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Estamos mesmo em 2026 ou em 1729? A polémica teoria dos 297 anos inventados

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E se o calendário que usamos estiver errado? Não por alguns dias ou meses, mas por quase três séculos. Segundo uma das teorias históricas mais curiosas das últimas décadas, 297 anos da história europeia podem simplesmente nunca ter acontecido.

É a chamada Phantom Time Hypothesis, ou , apresentada pelo alemão Heribert Illig no início da década de 1990. Segundo esta ideia, os anos entre 614 e 911 d.C. teriam sido artificialmente introduzidos na cronologia.

Se fosse verdade, haveria uma consequência bastante desconcertante. Isto é, não estaríamos realmente em 2026, mas aproximadamente no ano 1729.

A ciência e a história, contudo, têm vários problemas com esta teoria.

Heribert Illig apresentou a hipótese em 1991. A ideia central é relativamente simples: uma parte da Alta Idade Média teria sido inventada e posteriormente integrada nos documentos históricos como se tivesse realmente acontecido.

Concretamente, Illig aponta para o período entre 614 e 911, exatamente 297 anos.

Segundo a hipótese, por detrás desta enorme manipulação estariam o imperador Otão III, o Papa Silvestre II e, em algumas versões, o imperador bizantino Constantino VII. O objetivo teria sido alterar retroativamente o sistema de datação Anno Domini, permitindo que Otão III reinasse próximo do simbolicamente poderoso ano 1000.

Para isso teria sido necessário criar documentos, acontecimentos históricos, personagens e até modificar registos existentes.

E é aqui que aparece uma das consequências mais extraordinárias da teoria.

Se retirarmos os 297 anos propostos por Illig, desaparece praticamente todo o período carolíngio.

Isso significa que Carlos Magno, coroado imperador no ano 800, seria essencialmente uma personagem fabricada.

Segundo esta interpretação, muitos acontecimentos atribuídos aos séculos VII, VIII e IX teriam ocorrido noutras datas ou teriam sido simplesmente inventados.

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p id="caption-attachment-1135690" class="wp-caption-text">É uma afirmação extraordinária, sobretudo porque Carlos Magno é uma das personagens mais importantes da história europeia.

Illig baseou parte das suas suspeitas naquilo que considerava uma quantidade insuficiente de vestígios arqueológicos e documentos provenientes deste período. Também questionou determinados métodos de datação utilizados para reconstruir a cronologia medieval. Mas existe outro argumento particularmente curioso: o calendário.

É provavelmente a parte mais interessante da Phantom Time Hypothesis. O calendário juliano, introduzido durante o governo de Júlio César, considerava um ano médio ligeiramente superior ao verdadeiro ano solar. Parece uma diferença insignificante, mas vai acumulando um erro ao longo dos séculos.

Quando o Papa Gregório XIII introduziu o calendário gregoriano em 1582, foi necessário corrigir esse desfasamento.

Assim, em vários países que adotaram imediatamente a reforma, quinta-feira, 4 de outubro de 1582, foi seguida por sexta-feira, 15 de outubro. Ou seja, desapareceram 10 dias do calendário.

Illig argumentava que, se o calendário juliano estivesse realmente em funcionamento desde a Antiguidade, a diferença deveria ser aproximadamente 13 dias, e não 10. A diferença de três dias corresponderia aproximadamente a três séculos.

Para Illig, esta seria uma pista de que cerca de 300 anos tinham sido acrescentados artificialmente à história.

O argumento parece surpreendentemente convincente à primeira vista. Há, contudo, um problema importante.

A reforma gregoriana não pretendia fazer regressar o calendário à situação existente no tempo de Júlio César.

O objetivo era recuperar a posição do calendário relativamente ao equinócio usada como referência pela Igreja desde a Antiguidade tardia, associada ao cálculo da data da Páscoa.

Por isso, os alegados três dias "em falta" não demonstram a existência de três séculos inventados. Mas há provas ainda mais difíceis de contornar.

Uma das ferramentas utilizadas pelos cientistas para datar acontecimentos antigos chama-se dendrocronologia.

O princípio é conhecido: muitas árvores produzem anéis anuais de crescimento. A espessura desses anéis depende das condições ambientais de cada ano. Ao comparar padrões entre árvores vivas e madeira antiga, os investigadores conseguem construir sequências cronológicas extremamente longas.

Estas sequências atravessam precisamente os séculos que Illig considera fictícios.

Para a Phantom Time Hypothesis funcionar, seria necessário explicar porque aparecem 297 ciclos anuais adicionais nos registos naturais, independentemente dos documentos escritos pelos seres humanos.

A dendrocronologia e outros métodos científicos de datação constituem, por isso, alguns dos principais problemas para a hipótese.

Existe ainda uma espécie de relógio histórico que seria extraordinariamente difícil falsificar: o céu. Civilizações antigas registaram eclipses, movimentos planetários, passagens de cometas e outros acontecimentos astronómicos.

Hoje conseguimos calcular matematicamente quando muitos desses fenómenos aconteceram. Quando os registos históricos são comparados com os cálculos astronómicos modernos, os acontecimentos encaixam na cronologia convencional.

Eliminar quase 300 anos faria com que vários desses acontecimentos deixassem de coincidir com as datas registadas. E há ainda outro enorme problema.

A teoria centra-se na Europa medieval, mas nesses 297 anos existiam cronologias independentes na China, Índia e mundo islâmico, algumas com contactos documentados com a própria Europa.

Eliminar quase três séculos exigiria, portanto, explicar como documentos, vestígios arqueológicos e acontecimentos astronómicos de civilizações independentes continuam a coincidir com a cronologia que conhecemos.

Tudo indica que sim. A Phantom Time Hypothesis não é aceite pelos historiadores, já que existem demasiadas fontes independentes e evidências físicas que confirmam a cronologia conhecida.

Ainda assim, a teoria é interessante porque mostra como reconstruímos o passado. Hoje, a História cruza documentos com arqueologia, astronomia, química, física e até os anéis das árvores. Ou seja, o nosso calendário não depende apenas do que ficou escrito há séculos.

 

Fonte: Pplware

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