InícioRevistaTecnologiaRAÍZES DO RESSURGIMENTO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO EM MOÇAMBIQUE

RAÍZES DO RESSURGIMENTO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO EM MOÇAMBIQUE

Resumo

O Professor António César de Freitas foi fundamental na introdução do ensino de computação na Universidade de Lourenço Marques nos anos 70. Com a falta de verba para adquirir mainframes modernos, optou por aceitar dois Elliott 803B da NCR em Joanesburgo. Estas máquinas de 2ª geração, com CPU baseado em transístores, tinham memória magnética e periféricos como leitores de fita de papel e impressoras Anadex. O Professor deu palestras sobre programação nessas máquinas, utilizando a linguagem Elliott Autocode. Este testemunho destaca a importância do Prof. César de Freitas na introdução da informática na ULM, apesar das limitações de recursos da época.

Este é um testemunho pessoal da minha participação no erigir do CIUEM nos primórdios dos anos 70 do século passado. A ver se ainda me recordo do essencial e, desde já, as minhas desculpas por eventuais imprecisões…

 CIUEM, ANTECEDENTES…

O grande impulsionador do ensino de computação e informática em geral na então Universidade de Lourenço Marques (ULM) foi o Professor António César de Freitas, doutorado pela Universidade de Cambridge e especialista em Análise Numérica. Em Cambridge, o Prof. César de Freitas chegara a trabalhar com um dos primeiros computadores de 1g.ª Geração, o EDSAC, onde pautavam-se já muitas das ideias que viriam a integrar os modernos computadores.

Professor de Análise Numérica e, mais tarde, Director do Departamento de Matemática, cedo procurou dotá-lo de um computador que pudesse apoiar as necessidades de cálculo científico associadas ao ensino e à investigação do Departamento e também aos cursos ministrados na Faculdade de Engenharia. Na altura, em finais dos anos sessenta, começavam a ser instalados na então Lourenço Marques, mainframes ICL 1900, britânicos, de 3ª geração, concorrentes da família IBM System/360. Lembro-me de que um destes ICL 1900 foi adquirido pela administração da COOP, o bairro no fim da Av. Keneth Kaunda, e que outro foi exposto numa das FACIM…

A verdade, porém, é que, por muito desejáveis que fossem, a ULM não dispunha da verba necessária para a aquisição de uma destas máquinas.  O Professor César de Freitas optou então por aceitar a oferta de dois Elliott 803B que a delegação da NCR em Joanesburgo tinha ao seu serviço (também os comercializava sob a designação de NCR-Elliott 803B) e que, tendo decidido substituí-los por equipamento mais moderno e potente, procurava quem quisesse ficar com eles. Eram máquinas ainda de 2ª geração e que haviam entrado ao serviço no início dos anos sessenta, equipando então a maioria das universidades britânicas.  O seu CPU baseava-se em transístores discretos, tinha uma palavra de 40 bits, o processamento era em série; e memória central, magnética, de 4096 palavras (podia ser duplicada para 8192 palavras), era baseada em pequenos núcleos de ferrite. Como periféricos, dispunha de leitores de fita de papel perfurada para a entrada de programas e dados, e também de perfuradores de fita de papel para a saída de resultados, que podiam depois ser lidos e impressos numa teletype Creed. Vieram também impressoras de tambor americanas Anadex, de impressão em linha, que conseguimos mais tarde pôr a funcionar, bem como unidades de banda magnética de 35 mm da Kodak, que nunca chegaram a funcionar com a necessária fiabilidade (Fig. 1).

Figura 1 – Computador de 2ª Geração Elliott 803B

Mesmo antes das máquinas chegarem e serem instaladas, o Prof. César de Freitas deu uma série de palestras sobre como programar nestas máquinas utilizando a sua linguagem de alto nível, Elliott Autocode, à qual eu, estudante na altura do último ano de Engenharia Electrotécnica, assisti avidamente.

Assim, quando, uma vez terminado o meu curso em 1970, o Professor César de Freitas me convidou para Assistente no Departamento de Matemática, uma das minhas funções, para além das de docência, foi precisamente tomar conta destas duas máquinas que ainda estavam a ser instaladas no átrio do 3º Andar do Edifício da Reitoria na Praça 25 de Junho onde estava então sediado o Departamento de Matemática - aprender a operá-las, estudar o seu hardware (horas intermináveis à volta dos esquemas electrónicos do equipamento e a ouvir bobinas gravadas em inglês explicando como tudo aquilo funcionava), familiarizar-me com a sua programação e dirigir a sua operação e manutenção, tendo o Departamento contratado para o efeito uma Operadora de Computador e dois Técnicos de Manutenção.

