Por: Alfredo Júnior
O navio de investigação científica norueguês Dr. Fridtjof Nansen iniciou uma nova expedição nas águas moçambicanas, numa missão de 42 dias destinada a recolher dados sobre os recursos pesqueiros, os ecossistemas marinhos e as condições ambientais ao longo da costa do país.
A expedição foi autorizada pelo Governo moçambicano e conta com o apoio financeiro da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), no âmbito do Programa EAF-Nansen, uma parceria de longa duração entre a FAO, a Noruega, o Instituto Norueguês de Investigação Marinha (IMR) e países parceiros em África e na Ásia.
Antes do início da missão, o Instituto Marítimo Nacional (INAMAR) realizou a inspecção da embarcação e verificou a documentação necessária para a sua operação em águas moçambicanas. A equipa foi liderada por Acácio Beleza, director interino da Divisão de Inspecção Marítima do INAMAR, e contou com a participação de Daniel Ndeco, capitão da marinha mercante da Administração Marítima de Maputo.
Durante a operação de fiscalização, a equipa foi recebida pelo capitão do navio, Tommy Seeffensen, que acompanhou a delegação numa visita às diferentes áreas da embarcação. A missão científica conta com 18 investigadores a bordo, envolvidos na recolha e análise de dados ao longo da costa moçambicana.
O objectivo central da expedição é produzir informação científica que permita melhorar o conhecimento sobre a abundância, distribuição e composição dos recursos pesqueiros. Os dados deverão contribuir para avaliar o estado dos stocks e apoiar decisões relacionadas com a definição de medidas de gestão e conservação dos recursos marinhos.
A importância desta investigação está directamente ligada ao peso económico e social da pesca em Moçambique. Milhares de famílias dependem da actividade pesqueira para alimentação e rendimento, enquanto o sector constitui igualmente uma fonte de receitas e de emprego. A sustentabilidade dos recursos, por isso, não depende apenas da capacidade de pescar, mas também de conhecer quanto peixe existe, onde se concentra e qual a capacidade de reposição das populações.
O histórico das missões do Dr. Fridtjof Nansen em Moçambique demonstra a importância desta cooperação. Segundo a FAO, o país já recebeu numerosas expedições do programa, que produziram informação sobre recursos pelágicos e demersais, camarão, ecossistemas marinhos e condições ambientais. Entre 1977 e 1990, por exemplo, o navio realizou sete campanhas de investigação em Moçambique, incluindo trabalhos no Banco de Sofala e na Baía de Maputo.
Mais recentemente, o navio voltou a realizar pesquisas nas águas moçambicanas. Em 2025, uma expedição estudou, entre outros aspectos, áreas de desova, fases iniciais da vida dos recursos marinhos, dinâmica dos stocks adultos, diversidade genética e factores ambientais e climáticos. Os trabalhos incluíram o Banco de Sofala, uma das zonas mais importantes para a pesca do país.
O valor destas campanhas vai além da produção de números sobre a quantidade de peixe disponível. A investigação científica permite acompanhar alterações nos ecossistemas e perceber como factores como o aquecimento dos oceanos, a poluição, a pressão da pesca e outras mudanças ambientais podem afectar a produtividade marinha.
A FAO destaca precisamente esta dimensão do Programa EAF-Nansen, cuja missão é apoiar os países parceiros na produção de conhecimento científico e na aplicação de uma abordagem ecossistémica à gestão das pescas. O programa procura aproximar a ciência das decisões de política pública, permitindo que medidas de conservação e exploração dos recursos sejam baseadas em evidências.
Para Moçambique, esta componente é particularmente importante num momento em que o país procura desenvolver a chamada economia azul. A extensa costa moçambicana e a diversidade dos seus ecossistemas representam uma importante reserva económica, mas também colocam desafios de conservação.
Estudos científicos recentes baseados em dados recolhidos pelo Dr. Fridtjof Nansen mostram, por exemplo, que as informações obtidas nas campanhas do programa podem ser utilizadas para analisar a composição nutricional das espécies marinhas e as suas implicações para a segurança alimentar. Dados de levantamentos realizados em Moçambique e na Tanzânia estão actualmente a ser utilizados em investigação científica sobre o contributo dos recursos pesqueiros para a alimentação e nutrição.
Outro estudo sobre a resiliência das pescas moçambicanas às alterações climáticas destaca que grande parte do conhecimento acumulado sobre os pequenos pelágicos do país resulta de levantamentos realizados pelo Dr. Fridtjof Nansen. Os dados históricos permitem comparar a evolução da biomassa e da composição das espécies ao longo de várias décadas.
A continuidade das pesquisas permite, assim, construir séries históricas fundamentais para perceber se determinados recursos estão a aumentar, diminuir ou a deslocar-se para novas áreas. Essa informação pode ajudar as autoridades a estabelecer períodos de defeso, limites de captura, zonas de protecção e outras medidas destinadas a evitar a sobre-exploração.
O desafio, entretanto, está em garantir que os dados produzidos pela investigação sejam efectivamente incorporados nas políticas nacionais. A própria experiência do Programa EAF-Nansen mostra que o valor das campanhas não termina com a recolha de amostras no mar. O objectivo final é transformar conhecimento científico em decisões capazes de proteger os recursos e assegurar a sua utilização sustentável.
A presença do Dr. Fridtjof Nansen representa, por isso, mais do que a chegada de um navio científico às águas moçambicanas. É parte de uma cooperação internacional que há décadas procura responder a uma questão fundamental: como explorar os recursos do mar sem comprometer a capacidade dos oceanos de continuar a sustentar as populações no futuro.
Com 42 dias de investigação pela frente e 18 cientistas envolvidos, a nova missão deverá produzir mais uma camada de conhecimento sobre o estado dos mares moçambicanos. O impacto real da expedição dependerá, contudo, da capacidade de transformar os resultados científicos em políticas de pesca mais rigorosas, fiscalização efectiva e decisões que conciliem exploração económica, segurança alimentar e conservação dos ecossistemas marinhos.



