Lucro Cai, Mas Resultado Continua Acima do Orçamentado
A Electricidade de Moçambique (EDM) encerrou 2025 com um lucro líquido aproximado de US$112 milhões, uma redução de 16,1% relativamente aos cerca de US$133,5 milhões alcançados no exercício anterior.
A queda é significativa, mas não conta toda a história financeira da empresa.
No Plano de Actividades e Orçamento para 2025, a EDM tinha projectado um resultado líquido de 4,486 mil milhões de meticais. O mesmo documento utilizava, entre os seus pressupostos macroeconómicos, uma taxa média de câmbio de 66,40 meticais por dólar.
Àquela taxa, o resultado orçamentado equivaleria aproximadamente a US$67,6 milhões. Comparado com os cerca de US$112 milhões posteriormente reportados, o lucro realizado ficou aproximadamente 66% acima da referência orçamental, embora tenha recuado face ao excepcional resultado de 2024.
A distinção é importante: 2025 foi um ano de deterioração relativamente ao exercício anterior, mas não necessariamente um ano de incumprimento global das expectativas de rentabilidade da empresa.
Receitas Recuam Com Menor Actividade Industrial
A primeira pressão ocorreu no negócio principal.
As receitas provenientes das vendas e prestação de serviços passaram de aproximadamente US$923,6 milhões em 2024 para US$909,9 milhões em 2025, uma contracção próxima de 1,5%.
Segundo a EDM, o desempenho foi condicionado pela redução da actividade industrial, pelas perturbações ocorridas no período pós-eleitoral e pela diminuição da energia disponível para exportação.
As vendas destinadas aos clientes de alta e média tensão recuaram de aproximadamente US$125,8 milhões para US$119,5 milhões, uma redução próxima de 5%.
A empresa associa este comportamento à menor actividade industrial e aos efeitos das perturbações pós-eleitorais, que provocaram danos em infra-estruturas produtivas, cancelamento de clientes e redução das potências contratadas e efectivamente consumidas.
O resultado constitui também um indicador indirecto da ligação entre o desempenho da EDM e a actividade do sector produtivo nacional: quando indústria, mineração, comércio de grande escala e outros consumidores intensivos reduzem operações, a procura energética de maior valor tende igualmente a responder.
Exportações Caem Quase 12%
A segunda grande fonte de pressão veio do mercado regional.
As receitas obtidas com exportações de energia diminuíram de aproximadamente US$237 milhões em 2024 para US$208,9 milhões em 2025, uma queda próxima de 11,9%.
A EDM explica o recuo através da menor disponibilidade de energia para exportação, relacionada com factores hidrológicos que limitaram a geração das suas centrais hidroeléctricas.
O movimento havia sido parcialmente antecipado.
No PAO 2025, a empresa já previa reduzir o volume exportado de 2.061 GWh para 1.987 GWh, ou cerca de 4%, devido ao aumento da procura doméstica e à menor disponibilidade de energia excedentária para o mercado regional.
Em termos de receita, o plano atribuía à exportação aproximadamente 15,36 mil milhões de meticais. Utilizando a taxa cambial assumida pela própria EDM no orçamento, isso equivaleria a cerca de US$231 milhões. O valor realizado de US$208,9 milhões ficou, assim, indicativamente abaixo da expectativa inicial.
Mercado Regional Continua Estratégico
A redução das exportações ganha maior significado quando confrontada com a estratégia de longo prazo da empresa.
A Estratégia da EDM 2018-2028 definiu como uma das três prioridades colocar Moçambique como pólo de energia na África Austral, aproveitando a procura regional e a integração através do Southern African Power Pool.
A própria estratégia considera a maximização do mercado regional um instrumento de crescimento comercial e geração de receitas, paralelamente à expansão do acesso interno.
Em Março deste ano, a EDM voltou a colocar a integração regional entre as suas prioridades através da participação na 60.ª reunião do Comité Executivo do SAPP, no Malawi, demonstrando que a agenda regional permanece activa em 2026.
O resultado de 2025 mostra, contudo, uma característica fundamental desse modelo: exportar depende da existência efectiva de excedentes após satisfazer as necessidades domésticas e das condições de geração disponíveis em cada momento.
