Na noite da última partida frente à Somália, apesar da vitória por 1-0, o sonho dos Mambas de se qualificarem para o Campeonato do Mundo de 2026 já estava seriamente comprometido. A derrota por 2-1 diante da Guiné-Conacri havia representado mais do que a simples perda de três pontos, marcou simbolicamente o fim de um ciclo que, embora promissor no início, perdeu o rumo na fase decisiva.
De facto, na primeira volta desta campanha, a nossa selecção somou 12 pontos, demonstrando competitividade e alimentando esperanças legítimas. No entanto, a segunda volta revelou-se desastrosa, com apenas 6 pontos conquistados. No total, acumulámos 18 pontos e sofremos 17 golos, um número alarmante, que nos coloca como a nona selecção mais batida entre as 54 participantes africanas. Esses dados não podem ser ignorados e devem servir de alerta para uma reflexão profunda.
Neste contexto, têm surgido diversas vozes a exigir a substituição do seleccionador nacional, Chiquinho Conde. Com o devido respeito por essas opiniões, acredito que mudar o treinador não resolverá, por si só, os problemas estruturais do nosso futebol. O que enfrentamos é uma crise mais profunda: falta-nos uma estrutura sólida, uma visão de longo prazo e, sobretudo, uma aposta séria e consistente na formação.
A realidade é dura, mas precisa ser encarada: enquanto não houver um projecto sustentado que actue desde a base, continuaremos a ver jogadores profissionais, mesmo os que actuam em campeonatos europeus, apresentarem deficiências técnicas básicas, como má recepção de bola, posicionamento deficiente e decisões precipitadas em campo. Isso é sintomático de um sistema que falha na formação e no acompanhamento dos seus talentos.
Portanto, a solução não passa apenas por treinar melhor os jogadores que já estão ao serviço da selecção. É urgente repensar, de forma estruturada e comprometida, o futebol nacional. A Federação Moçambicana de Futebol, os clubes e até os campeonatos de cariz recreativo precisam de trabalhar em conjunto para criar uma base sólida de identificação, formação e valorização de talentos desde as camadas mais jovens.
Além disso, é fundamental expandir a visão técnica para além dos grandes centros urbanos. As zonas rurais estão cheias de jovens com talento natural que, por falta de oportunidades, nunca pisaram um campo relvado em condições adequadas. Os clubes precisam de alargar os seus horizontes de prospecção, criando condições para que esses jovens possam crescer, desenvolver-se e, um dia, representar o país com orgulho e dignidade.
É neste sentido que a qualificação para o Mundial de 2030 deve começar agora, e não em 2029. Se continuarmos a ignorar o futebol de base, estaremos condenados a depender de jogadores formados fora do país ou de momentos esporádicos de brilho individual, que são insuficientes para sustentar um projecto competitivo. O futuro constrói-se com trabalho, planeamento e acção, não com esperança vazia.
Dessa forma, a pergunta que realmente importa não é “quem deve ser o próximo treinador?”, mas sim “que futuro queremos para o futebol moçambicano?”. A resposta está na coragem de começar de novo, a partir das raízes. Só assim poderemos, um dia, não apenas sonhar com o palco mundial, mas competir de igual para igual nele.