Foi assim criada uma estrutura, que se designou informalmente por Centro de Informática da Universidade de Lourenço Marques (CIULM), operando na estrita dependência do Departamento de Matemática.

Com estas máquinas a funcionar em pleno, começou-se então a ensinar programação de computadores e disciplinas afins na Universidade, bem como a apoiar alguma investigação — sobre teoria das cascas no Departamento de Engenharia Mecânica e pela Dra. Raquel Valença, do Departamento de Matemática, sobre como automatizar a confecção de horários, o que envolvia o tratamento de matrizes.

Foi também por esta altura, e segundo uma ideia do Professor José da Rosa Taborda, docente então do Departamento de Matemática, que equiparava a medição de um ângulo ao cálculo de uma probabilidade, que se construiu o protótipo de um dispositivo, designado por CODAR (Comparador Digital de Arcos), destinado a testar este novo paradigma na medição de ângulos.  A componente mecânica, concebida pelo Professor Rosa Taborda, foi construída nas oficinas do Departamento de Física da Universidade e a parte electrónica foi construída por mim no Laboratório de Electrónica do Departamento de Engenharia Electrotécnica da Universidade, utilizando circuitos integrados da Mullard (Inglaterra) que eu próprio fui adquirir à África do Sul e contadores LED fabricados pela Hewlett Packard e adquiridos localmente.  O funcionamento desta componente electrónica foi simulado com sucesso no Elliott 803B, bem como os cálculos estatísticos resultantes dos inúmeros testes realizados com este protótipo.  Esta investigação deu origem a um artigo na Revista de Ciências Matemáticas com o título “About a New Device for Measuring Angles with High Precision”

Em Outubro de 1972 rumei para Manchester para estudos de pós-graduação (M.Sc. e Ph.D.) tendo sido substituído nas minhas funções no Departamento de Matemática pelo Eng. Vasco Freitas.

CIUEM, PRIMÓRDIOS…

Regressado de Inglaterra, em Agosto de 1976, encontrei no Departamento de Matemática um panorama da computação desolador. O CIULM passara a designar-se por CIUEM, mas os dois Elliott 803B, agora totalmente e irremediavelmente obsoletos, estavam, ainda assim, inoperacionais; os quadros técnicos que os mantinham tinham partido e nenhum destes recursos havia sido substituído.

Quanto aos ICL 1900 de 1972, pois não se falava deles no meio, assumo, portanto, que também teriam sido descontinuados.

Recordemo-nos, no entanto, de que, por essa altura, já o Centro de Processamento de Dados dos Caminhos de Ferro de Moçambique havia sido equipado com um moderno IBM-370/125, uma mainframe de 3ª geração, e que a empresa Mecanodex também tinha uma mainframe NCR de médio porte. Tal como os ICL 1900 a que me referi acima, ambos funcionavam em modo batch, ou seja, processavam um job de cada vez, por via de comandos, programas e dados previamente preparados em cartões perfurados.  No IBM, programas e dados poderiam também ser gravados em diskettes de 8 polegadas.

Falando, então, com o ainda Director do Departamento de Matemática, o Professor César de Freitas, sobre a hipótese de adquirir um computador de porte médio, tal continuava sendo inviável porque a Universidade Eduardo Mondlane não dispunha de verba para tal.  Propus-lhe então que começássemos com um novo tipo de computador, os minicomputadores, com os quais eu me havia familiarizado durante a minha estadia em Inglaterra. Tratava-se de máquinas moderníssimas, de ordens de grandeza mais baratas do que os mainframes tradicionais, mas perfeitamente modulares e expansíveis. Proposto inicialmente pela Digital Equipment Corporation (DEC), norte-americana, para equipar laboratórios de Investigação e Desenvolvimento (os muito disseminados PDP-8, com 8-bits de comprimento de palavra), cedo passou para a área do processamento genérico de dados com a série PDP-11, de 16-bits, suportando linguagens de alto-nível como sejam o Fortran IV e outras. Novos fabricantes a seguiram nesta senda - a Data General com os seus minicomputadores Nova, a Hewllett Packard (HP) e outros.

