O Papa Leão XIV torna-se o primeiro Papa a reconhecer publicamente a contribuição da Igreja Católica para a colonização e a escravização e a pedir perdão formal em nome da instituição. É um pedido que chega com um certo atraso? Sim! Mas é um gesto muito significativo, com força simbólica importante. É óbvio que, ao longo da trajectória da Igreja Católica, ao longo dos séculos, tivemos muitos clérigos que estiveram no lugar de fazer esse reconhecimento, inclusive pedindo perdão individualmente.
Mais do que isso, temos, na história da Igreja Católica, a contribuição de clérigos negros, sobretudo provenientes do continente africano. Olhando para o papel que a Igreja Católica exerceu na colonização, fazendo uma autocrítica profunda, há um movimento de reversão dessa imagem a partir de dentro. Por exemplo, em 19[56], é publicado um manifesto intitulado «Os Padres Negros Interrogam-se». E o que eles interrogavam? Exactamente o papel que a Igreja Católica teve no processo de colonização
De facto, ao longo da história da Igreja Católica, temos teólogos, padres e clérigos importantes que foram muito críticos em relação ao papel da Igreja. Mas o Papa Leão XIV “surpreende” por ser, e aí está a 'peculiaridade', o primeiro Papa a fazer esse reconhecimento em público e, mais do que isso, pedir perdão publicamente pela colonização.
Por mais que isso não tenha um impacto directo, olhando para trás, já faz bastante tempo que esse pedido de perdão é esperado. Ele é extremamente importante porque reaquece o debate. Reconhecer a contribuição da Igreja Católica para a colonização e a escravização é fundamental. Aliás, muitos entendem, e eu me junto a eles, que o alcance e a força da colonização e da escravização seriam muito difíceis sem a contribuição da Igreja Católica ao longo dessa história. Sobretudo porque foi a Igreja que deu a 'legitimidade' a Deus para justificar processos de escravização, afirmando que outros povos, em especial o povo africano, poderiam ser escravizados por sua suposta 'inferioridade'. Ou ainda que pessoas negras e africanas não tivessem alma.
A Igreja Católica tem um papel importante nessa grande diáspora de escravização ao longo da história e é fundamental para a composição de sociedades, países e nações no Caribe, nos Estados Unidos e na América Latina, em especial no Brasil, um dos grandes territórios desse processo.
Por isso, a opinião do Papa XIV não é uma opinião qualquer, nem um pedido de perdão que se perde no tempo por estar muito distante do período de escravização. Não! Ao contrário, ele reaquece e traz de volta o debate de que essa crítica é contundente, importante e necessária. A exigência desse perdão é uma exigência de muitos povos ao longo da história do continente africano, da América Latina, do Caribe e de muitos lugares onde a escravização deixou sua marca e formou sociedades.
Portanto, o Papa Leão XIV, como Papa, reconhece o papel da Igreja Católica no processo de escravização, traz a escravização novamente ao debate e faz pensar e discutir o legado, o papel, a influência e as muitas ondas e consequências da escravização que marcam diversos países.