Baixa Tensão Cresce Quase 7%
Enquanto os segmentos industrial e externo perderam receitas, o mercado de baixa tensão apresentou comportamento oposto.
As vendas passaram de cerca de US$370,1 milhões para US$395,7 milhões, um crescimento próximo de 6,9%, beneficiando sobretudo da entrada de novos clientes domésticos e comerciais através da expansão das ligações.
As receitas provenientes de clientes especiais também aumentaram, embora de forma mais moderada, de US$92 milhões para aproximadamente US$94,3 milhões.
Esta evolução evidencia uma alteração importante na composição do crescimento da empresa.
A EDM está simultaneamente a prosseguir uma política de electrificação acelerada — que amplia o número de consumidores domésticos — e uma estratégia comercial que procura crescer através dos grandes consumidores e das exportações.
O PAO previa cerca de 400 mil novas ligações em 2025, elevando o universo de clientes para aproximadamente 4,02 milhões. O plano considerava ainda o aumento do acesso doméstico à Rede Eléctrica Nacional como uma das principais prioridades do exercício.
Mais Clientes Não Significam Automaticamente Maior Rentabilidade
A expansão do número de consumidores constitui um ganho social e amplia o mercado futuro da EDM, mas apresenta uma questão financeira relevante.
Os clientes domésticos representavam cerca de 92% do universo de clientes previsto para 2025, enquanto os grandes consumidores, embora numericamente muito inferiores, apresentam consumos e receitas unitárias substancialmente superiores.
Isso significa que a perda ou redução do consumo de poucos clientes industriais pode produzir um efeito financeiro que exige milhares de novas ligações domésticas para ser compensado.
A tensão já estava reconhecida na Estratégia 2018-2028, que identifica como desafio central conciliar acesso universal, tarifas acessíveis, sustentabilidade financeira e crescimento comercial.
Em termos económicos, portanto, não basta aumentar o número de clientes. É igualmente importante aumentar o consumo produtivo de electricidade — energia utilizada por indústrias, agricultura irrigada, processamento, turismo, mineração, serviços e outros sectores capazes de produzir rendimento, emprego e maior procura energética.
Margem Bruta e Resultado Operacional Também Recuam
A pressão sobre o negócio tornou-se mais evidente à medida que se desce na demonstração de resultados.
A margem bruta diminuiu de aproximadamente US$351,3 milhões para US$342,7 milhões, uma queda próxima de 2,4%, enquanto o resultado operacional passou de US$38,3 milhões para aproximadamente US$32,1 milhões, recuando cerca de 16,2%.
O PAO previa para 2025 um resultado operacional de 2,191 mil milhões de meticais, acima dos 1,599 mil milhões antecipados para 2024.
Utilizando a taxa cambial de 66,40 MZN/USD assumida no plano, esta meta equivalia a cerca de US$33 milhões. O resultado reportado de US$32,1 milhões ficou, portanto, bastante próximo, embora ligeiramente abaixo do objectivo orçamental em termos indicativos.
É uma diferença importante em relação ao lucro líquido: operacionalmente, a empresa ficou próxima do plano; na linha final, beneficiou de um resultado global significativamente superior ao orçamentado.
Custos Com Pessoal e Serviços Aumentam
Do lado dos custos, o quadro foi misto.
As compras de energia à Hidroeléctrica de Cahora Bassa aumentaram de aproximadamente US$111,2 milhões para US$115,2 milhões, uma subida próxima de 3,6%, associada, segundo a EDM, a uma maior disponibilidade de energia proveniente daquela fonte.
Em contrapartida, o custo agregado dos inventários vendidos ou consumidos diminuiu ligeiramente, de US$572,3 milhões para cerca de US$567,2 milhões.
Os custos com pessoal aumentaram de aproximadamente US$128,8 milhões para US$131,7 milhões, acompanhando o aumento do número de trabalhadores de 4.073 para 4.350.
A evolução foi mais acentuada nos fornecimentos e serviços de terceiros, que cresceram de aproximadamente US$80,1 milhões para US$89,9 milhões, uma expansão superior a 12%. A empresa associa este movimento à expansão da distribuição, atendimento aos clientes, segurança, transporte de materiais, manutenção e reparação da rede.
