Com crescimento económico limitado a 0,5% em 2025 e cerca de US$ 3 mil milhões já mobilizados mas com execução limitada, o debate sobre reconstrução desloca-se do financiamento para a capacidade de implementação e disciplina macroeconómica
Crescimento frágil exposto à pressão climática
Moçambique entra em 2026 confrontado com uma equação económica particularmente exigente: reconstruir infra-estruturas destruídas por eventos climáticos, reduzir perdas recorrentes associadas a fenómenos extremos e preservar simultaneamente a estabilidade macroeconómica.
Em 2025, o crescimento económico foi de apenas 0,5%, num contexto marcado por choques climáticos, constrangimentos fiscais e uma recuperação económica mais lenta do que o esperado.
Nos últimos anos, a economia moçambicana tem registado taxas de expansão entre 2% e 3%, muito abaixo da média histórica de cerca de 7,5%, considerada necessária para sustentar uma trajectória de convergência económica de longo prazo.
Num país onde cada evento climático extremo pode retirar até 2% do Produto Interno Bruto, a vulnerabilidade climática deixou de ser um fenómeno episódico e passou a constituir um condicionante estrutural do crescimento económico.
Com um PIB per capita estimado em cerca de US$ 662, Moçambique teria de sustentar um crescimento médio anual próximo de 7,5% para atingir a meta de US$ 2.100 até 2044, conforme previsto na estratégia nacional de desenvolvimento.
Plano de reconstrução avaliado em US$ 788,5 milhões
Os levantamentos preliminares que informam o futuro Plano Global de Recuperação e Reconstrução pós-cheias apontam para necessidades estimadas em US$ 788,5 milhões.
A estrutura de financiamento do plano evidencia prioridades claras.
Cerca de 42% dos recursos deverão ser destinados à reconstrução de infra-estruturas, enquanto 32,64% serão dirigidos à assistência humanitária. Outros 21,02% destinam-se à recuperação económica e 3,41% à redução do risco de desastres.
A implementação deste plano ocorrerá num ambiente macroeconómico sensível, marcado por dívida pública superior a 90% do PIB e uma inflação que permanece entre 6% e 8%.
Neste contexto, a reconstrução exige um equilíbrio delicado entre a expansão da despesa pública e a preservação da sustentabilidade fiscal.
Reconstrução resiliente como estratégia económica
Para o Governo, o processo de reconstrução deve ultrapassar a lógica de resposta emergencial e assumir uma dimensão estratégica de transformação económica.
O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Valá, defende que a recuperação deve ser orientada por princípios de resiliência e preparação para eventos climáticos futuros.
Segundo o governante, o diálogo com parceiros de cooperação permitiu alinhar estratégias que procuram garantir que a reconstrução esteja articulada com políticas de crescimento económico e desenvolvimento produtivo.
Nesta perspectiva, reconstruir não significa apenas repor infra-estruturas destruídas, mas criar bases institucionais e económicas que permitam ao país responder de forma mais robusta a choques climáticos futuros.
Pequenas e Médias Empresas no centro da recuperação económica
Um dos eixos centrais da estratégia governamental passa pela mobilização do sector privado, em particular das Pequenas e Médias Empresas.
De acordo com Salim Valá, 98% da paisagem económica nacional é dominada por PMEs, o que torna estas empresas fundamentais para dinamizar a actividade produtiva.
Instrumentos como o Fundo de Desenvolvimento Económico Local, o Fundo de Garantia Mutuária, o Banco de Desenvolvimento e mecanismos de financiamento à inovação são apontados como instrumentos capazes de apoiar o investimento produtivo e estimular a recuperação económica.
A mobilização desta base empresarial poderá permitir ampliar a actividade económica, gerar emprego e aumentar a base tributária.
Recursos disponíveis contrastam com limitações de execução
Apesar de o financiamento internacional já estar relativamente mobilizado, os parceiros de cooperação apontam que o principal desafio não reside na disponibilidade de recursos, mas na capacidade de execução dos projectos.
O Banco Mundial confirmou a existência de um portefólio activo de cerca de US$ 3 mil milhões, distribuído por aproximadamente 40 projectos, incluindo investimentos relevantes em transportes e infra-estruturas.
Contudo, em alguns casos as taxas de execução não ultrapassam 7%, revelando limitações administrativas e institucionais que reduzem o impacto económico destes recursos.
Para os parceiros internacionais, reforçar a capacidade técnica e administrativa de implementação tornou-se condição essencial para garantir que o financiamento disponível produza resultados concretos.
Reconstrução poderá servir de ponte para o novo ciclo económico
Após a fase inicial de assistência humanitária, o foco começa agora a deslocar-se para a reconstrução estrutural e para a dinamização da actividade económica.
Neste contexto, a reconstrução poderá funcionar como uma ponte económica, sustentando investimento e actividade produtiva enquanto o país aguarda o impacto pleno dos grandes projectos de gás natural na Bacia do Rovuma.
Com 724 mil pessoas afectadas, necessidades de reconstrução estimadas em US$ 788,5 milhões e cerca de US$ 3 mil milhões já mobilizados, Moçambique enfrenta menos um problema de financiamento e mais um desafio de gestão macroeconómica e eficiência administrativa.
Em última instância, a reconstrução será um teste à capacidade do país de transformar despesa pública em crescimento sustentável numa economia que precisa de estabilidade antes de entrar no novo ciclo económico impulsionado pelo gás natural.
Fonte: O Económico