E assim foi adquirido um PDP 11/34A, com um Sistema Operativo RT-11, uniutente, o qual foi instalado, em 1978, numa divisão anexa à área onde tinham operado os Elliott 803B e onde então funcionava uma pequena oficina de apoio à sua manutenção (Fig. 2).

A Figura 2 não reflecte exactamente o que foi adquirido, pois se tratava de uma configuração extremamente básica. Do que me recordo, no armário que vinha com a máquina, para além da consola de botões inserida na frente de uma gaveta deslizante que continha o Processador Central e a Memória, haveria também uma unidade RX02 com duas unidades de discos floppy de 8” e de dupla face, uma delas contendo o Sistema Operativo e compiladores. Havia também uma consola LA36, uma unidade separada com um teclado (Fig. 3), que servia também de impressora (de agulhas).

Por ser tão limitado, este sistema não teve certamente, nem podia ter, grande impacto nos estudantes, professores e investigadores da UEM.  Quando muito, deu o apoio mínimo às aulas práticas de algumas das cadeiras de informática leccionadas no Departamento de Matemática, bem como a cursos de programação em FORTRAN IV para o corpo docente da UEM e abertos também a funcionários de empresas em Maputo com necessidades de cálculo científico (a COTOP Figura 3 – Uma LA36 da linha DECwriter II E.E., por exemplo, como se verá adiante).

Mas, principalmente, deu ao Departamento a experiência necessária para se lançar a voos mais ambiciosos, como veremos a seguir.

Foi por esta altura que o Departamento de Matemática, era então seu Director o Dr. João Raposo Beirão, iniciou alguma colaboração de âmbito informático com outras entidades da cidade de Maputo. O Projecto mais emblemático, e extremamente ambicioso, iniciado em Setembro de 1977, consistia no desenvolvimento de um sistema de Inventário, Aluguer e Gestão das habitações detidas pelo Estado (APIE), para processamento no IBM-370/125 do CPD dos CFM. Liderei, para o efeito, durante um período de tempo limitado, uma equipa constituída por um Analista de Sistema e quatro Programadores que trabalhavam para o CPD. Não me recordo dos resultados concretos alcançados com este Projecto.

Num outro Projecto, havia que calcular o nivelamento de terras em parcelas de irrigação para o cultivo de arroz no Complexo Agro-Industrial do Limpopo (CAIL), encomendado pela COTOP E.E., uma empresa estatal especializada em projectos de estradas e sistemas de irrigação. Para o efeito, e seguindo um algoritmo da autoria do Eng. Todor Tomov, um cooperante búlgaro a trabalhar na COTOP, confeccionei uma primeira versão do programa em Fortran IV que corria no novo PDP-11/34A.  Usando este programa, foram processadas dezenas de parcelas de irrigação ao longo dos anos seguintes.

DEPARTAMENTO DE MATEMÁTICA, NOVAS INSTALAÇÕES…

Aquando do meu regresso a Moçambique em 1976, o novo Campus Universitário da Sommerschield já se encontrava em construção, sendo o Edifício das Matemáticas um dos primeiros a ser ocupado. Não estou certo da data exacta em que tal teve lugar mas penso que deve ter sido durante 1979. Recordo-me de que o rés-do-chão, destinado a albergar o futuro centro de computação da UEM, era apenas um grande espaço com paredes nuas, ainda em tijolo (faltava um projecto), que as aulas eram dadas no 1º andar (onde ficou também a Secretaria do Departamento) e que os professores tinham os seus gabinetes no 2º andar.

