Resumo
Joe da Silva, um açoriano em Toronto, organizou uma escolta à Seleção Nacional de Portugal com mais de cem motards. A iniciativa, sem autorização policial, visava dar as boas-vindas à equipa. Joe, dono de uma padaria e empresa de construção civil, liderou o grupo até ao aeroporto, onde aguardaram a chegada da equipa. Com mais de uma hora de espera, motards de várias partes do Canadá juntaram-se para buzinar ao lado de Cristiano Ronaldo. A ação, movida pela paixão pelo futebol, reuniu mais de 400 mil portugueses em Toronto, numa epopeia digna de ser cantada por Camões, se este andasse de Harley Davidson.
Quem nunca, não é?
No início do séc. XX, por exemplo, Teixeira de Pascoaes meteu-se num barco para Inglaterra para ir atrás de uma mulher inglesa por quem se sentia apaixonado. Quando chegou a Londres, percebeu que a senhora não era nada daquilo que ele tinha imaginado e voltou para trás. Pelo menos não se perdeu tudo e a viagem deu origem a um poema.
A história de Joe da Silva é ligeiramente diferente. O açoriano da Terceira veio a Toronto integrado numa digressão de um grupo folclórico, conheceu a mulher - filha de mãe também açoriana e de pai madeirense -, apaixonou-se e por cá ficou. Já lá vão mais de trinta anos.
Hoje tem uma padaria com um rooftop onde faz festas, prepara-se para abrir a segunda e ainda é dono de uma empresa de construção civil. Ah, e tem uma Harley Davidson, pois claro.
Quando, às 11.30 em ponto, o chegámos à padaria do Joe, não havia cheiro a pão quente, nem a pasteis de nata. Mas só por uma razão: era dia de ir fazer a escolta à Seleção.
É na Harley de Joe, sentado à pendura, que o Maisfutebol vai participar na escolta à Seleção.
«Bem, esta ideia nasceu através do meu colega Vítor Santos. Ele telefonou-me ontem à tarde e disse-me que seria uma boa ideia juntar um grupo de motards e fazermos uma receção calorosa à nossa seleção de Portugal», conta Joe.
«É claro que logo de imediato concordei plenamente e, como motociclista e amante das motos, tratámos de fazer publicações nas redes sociais, cartazes e é o que estás a ver aqui. Temos imensas motas, penso que à volta de cem motards.»
Nesta altura já estávamos no jardim em frente à Câmara Municipal, onde tínhamos chegado em ritmo de passeio. Era ali que os motards portugueses se iriam juntar. Naquela altura, confesso, a minha preocupação era a polícia. Alguém tinha falado com eles? Estavam avisados?
«Não, claro que não. Se pedíssemos autorização não nos deixavam fazer isto.»
A resposta não me deixou mais tranquilo, mas vamos lá, vamos ver no que isto dá.
Afinal de contas, nós não somos um povo que se reja por horários, por regulamentos de trânsito ou por lógicas anglo-saxónicas. Nós regemo-nos pela paixão.
E quando a paixão mete a Seleção Nacional, mais de 400 mil portugueses a viver em Toronto e uma centena de motards dispostos a tudo, o resultado só pode ser uma daquelas epopeias que mereciam ser cantadas por Camões, se Camões andasse de Harley Davidson.
«Pessoal, vamos tirar uma foto de grupo e vamos lá, o avião está a chegar.»

Tínhamos esperado mais de uma hora. É claro que tínhamos. Havia motards a descer do norte do Canadá, desbravando quilómetros de asfalto só para poderem buzinar ao lado de Cristiano Ronaldo.
Tinha sido Joe a tratar de tudo e era ele que liderava o grupo, o alfa e o ómega desta expedição, o comandante em chefe de um exército de duas rodas. A ideia dele era parar numa estrada de acesso à autoestrada principal de entrada em Toronto, esperar que o autocarro e a polícia passassem e arrancar imediatamente atrás.
Mas logo na primeira curva, a primeira contrariedade. As motos pararam na berma da estrada, mas não demora muito a aparecer a polícia.
«Escoltar-nos não vem de certeza», atira alguém, já a imaginar problemas.
Joe vai falar com os agentes, explica o que está em causa, diz que é uma manifestação pacífica de apoio a Portugal. Que nem sequer vão interferir no trabalho da polícia.
