Por: Alfredo Júnior
A cultura deve ocupar um lugar mais central nas estratégias de construção da paz e prevenção de conflitos em Moçambique, sobretudo através da valorização da diversidade cultural, do diálogo entre comunidades e da participação dos jovens. A posição está alinhada com a abordagem da UNESCO, que considera a cultura um instrumento de coesão social, reconciliação e prevenção de conflitos.
A discussão ganha particular relevância no contexto moçambicano, onde persistem desafios de segurança em algumas regiões e onde a consolidação da paz continua a depender não apenas de respostas de natureza política e militar, mas também da capacidade de reconstruir relações de confiança entre comunidades. Numa mensagem publicada pelas Nações Unidas em Moçambique em Maio deste ano, no âmbito dos 50 anos de parceria entre o país e a UNESCO, o director-geral da organização, Khaled El-Enany, destacou precisamente a riqueza cultural e o potencial humano de Moçambique, apontando os jovens como agentes de mudança e não apenas como beneficiários de políticas públicas.
Para a UNESCO, a paz não deve ser entendida exclusivamente como ausência de violência. A organização sustenta que a cultura pode contribuir para criar sociedades mais inclusivas, fortalecer o sentimento de pertença e promover o diálogo entre grupos diferentes. A diversidade cultural, quando protegida e valorizada, pode funcionar como um recurso para a coesão social, enquanto os direitos culturais e o diálogo intercultural ajudam a criar condições para a prevenção e resolução de conflitos.
Esta abordagem encontra particular expressão em Moçambique, um país marcado por uma elevada diversidade linguística, étnica e cultural. A própria documentação relacionada com as políticas culturais moçambicanas reconhece a cultura como um factor de identidade, unidade e coesão social, defendendo a promoção de práticas culturais locais, o intercâmbio entre diferentes grupos socioculturais e uma maior participação dos jovens no acesso ao conhecimento histórico e cultural.
A participação juvenil aparece, neste contexto, como uma das dimensões mais importantes. Em Fevereiro de 2026, a UNESCO e o Instituto para a Democracia Multipartidária (IMD) reforçaram a cooperação em torno da paz e reconciliação em Moçambique, colocando entre os temas discutidos a educação para a paz, o papel dos jovens na prevenção de conflitos, a promoção dos valores democráticos e a formação profissional como instrumento de inclusão social e resiliência comunitária.
A organização também tem procurado utilizar a arte e a criatividade como instrumentos de diálogo. Durante a Semana da Cultura e Educação Artística da UNESCO, realizada em Maio, jovens moçambicanos participaram em actividades de narrativa visual e cinema centradas na construção da paz, coesão social e resiliência juvenil. A iniciativa procurou utilizar a produção artística como espaço para desenvolver empatia, diálogo intercultural e participação comunitária.
A experiência moçambicana demonstra que esta não é uma abordagem completamente nova. Em 2023, as Nações Unidas lançaram a campanha “A Paz é a Nossa Cultura”, reunindo músicos e artistas de diferentes regiões do país com o objectivo de apoiar os esforços de reconciliação nacional através da música e da valorização da diversidade cultural.
O desafio, contudo, está em transformar a cultura de elemento simbólico em instrumento efectivo de política pública. Celebrar tradições, organizar festivais ou promover manifestações artísticas pode contribuir para a aproximação entre comunidades, mas a construção de uma paz sustentável exige também investimento contínuo em educação, oportunidades económicas, participação juvenil, preservação do património e criação de espaços onde diferentes grupos possam dialogar.
A própria UNESCO defende que cultura e educação devem ser integradas nas estratégias de prevenção de conflitos, incluindo através de iniciativas dirigidas aos jovens, do combate ao discurso de ódio e à desinformação e da criação de oportunidades de participação e emprego.
Moçambique dispõe, nesse sentido, de uma vantagem que pode ser mais explorada: a sua diversidade cultural. O país possui actualmente três elementos inscritos na lista do Património Cultural Imaterial da UNESCO e mantém uma estrutura nacional dedicada à salvaguarda do património cultural imaterial.
A questão central passa, por isso, por saber se essa diversidade continuará a ser tratada apenas como património a preservar ou se poderá ser transformada numa ferramenta activa de construção de confiança entre comunidades.
Num país onde a juventude representa uma parcela significativa da população e onde continuam a existir desafios relacionados com segurança, inclusão e oportunidades económicas, a aposta na cultura pode assumir uma dimensão estratégica. A paz pode precisar de forças de segurança para ser protegida, mas, como tem defendido a UNESCO, precisa também de educação, diálogo, pertença e oportunidades para ser construída e permanecer.