O Director do Departamento era agora a Dra. Ana Pires de Carvalho.  O Professor César de Freitas e os restantes Professores Portugueses que haviam permanecido em Moçambique ao abrigo da Cooperação com Portugal já tinham regressado ao seu País, sendo substituídos por Professores de nacionalidade Russa, Bielo-Russa, Ucraniana e Holandesa (o Dr. Paulus Gerdes, que acabou por adoptar a nacionalidade Moçambicana). Também faziam parte do corpo docente do Departamento a Dra. Teresa Alfaro Cardoso e a Dra. Alcina do Rosário, ambas licenciadas na UEM em Matemática Aplicada, as quais, no entanto, dedicavam muito do seu tempo a tarefas de análise e programação no PDP-11 do CIUEM. Especificamente adstritos ao CIUEM e contratados já após a mudança para o campus da Sommerschield, mas também fazendo trabalho docente sempre que necessário, estavam os engenheiros teletrotécnicos Berardo de Sousa e João Martins, ambos licenciados pela UEM. Em fevereiro de 1982, foram integrados dois técnicos cuja trajectória viria a deixar marcas relevantes em diferentes domínios profissionais: Vicente Langa, que prosseguiu uma distinta carreira no Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) até à sua reforma, e Osmane Nalá, que desenvolveu o seu percurso no sector privado, contribuindo para a implementação de soluções em Tecnologias de Informação em diversas empresas privadas e instituições do Estado. Mais tarde, Osmane Nalá especializou-se em reengenharia empresarial, área em que prestou consultoria ao Estado e a várias organizações internacionais, apoiando processos de criação e reestruturação de instituições públicas. Actualmente reformado, continua a exercer liderança no sector empresarial, dirigindo a TEMPO Lda., empresa resultante da fusão da Tempográfica com a SAN, Lda., e responsável, entre outros projectos, pela publicação da Revista Tempo.

Venancio Massigue, Osmane Nala, Vicente Langa

Nessa altura, foram também contratados 3 operadores de computador.

No ano de 1983 foi contratado o tecnico Venâncio Massingue (Nota: sim, refiro-me ao já falecido Professor Venâncio Massingue que, tendo continuado os seus estudos, formou-se em Engenharia Electrotécnica pela UEM e obteve mais tarde um doutoramento pela Universidade Técnica de Delft; foi Director do CIUEM (1992-1997), Vice-reitor da UEM e Ministro da Ciência e Tecnologia no Governo do Presidente Armando Guebuza) os quais foram enviados a Cuba por uns meses para estudarem estas máquinas e poderem assim prestar a necessária assistência à que estava para chegar.

Numa das salas do 2º andar, por sinal bastante espaçosa, foi colocado o novo PDP-11/34A e pouco depois se iniciou um processo de expansão do mesmo. Foram adquiridas duas unidades de disco amovíveis RL02, com capacidade de 10 MBytes cada, que foram colocadas no armário inicial, além de duas unidades de banda magnética, cada uma no respectivo armário.  Foi também adquirida uma impressora de agulhas DECprinter I, modelo LA180 - visualmente parecida com a LA36, mas sem teclado e muitíssimo mais rápida - bem como seis terminais alfanuméricos VT100, já que com os novos discos duros passou a haver capacidade para o sistema suportar um novo Sistema Operativo multi-utente, o RSX-11M.  Este sistema, que trabalhava já em modo time-sharing, permitia a interacção simultânea de vários utilizadores com o sistema, e a sua resposta, em tempo real, levava cada um deles a pensar que tinha a máquina só para si...

A sala inicial foi dividida ao meio através de um separador de madeira – num dos lados o sistema PDP-11/34A, e no outro, os terminais VT100, cada um na sua secretária de umbila, construídas na carpintaria da Universidade segundo um desenho feito por mim. O separador central, feito na mesma carpintaria, tinha duas linhas de favos quadrangulares onde os operadores de serviço ao computador registravam, em papel, resultados destinados aos utentes.

A este conjunto foi mais tarde acrescentado um plotter de rolos Benson, de fabrico francês, dotado de uma cabeça com três canetas (para desenhos a cores). Este equipamento, adquirido pela COTOP após uma viagem minha a Inglaterra em finais de 1978 para contactos com potenciais fornecedores, era destinado ao traçado do perfil longitudinal de estradas projectadas por esta firma e que iam sendo construídas por empreiteiros diversos ao longo do País. Para o efeito, a empresa destacou, em semipermanência, para o Departamento de Matemática uma das programadoras, a D. Eduarda Morais.  A manutenção deste equipamento estava a cargo do Eng. João Martins que, para o efeito, havia frequentado um curso junto do fabricante em França.

Também por esta altura, fomos abordados pela Kruger (Hidromoc, E.E., a partir de 1977), uma empresa situada na Avenida do Trabalho, que necessitava de calcular os preços internos de grossista e de retalhista de equipamentos de bombagem, de distribuição de água e de acessórios adquiridos no exterior. Fiz então um programa para o efeito o qual foi executado inúmeras vezes, trazendo — tal como o programa de nivelamento de parcelas de irrigação para a COTOP - algum rendimento extra ao Departamento de Matemática.

