Por: Virgílio Timana
Durante muitos anos, acreditou-se que a introdução de tecnologias digitais nas escolas moçambicanas seria o impulso definitivo para modernizar o ensino. Tablets, computadores portáteis, ligações à internet e plataformas digitais foram apresentados como símbolos de um avanço inevitável rumo a uma educação mais dinâmica, inclusiva e eficiente. No papel, essa ambição parecia incontestável: aproximar os estudantes do mundo contemporâneo, dotá-los de competências tecnológicas e facilitar o acesso à informação. Porém, a prática diária demonstra que a integração da tecnologia é bem mais complexa do que se idealizou.
A primeira constatação é que a presença destes dispositivos não garante, por si só, uma melhoria no processo de aprendizagem. Em muitas escolas, sobretudo em contextos urbanos, é evidente que os estudantes se habituaram a confiar excessivamente nos meios digitais. Essa dependência tem criado um distanciamento preocupante em relação ao esforço intelectual que marcou gerações anteriores. A memorização, a revisão dos conteúdos e o estudo sistemático foram, em muitos casos, substituídos pela ideia de que “a tecnologia resolve”. E quando o estudo deixa de ser um exercício de reflexão e disciplina, a aprendizagem fragiliza-se.
Por outro lado, a disseminação dos telemóveis trouxe um fenómeno que ultrapassa a sala de aula: a atenção fragmentada. O uso constante das redes sociais ocupa um espaço cada vez maior no quotidiano dos estudantes. Mesmo em ambientes escolares, o telemóvel deixa frequentemente de ser uma ferramenta para pesquisa ou apoio e transforma-se num elemento de distracção permanente. Esta tendência não resulta apenas de falta de orientação; revela também a dificuldade das escolas em estabelecer limites claros e estratégias pedagógicas que canalizem o uso da tecnologia para fins educativos.
Não se pode, contudo, ignorar que a tecnologia trouxe benefícios reais. Acesso a bibliotecas digitais, possibilidade de aulas híbridas, ferramentas de apoio ao professor e contacto com realidades globais: tudo isto representa avanços importantes. O desafio está em transformar estes recursos em valor educativo e não em mais um ruído no processo de ensino. Para que isso aconteça, é indispensável reforçar a formação dos professores, criar regras claras para o uso de dispositivos no contexto escolar e, acima de tudo, cultivar nos estudantes o entendimento de que a tecnologia é um complemento, não um substituto do esforço intelectual.
A questão fundamental não é rejeitar a tecnologia, mas redefinir o seu papel. A modernização do ensino exige equilíbrio: promover competências digitais sem abdicar da concentração, da disciplina e do esforço que sustentam qualquer aprendizagem sólida. A tecnologia deve ser um meio para ampliar horizontes, e não um pretexto para reduzir o rigor académico.
Um sistema educativo que valorize a reflexão e a autonomia intelectual, aproveitando simultaneamente as potencialidades do mundo digital, conseguirá preparar melhor os estudantes para os desafios do século XXI. Mas isso só será possível quando a tecnologia deixar de ser idolatrada como solução automática e passar a ser usada com consciência, orientação e propósito. A verdadeira transformação nasce do uso inteligente dos recursos, não da mera presença.




