Por: Alfredo Júnior
A província de Nampula registou 796.422 casos de malária nos primeiros seis meses de 2026, dos quais resultaram 47 mortes, segundo dados apresentados pelo Governo provincial. O número representa uma redução expressiva face ao período homólogo de 2025, quando foram contabilizados mais de 1,8 milhões de casos e 61 óbitos.
Os dados foram divulgados pelo porta-voz do Governo provincial, William Tuzine, citado pela Lusa, num momento em que as autoridades procuram reforçar as medidas de prevenção e controlo da doença, que continua a representar uma das principais causas de procura dos serviços de saúde na província.
A comparação entre os dois períodos mostra uma redução de cerca de 56% no número de casos, enquanto os óbitos diminuíram aproximadamente 23%. Apesar da evolução favorável, a dimensão dos números continua a representar uma pressão significativa sobre o sistema de saúde de Nampula.
A situação epidemiológica da província já vinha merecendo atenção das autoridades nacionais. Em Maio, durante uma visita de fiscalização à província, deputados da Assembleia da República manifestaram preocupação com a elevada incidência da malária e instaram o Governo provincial a reforçar as medidas de resposta. Na altura, dados relativos apenas ao primeiro trimestre de 2026 apontavam para uma redução de 32,3% dos casos, mas, paradoxalmente, um aumento de 16,7% nos óbitos em relação ao mesmo período de 2025.
O mesmo balanço revelou limitações importantes na prevenção. Segundo as autoridades provinciais, não foi realizada pulverização intradomiciliária durante o período em análise devido à insuficiência de fundos. Em contrapartida, foram distribuídas 3.434.602 redes mosquiteiras, com uma cobertura estimada de 7.736.890 pessoas, além de 61.736 redes destinadas a mulheres grávidas.
As autoridades apontaram ainda o saneamento deficiente do meio e o uso incorrecto das redes mosquiteiras como alguns dos factores que dificultam o controlo da doença. Para responder a estes desafios, estão a ser realizadas campanhas de sensibilização através de líderes comunitários, palestras e rádios comunitárias.
A relevância da malária em Nampula enquadra-se num problema nacional. O Anuário Estatístico de Saúde de 2025, publicado pelo Ministério da Saúde, registou 358.461 casos de malária reportados pelos Agentes Polivalentes de Saúde em Nampula durante todo o ano, embora o número de casos confirmados nas unidades sanitárias e na comunidade tenha sido muito superior, atingindo 3.379.105.
Os dados nacionais também mostram a dimensão da doença. Em 2024, Moçambique registou mais de 11,6 milhões de casos confirmados de malária e 66.816 internamentos, segundo estatísticas do Ministério da Saúde. A Organização Mundial da Saúde considera a malária um dos principais problemas de saúde pública no país e destaca que a doença pode ser prevenida através da redução da exposição às picadas dos mosquitos e do uso adequado de medidas de protecção.
Nampula, com uma população projectada em cerca de sete milhões de habitantes, enfrenta ainda desafios relacionados com a capacidade de resposta dos serviços de saúde. O Parlamento identificou, entre outros problemas, a necessidade de construir mais unidades sanitárias, aumentar o número de profissionais e reforçar os recursos destinados ao combate à malária.
A redução registada no primeiro semestre constitui, por isso, um sinal positivo, mas não significa que o problema esteja controlado. A experiência do primeiro trimestre demonstra que a evolução dos casos e das mortes pode seguir trajectórias diferentes. A continuidade da distribuição de redes, o diagnóstico e tratamento atempados, a sensibilização das comunidades e o reforço das intervenções de controlo do mosquito continuam a ser determinantes para evitar que a redução dos casos não seja acompanhada por novos aumentos da mortalidade.
Para uma província com uma população tão elevada e onde a malária continua a dominar o quadro das doenças de notificação obrigatória, a questão central deixa de ser apenas quantos casos foram evitados. É também saber se os recursos disponíveis são suficientes para transformar a redução temporária da transmissão numa tendência sustentável e, sobretudo, para impedir que dezenas de famílias continuem a perder os seus membros por uma doença que dispõe de meios conhecidos de prevenção e tratamento.