Também, com a expansão do PDP-11/34A e a adopção de um sistema operativo multi-utente mais poderoso e flexível, confeccionei uma segunda versão do programa de nivelamento da COTOP mais abrangente e sofisticada – processava agora conjuntos de parcelas de irrigação contíguas no terreno durante uma única sessão e de um modo totalmente automático, o operador tinha somente que ir seguindo as instruções que iam sendo impressas na consola do computador.

ACORDO DE ASSISTÊNCIA COM A UNIVERSIDADE TÉCNICA DE DELFT, HOLANDA…

Em Novembro de 1980 o PDP-11/34A sofreu uma avaria que não foi possível reparar com os recursos de que dispúnhamos. Para ultrapassar a situação, contámos com a ajuda do Eng. Rudi Westerveld, docente no Departamento de Engenharia Electrotécnica, ao abrigo da Cooperação com a Holanda, e ainda hoje um grande amigo meu.  Contactada a sua universidade de origem, a Universidade Técnica de Delft, nos Países Baixos, cedo enviou a Maputo um dos seus técnicos de manutenção de PDP-11, que por lá abundavam, e pouco depois o PDP-11 do CIUEM estava de novo a funcionar. Deste incidente resultou a assinatura de um acordo de assistência entre a UEM e a Universidade Técnica de Delft, Holanda, visando ao reforço da capacidade local de intervenção na manutenção dos sistemas PDP-11/34 da UEM e de outras instituições.

O CENTRO DE CÁLCULO DA COTOP…

Entretanto, dadas as necessidades intrínsecas de cálculo da COTOP, esta decidiu adquirir um computador próprio, tendo optado por uma configuração igual à do CIUEM, um PDP-11/34A, mas sem bandas magnéticas.  Num único armário foram, pois, acomodadas quatro gavetas deslizantes – uma com a consola, CPU e memória, outra com uma unidade de disquetes dupla RX02 e as outras duas com discos amovíveis RL02 de 10 MB cada.  Havia também uma LA36, uma impressora LA180 e quatro terminais VT100.

Como a COTOP tinha a sua sede a paredes meias com o Campus das Engenharias da UEM, na Avenida de Moçambique, e não dispunha de pessoal para operar e manter esta máquina, para além de que, por si só, também não conseguiria esgotar a sua capacidade, o Director da COTOP, Eng. Manuel Gonzalez, acordou com o então Director da Faculdade de Engenharia, Eng. António Saraiva de Sousa, instalá-la em local disponível dentro do Campus, para utilização também pelos alunos e professores das Engenharias.  A instalação, a colocação em serviço, a operação e a manutenção desta máquina estariam a cargo do CIUEM.  Foi uma solução vantajosa para todos, passando, assim, a UEM a dispor de um segundo centro de cálculo.

A COTOP encomendou então o equipamento, ao mesmo tempo em que a Faculdade de Engenharia designava o local onde ele seria instalado. Libertou-se uma sala de dimensões razoáveis no rés-do-chão do edifício do Departamento de Engenharia Electrotécnica e, com a preciosa ajuda do saudoso Eng. José Teles e a sua empresa de quadros eléctricos dotámo-la de uma instalação eléctrica adequada aos equipamentos que estavam prestes a chegar. A instalação do novo PDP-11 e a sua entrada em funcionamento terão ocorrido em Abril-Maio/1981. Naturalmente, o plotter Benson da COTOP que estava no campus da Sommerschield foi trasladado para estas novas instalações.

CIUEM, A AUTONOMIZAÇÃO…

Dado o nível de actividades acima descrito e dos recursos humanos e materiais já envolvidos, em 1 de Janeiro de 1982 o Reitor da UEM, Dr. Fernando Ganhão, achou por bem autonomizar o CIUEM, dando-lhe um Estatuto próprio e nomeando-me como Director respondendo directamente perante ele.  Nestas funções, a partir de Junho de 1984, passei também a fazer parte do Conselho Científico da UEM.

A expansão da capacidade de cálculo na UEM prosseguiu com a instalação, no Arquivo Histórico de Moçambique, de outro computador multiutente, um Micro-PDP/11, no qual o CIUEM não teve, na operação, grande intervenção.