Mas o Canadá não compreende a alma lusa.
Um agente da polícia local, um homem cuja alma deve ser feita de regulamentos municipais, olhou para aquele exército de amor patriótico e não se emocionou.
«Not gonna happen», atira, com a autoridade de uma farda e a frieza de um icebergue.
Não ia acontecer? Mal sabia ele.
A expedição arrancou, mas só para parar mais à frente. Já na autoestrada de acesso a Toronto.
Dezenas de motards com bandeiras de Portugal parados numa autoestrada canadiana não é um engarrafamento: é uma instalação artística. O aparato foi tal que os outros carros começaram a parar só para ver o espetáculo. De repente, o trânsito na principal via de acesso a Toronto estava cortado. Havia carros parados dos dois lados e pedestres a passear no meio das vias.
Nós, os portugueses, tínhamos acabado de paralisar a principal entrada na maior cidade do Canadá.
Chegou um, dois, três, quatro carros da polícia. Em pânico. O ultimato era claro: ou libertávamos a via ou o autocarro não passava por ali: as autoridades não podiam permitir aquele caos festivo. Joe sempre de um lado para o outro, negociou para aqui, negociou para ali, houve momentos em que parecia que ia acontecer, outros em que não, até que no meio desta tensão diplomática chegou a pior notícia: o autocarro já tinha sido desviado para outro caminho.
Tínhamos parado a autoestrada à espera de um fantasma.
«Infelizmente a seleção teve de tomar outro rumo, porque os carros são tantos a parar na autoestrada, para verem o que é que se está a passar, as pessoas saem dos carros e tudo mais, portanto a polícia teve de redefinir a trajetória do autocarro e vão por uma outra via.»
Eu próprio tinha ouvido um superior dizer que não podia permitir a passagem do autocarro com tantos pedestres na estrada.
Ora perante aquilo, qualquer outro povo teria desanimado, arrumado as bandeiras e ido para casa. Nós não. Com a sabedoria dos grandes generais, Joe decreta o plano B: rumar ao hotel.
O caminho até à baixa de Toronto foi admirável: em cada viaduto, dezenas de portugueses acenavam com bandeiras. Os carros buzinavam, os motards exigiam as cores nacionais. Era um cordão umbilical de saudade estendido sobre o asfalto.
O trajeto foi rápido. Quando chegámos, já lá estavam centenas, muitas centenas de pessoas. Gente de todas as cores e de todas as idades, unida por uma camisola e, muitas delas, um número: o sete, claro. O autocarro chegou e... entrou diretamente pela garagem. Uma desilusão? Talvez para alguns. Para os motards, foi apenas o mote para a rebelião sonora.
A polícia, mais uma vez, não deixou parar em frente ao hotel e aquele desfile de motos deu uma volta à rua lateral, devagar, muito devagarinho, mas a acelerar ao máximo. Os altifalantes debitavam música portuguesa no volume máximo. Demos a volta à rua e estacionámos de frente para a estrada, a rugir os motores.
Era impossível não ouvirem. E ouviram.
Lá no alto, nas janelas do hotel, Cristiano Ronaldo e outros jogadores apareceram para ver o espetáculo e acenar. A ligação estava feita. O abraço, mesmo à distância, tinha sido dado.
«Estamos completamente felizes. Não conseguimos, nem conseguiríamos ter uma licença para fazer este tipo de acompanhamento, porque a polícia raramente o faz, mas conseguimos mostrar às outras comunidades que Portugal está junto, que Portugal está forte e que vamos que vamos ganhar este Mundial. Em frente, Portugal!»
Há uma glória muito nossa, muito portuguesa, na arte de transformar um aparente desastre logístico num triunfo histórico da saudade.
Esta quinta-feira, Portugal joga no Toronto Stadium. O recinto só leva 45 mil pessoas e os bilhetes já roçam os cinco mil dólares. Muitos compatriotas estarão lá dentro, mas muitos mais, garantem, ficarão do lado de fora.
Porque o orgulho de ser português não precisa de bilhete, nem respeita as bermas da estrada.
Ser português é ser mais alto: e dizê-lo cantando a toda a gente.
Fonte: TVI






