em meticais para 39% para absorver o excesso de liquidez. O Banco Central alerta para riscos inflacionários e atrasos do Estado, prevendo uma desaceleração da atividade económica devido ao impacto da subida dos combustíveis. A paralisação da Mozal deverá afetar a indústria transformadora e exportações, contribuindo para um possível abrandamento da economia no segundo trimestre de 2026.

Questões-Chave:
• Banco de Moçambique admite possibilidade de inflação atingir dois dígitos;
• CPMO manteve taxa MIMO em 9,25%, mas agravou reservas obrigatórias em meticais para 39%;
• Conflito no Médio Oriente continua a pressionar combustíveis, alimentos e logística global;
• Paralisação da Mozal deverá afectar indústria transformadora e exportações;
• Dívida pública interna aumentou para 493,1 mil milhões de meticais;
• Banco Central alerta para agravamento do risco fiscal e atrasos do Estado.

O Banco de Moçambique reviu em alta as perspectivas de inflação para o país e admite que a subida generalizada de preços poderá atingir níveis de dois dígitos nos próximos meses, num contexto marcado pelo agravamento das tensões geopolíticas no Médio Oriente, pressão sobre combustíveis, fragilidade fiscal e desaceleração da actividade económica doméstica.

A avaliação consta do mais recente Relatório de Conjuntura Económica e Perspectivas de Inflação – Maio de 2026, divulgado após a terceira sessão ordinária do Comité de Política Monetária (CPMO), realizada a 25 de Maio.

No documento, o Banco Central reconhece que “as projecções de médio prazo da inflação foram revistas em alta, podendo atingir dois dígitos, dependendo da duração do conflito no Médio Oriente”.

A instituição considera que os actuais riscos inflacionários resultam sobretudo do aumento dos preços internacionais do petróleo, da pressão sobre alimentos, da inflação importada, da subida doméstica dos combustíveis, da intermitência no fornecimento de combustíveis, das perturbações logísticas globais e dos efeitos climáticos internos.

CPMO Mantém Taxa MIMO, Mas Endurece Absorção De Liquidez

Apesar do agravamento das perspectivas inflacionárias, o CPMO decidiu manter a taxa de juro de política monetária, MIMO, em 9,25%.

Entretanto, numa medida considerada particularmente significativa pelos analistas, o Banco de Moçambique aumentou o coeficiente de reservas obrigatórias para passivos em moeda nacional de 29% para 39%, visando absorver o excesso de liquidez no sistema financeiro.

Segundo o relatório, a decisão surge numa altura em que o Banco Central identifica riscos acrescidos de pressão inflacionária decorrentes da liquidez bancária e do agravamento das condições fiscais do Estado.

O CPMO manteve igualmente a Facilidade Permanente de Cedência de Liquidez em 12,25%, a Facilidade Permanente de Depósitos em 6,25% e as reservas obrigatórias em moeda estrangeira em 29,5%.

Banco Central Vê Travagem Da Economia E Impacto Da Mozal

No capítulo dedicado à economia doméstica, o Banco de Moçambique antevê um “refreamento da actividade económica” já no segundo trimestre de 2026.

A instituição associa este cenário ao impacto da subida dos combustíveis líquidos sobre praticamente todos os sectores económicos, incluindo transportes, agricultura, indústria transformadora, construção e pescas.

O relatório acrescenta ainda que a paralisação das actividades da Mozal, colocada em regime de conservação e manutenção desde 15 de Março, deverá afectar significativamente o desempenho do sector secundário e das exportações nacionais.

Segundo o Banco Central, a Mozal representa cerca de 13% da indústria transformadora moçambicana, considerando a média do período 2020–2024.

O documento reconhece igualmente que a economia continua fragilizada pelos efeitos dos eventos climáticos extremos que afectaram as regiões Sul e Centro do país no início do ano.

Dívida Pública E Risco Fiscal Continuam A Agravar Pressões

O Banco de Moçambique volta também a destacar a deterioração da situação fiscal e o impacto crescente do endividamento público sobre o sistema financeiro nacional.

Segundo o relatório, a dívida pública interna, excluindo contratos de mútuo, locação e responsabilidades em mora, aumentou para 493,1 mil milhões de meticais até Maio de 2026, representando um crescimento de 18,5 mil milhões face a Dezembro de 2025.

O Banco Central alerta que os atrasos nos pagamentos do Estado, tanto da dívida interna como externa, continuam a afectar a apetência por títulos públicos, a liquidez bancária, o funcionamento do mercado monetário e a percepção de risco do país.

A instituição refere ainda que os bancos comerciais continuam a incorporar percepção de elevado risco fiscal nas suas decisões, contribuindo para a rigidez das taxas de juro do mercado monetário.

Metical Mantém Estabilidade Face Ao Dólar

Apesar do agravamento do contexto externo, o relatório indica que o Metical continua relativamente estável face ao dólar norte-americano.

Segundo o Banco Central, a taxa média de referência manteve-se praticamente inalterada em torno de 63,91 meticais por dólar em Maio de 2026.

No entanto, o Metical depreciou-se face ao rand sul-africano, num contexto em que a África do Sul continua a enfrentar constrangimentos estruturais e energéticos, agravados pelos efeitos do conflito no Médio Oriente.

Petróleo Acima Dos 100 Dólares Agrava Perspectivas

Nas projecções de médio prazo, o Banco de Moçambique assume que os preços internacionais do petróleo deverão permanecer acima dos 100 dólares por barril em 2026, reflectindo os impactos persistentes do conflito no Médio Oriente.

A instituição admite igualmente que os preços dos alimentos poderão continuar pressionados devido às perturbações logísticas globais e à disrupção no comércio internacional de fertilizantes e matérias-primas agrícolas.

No plano interno, o Banco Central considera que os principais riscos continuam associados ao aumento dos combustíveis e transportes, aos efeitos de segunda ronda sobre preços, aos choques climáticos, à pressão sobre o Orçamento do Estado e à persistência dos atrasos nos pagamentos públicos.

Fonte: O Económico

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