Os apelos a uma nova tentativa de entrada em massa em Ceuta e Melilla no próximo dia 15 continuam a multiplicar-se em Marrocos e coincidem com um forte dispositivo policial marroquino na fronteira com as duas cidades espanholas.
Os apelos surgem num contexto pré-eleitoral em Marrocos e de crescentes críticas à gestão migratória do país.
Apesar de os apelos nas redes sociais à organização de novas entradas em massa em Ceuta e Melilla no próximo sábado continuarem a multiplicar-se, ainda não foram registadas chegadas de migrantes ao lado marroquino da fronteira com as duas cidades autónomas.
Segundo o jornalista Ahmed Biyuzan, residente na cidade de Fnideq (Castillejos, perto de Ceuta) e especializado há vários anos em questões migratórias, a localidade e os arredores de Ceuta continuam tranquilos após os acontecimentos registados no final do mês passado.
Biyuzan acrescentou que as entradas e saídas de Ceuta a partir de território marroquino decorrem normalmente e que, nos últimos dias, não foi registada a chegada de novos candidatos à migração irregular.
O jornalista marroquino confirmou que o dispositivo de segurança continua a ser intenso na zona devido à preocupação das autoridades de Rabat perante o apelo para 15 de agosto.
Azuz Bulegdur, ativista dos direitos humanos em Nador, cidade próxima de Melilla, explicou hoje à agência noticiosa espanhola EFE que a situação do lado marroquino da fronteira com a cidade autónoma é “normal” e indicou que não foram registadas chegadas de migrantes, embora tenha destacado que o dispositivo policial continua a ser elevado.
Contudo, na sexta-feira, a EFE assistiu à interceção de menores pelas autoridades enquanto se dirigiam para Ceuta em localidades como Alcácer-Quibir, situada cerca de 180 quilómetros a sul da cidade espanhola.
A Associação Marroquina dos Direitos Humanos (AMDH) anunciou na sexta-feira que um total de 141 pessoas morreram nessas avalanches migratórias, enquanto outras 111 foram detidas por tentarem entrar ilegalmente em Ceuta e Melilla.
Por seu lado, as autoridades marroquinas reconheceram apenas 14 mortos no seu território.
A AMDH criticou, num comunicado lido durante uma conferência de imprensa, o papel de Marrocos como “gendarme da Europa” e denunciou a intenção do país de abordar o fenómeno migratório exclusivamente numa perspetiva de segurança.
A associação reprovou também a indiferença da União Europeia (UE) perante as violações dos direitos dos migrantes cometidas pelas autoridades marroquinas e exigiu uma investigação independente para determinar responsabilidades pelo sucedido.
Os últimos episódios de migração em massa demonstram “o estrondoso fracasso” do atual Governo marroquino na resposta às crises sociais e económicas, afirmou hoje Said Akdad, membro do gabinete político do opositor Partido do Progresso e do Socialismo (PPS).
Em declarações à EFE, Akdad atribuiu a situação à “incapacidade” das políticas aplicadas para corrigir os desequilíbrios do modelo marroquino de desenvolvimento e a má distribuição da riqueza, fatores que, na sua opinião, agravaram as desigualdades e alimentaram o desespero entre os jovens.
Em Marrocos existem 2,9 milhões de jovens entre os 15 e os 29 anos que não estudam nem trabalham, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT).
O dirigente do PPS considerou que o facto de milhares de jovens se verem obrigados a arriscar a vida em busca de um futuro com dignidade constitui um verdadeiro “sinal de alarme”.
Face à deterioração, Akdad defendeu a necessidade de aproveitar as eleições parlamentares do próximo mês para romper com a atual orientação governamental, que, afirmou, tem demonstrado favorecer grupos de pressão e oligarquias.
Contudo, num comunicado, o Reagrupamento Nacional de Independentes (RNI), que lidera a atual coligação governamental, rejeitou qualquer tentativa de “instrumentalizar” politicamente os acontecimentos registados em Ceuta e apelou a que esta tragédia seja abordada a partir da “responsabilidade coletiva”.
O RNI, que procura obter um novo mandato governamental nas próximas eleições, reconheceu igualmente a necessidade de transformar estes acontecimentos migratórios num ponto de viragem nas políticas dirigidas aos jovens, através de uma estratégia integrada que responda às suas aspirações.
Fonte: TVI






