Num país onde o sector agrário representa cerca de 26% do Produto Interno Bruto e absorve aproximadamente 70% da população activa, a relevância económica é inequívoca. Contudo, o modelo predominante permanece assente na agricultura familiar de subsistência, com baixa produtividade, limitada mecanização, fraca integração em cadeias de valor e elevada exposição a choques climáticos.
Da Agricultura de Subsistência ao Agronegócio Competitivo
A ambição do AgriConnect é clara: catalisar a transição de um modelo fragmentado e informal para um sistema produtivo integrado, orientado para o mercado e baseado em cadeias de valor estruturadas.
Entre as prioridades definidas constam cadeias consolidadas com potencial exportador — banana, açúcar, algodão e castanha — e cadeias estratégicas ainda fortemente dependentes de importações, como arroz, milho, feijão e tilápia.
A substituição de importações nestes segmentos poderá reduzir a vulnerabilidade externa, aliviar a pressão sobre a balança comercial e gerar efeitos multiplicadores significativos na economia rural.
Ao mesmo tempo, a diversificação agrícola surge como componente crítica da agenda nacional de industrialização, sobretudo quando articulada com processamento agro-industrial e logística rural.
Formalização, Digitalização e Inclusão Financeira
Um dos eixos centrais da plataforma é a integração de milhões de produtores no sistema formal. A informalidade tem limitado o acesso ao crédito, a contratos estruturados, a seguros agrícolas e a instrumentos de mitigação de risco.
O Governo sublinhou que a digitalização será ferramenta-chave para esta transformação, viabilizando rastreabilidade, organização produtiva, gestão de dados e maior transparência nas cadeias de comercialização.
A formalização poderá igualmente ampliar a base fiscal no médio prazo, reforçando a sustentabilidade das finanças públicas.
Âncora Financeira de Longo Prazo: US$ 500 Milhões
O Director do Grupo do Banco Mundial para Moçambique e Região, Fily Sissoko, anunciou que o AgriConnect será ancorado pelo Programa MozAgriBiz, actualmente em fase de preparação, com um envelope financeiro estimado em 500 milhões de dólares ao longo de dez anos.
O financiamento deverá combinar investimento público, mobilização de capital privado e instrumentos de apoio aos pequenos produtores, que representam cerca de 98% do universo agrícola nacional.
Num contexto demográfico marcado pela entrada anual de aproximadamente meio milhão de jovens no mercado de trabalho, o agronegócio surge como sector com maior potencial de absorção de mão-de-obra e criação de rendimento sustentável.
Cooperativas Como Infraestrutura Económica
A Associação Moçambicana para Promoção do Cooperativismo Moderno (AMPCM) reforçou que a organização produtiva em cooperativas modernas constitui instrumento estruturante para ganhos de escala, melhoria de qualidade e acesso a mercados formais .
Os constrangimentos actualmente identificados incluem acesso limitado a financiamento adequado, infraestruturas rurais insuficientes, perdas pós-colheita elevadas, problemas de qualidade como contaminação por aflatoxinas e vulnerabilidade às alterações climáticas .
A associação defende reformas institucionais, financeiras e de mercado, incluindo simplificação regulatória, linhas de crédito adaptadas, fundos de garantia e incentivos fiscais ao investimento cooperativo.
Agricultura e a Agenda de Diversificação Económica
O AgriConnect insere-se numa estratégia mais ampla de diversificação produtiva, num momento em que Moçambique procura reduzir dependência excessiva de sectores extractivos e reforçar resiliência económica.
Se devidamente implementada, a iniciativa poderá contribuir para a redução do défice alimentar, dinamizar as economias rurais e impulsionar a expansão da agro-indústria nacional. Ao aumentar a produtividade e os rendimentos dos produtores, o programa poderá igualmente reforçar a segurança alimentar e nutricional, ao mesmo tempo que estimula a criação de valor acrescentado interno e reduz a vulnerabilidade externa associada à dependência de importações.
O desafio central residirá na execução efectiva, coordenação interinstitucional e capacidade de transformar compromissos financeiros em impacto concreto no terreno.
A agricultura moçambicana dispõe de potencial significativo. A questão estratégica é se o AgriConnect conseguirá converter esse potencial em produtividade, formalização e crescimento sustentável.
Fonte: O Económico