O crescimento destas despesas reflecte em parte a própria expansão física da EDM: mais clientes e mais rede significam igualmente maiores necessidades de manutenção, atendimento, vigilância e operação.
Proveitos Financeiros Caem Mais de 20%
Outra parte importante da deterioração veio da componente financeira.
Os proveitos financeiros diminuíram de aproximadamente US$148,9 milhões para US$118,2 milhões, uma redução superior a 20%.
Os dividendos recebidos atingiram, ainda assim, cerca de US$110,3 milhões, mostrando a relevância das participações financeiras da EDM no resultado global da empresa.
Paralelamente, os custos financeiros caíram de aproximadamente US$40,1 milhões para US$29,7 milhões, atenuando parcialmente a redução dos proveitos financeiros.
A importância desta componente ajuda também a explicar por que razão o lucro líquido pode comportar-se de forma diferente do resultado estritamente operacional.
Balanço Torna-se Mais Exigente
No encerramento do exercício, os activos da EDM totalizavam aproximadamente US$4,4 mil milhões, abaixo dos cerca de US$4,56 mil milhões registados um ano antes.
O capital próprio recuou de aproximadamente US$2,1 mil milhões para US$1,9 mil milhões, enquanto os passivos aumentaram de US$2,4 mil milhões para cerca de US$2,5 mil milhões.
A combinação — activos e capitais próprios em queda, acompanhados por aumento dos passivos — merece acompanhamento num contexto em que a própria estratégia corporativa estabelece a sustentabilidade financeira como condição para financiar grandes investimentos em geração, transporte e distribuição.
A Estratégia 2018-2028 é explícita ao considerar que uma EDM financeiramente saudável é necessária para atrair capital externo e sustentar os investimentos que suportam tanto o acesso universal como a segurança do fornecimento.
Perdas de Energia Continuam a Representar Um Problema Financeiro
A eficiência permanece outro ponto crítico.
O PAO 2025 tinha definido como objectivo reduzir as perdas totais de energia de 23% para 21%, estimando aproximadamente 1.530 GWh de energia perdida.
A questão ultrapassa a eficiência técnica.
Em Fevereiro de 2026, o Presidente do Conselho de Administração da EDM, Joaquim Ou-Chim, afirmou que vandalização de infra-estruturas e roubo de energia terão causado prejuízos próximos de 6 mil milhões de meticais em 2025. A empresa considera estes fenómenos um risco tanto para as suas finanças como para a fiabilidade do sistema.
Para uma empresa cujo resultado operacional de 2025 rondou US$32 milhões, perdas desta magnitude representam uma variável economicamente relevante.
2025 Mostra o Duplo Desafio da EDM
Os resultados de 2025 revelam uma empresa que continua lucrativa e que, na linha final, superou a expectativa financeira definida no início do exercício, mas cujo negócio foi afectado pela conjugação de menor consumo industrial, perturbações internas, menor disponibilidade hídrica e redução das exportações.
Ao mesmo tempo, o aumento das vendas em baixa tensão mostra o efeito da expansão da electrificação e da incorporação de novos consumidores.
É precisamente neste cruzamento que se encontra o desafio estratégico da EDM.
A empresa precisa de continuar a expandir o acesso à electricidade, um objectivo nacional de desenvolvimento, sem comprometer a sua sustentabilidade financeira; precisa de assegurar energia suficiente para apoiar a industrialização doméstica, mas pretende igualmente aproveitar um mercado regional que pode gerar receitas e divisas; e precisa de investir cada vez mais na rede, enquanto procura conter perdas, custos e passivos.
A Estratégia 2018-2028 definiu três grandes ambições: acesso universal, liderança regional e transformação da EDM numa empresa de utilidade pública financeiramente sustentável e operacionalmente eficiente.
Os números de 2025 mostram que estas três dimensões não avançam necessariamente à mesma velocidade.
O lucro de US$112 milhões demonstra capacidade de geração de resultados. A queda das exportações e do consumo industrial mostra, porém, que a qualidade futura desses resultados deverá passará, crescentemente, pela capacidade de Moçambique transformar expansão energética em consumo produtivo, industrialização e maior utilização económica da electricidade, ao mesmo tempo que preserva a oportunidade de vender excedentes competitivamente no mercado regional.
Fonte: O Económico