Terá também sido por esta altura, ainda em 1982, que o meu grande amigo dos tempos de Inglaterra, o saudoso Professor André Carvalho, Secretário de Estado do Ensino Técnico-Profissional (SETEP) no Ministério da Educação, solicitou o apoio do CIUEM na definição curricular e no leccionamento de um Curso Técnico Médio de Programação de Computadores. E assim foi. O currículo foi acordado; envolvi, como docentes, as Dras. Teresa Alfaro Cardoso, Alcina do Rosário, eu próprio e o Eng. João Martins também lecciona algumas disciplinas lá.  O curso funcionou na Escola Comercial de Maputo (a antiga Escola Primária Correia da Silva, na actual Avenida Vladimir Lenine, ao lado da Embaixada do Reino Unido) durante três anos e formou a maioria dos profissionais presentes nessa área à época.  As aulas práticas de computadores tinham lugar no centro de cálculo do CIUEM no campus da Sommerschield.

O computador cubano…

Também foi por esta altura que a UEM foi abordada pela Embaixada de Cuba no sentido de nos ofertar um mini-computador desenhado e construído em Cuba e que estava sendo utilizado na indústria do açúcar do país, não me recordo exactamente em que funções, se administrativas, se de controlo industrial nas suas fábricas, ou ambas.  O computador em causa, CID 300, era, do ponto de vista da arquitectura do hardware, um clone do PDP-11, mas os periféricos – discos duros amovíveis, unidades de disquetes, etc. – proviriam certamente de países da União Soviética, principalmente os da Europa de Leste, onde a arquitectura do PDP-11 era muito popular e amplamente clonada.

Uma sala contígua à sala de máquinas do CIUEM no Departamento de Matemática foi designada para o alojamento e foi encomendado à Maquinag um chão falso para esta sala, onde então foi instalado, por técnicos cubanos, o mencionado computador.  A sua operação e o sistema operativo eram-nos familiares, mas tenho em mente que a qualidade da máquina não era a melhor e que se avariava com alguma frequência.  De qualquer modo, como esta máquina dispunha de um sistema operativo uniutente, nunca foi muito utilizada pelos alunos e professores do Departamento de Matemática.

CONSIDERAÇÕES FINAIS…

No final de Setembro de 1984 larguei a chefia do CIUEM a fim de integrar, como quadro da Unesco, um Projecto junto da Direcção Nacional de Águas que tinha em vista o estabelecimento de um Instituto Nacional de Recursos Hídricos e por lá fiquei até Novembro de 1988, altura em que regressei em definitivo para Portugal.

Por essa altura, a série PDP-11 já havia ganho bastante popularidade em Maputo.  O Censo de 1980, por exemplo, que foi exaustivo e abarcou toda a população de então, cerca de 12 milhões, foi todo ele processado no CPD sob a direcção técnica do Sr. André Joffre, de nacionalidade canadiana, tendo utilizado para isso somente três PDP-11/34A, dotados de discos RL02, cada um com uma dúzia ou mais de terminais VT100, através dos quais foi introduzida num ficheiro mestre, e posteriormente processada (suponho que no IBM 370/125, mas não estou certo, pois não estive envolvido neste projecto), toda a informação recolhida no campo. Foi um projecto notável e extremamente bem conseguido.

Também no Projecto da UNESCO junto da DNA o computador adquirido pelo Projecto para o processamento dos dados produzidos pelas redes pluviométrica e piezométrica da DNA foi um PDP-11/44, bem mais potente que o PDP-11/34A até então existentes e dotado de discos de mais capacidade e uma impressora de linhas. O Sistema Operativo era, de novo, o RSX-11M, controlando um total de oito terminais, quatro VT100 e quatro VT200.  Como nota curiosa, este projecto empregava, em Setembro de 1987, sete programadores, todos eles formados pelo Curso de Formação de Programadores da Escola Comercial de Maputo referido acima, antigos alunos meus, portanto.  Como também fazem parte desta história, deixo aqui os seus nomes: Manuel Sarajabo, Lourino Nhalivilo, Orlando Faife, Azevedo Amaral, Manuel Chiau, Isabel Maholela e Matias Chirreu.

E pensar que tudo começou com a aquisição, dez anos antes, em 1978, do PDP-11 34A para o Departamento de Matemática da UEM…

 

Cascais, Portugal, Setembro de 2020

Jorge Alberto Ferraz de Oliveira

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