InícioCarta dos LeitoresO Pensamento de Karl Marx ainda tem significado para nós hoje?

O Pensamento de Karl Marx ainda tem significado para nós hoje?

Resumo

O pensamento de Karl Marx mantém-se relevante na análise das condições atuais, onde a exploração do trabalho, a alienação, a desigualdade social e a influência do capital financeiro global persistem. Governos eleitos são frequentemente desestabilizados por interesses económicos poderosos, desafiando a democracia. Em Moçambique, estas dinâmicas são evidentes, apesar das mudanças no capitalismo ao longo dos anos. Marx previu estas transformações, influenciadas pelo socialismo revolucionário do século XX. A eleição de Daniel Chapo em Moçambique reflete a ascensão de trabalhadores ao poder, alterando a gestão dos meios de produção e do Estado. Este cenário ilustra a luta contínua entre classes e a evolução do sistema capitalista sob influência do socialismo.

Por: Euclides Cumbe

O pensamento de K. Marx será sempre muito significativo num quadro histórico que apresente,
em quaisquer partes do mundo, as seguintes características, a saber: as condições materiais de
exploração do trabalho do homem, que o transforma numa mercadoria reificada (coisificada), por
isso mesmo alienada; o aviltamento da dignidade da vida humana que é facilmente trocada pelo
fetiche da mercadoria; os fenômenos de concentração econômica das riquezas e a sua consequente
desigualdade social discrepante que cresce de maneira exponencial a cada década que passa.

Defende-se a igualdade de direitos, mas nega-se a igualdade de condições; têm-se governos,
legitimamente eleitos pela maioria da população, golpeados, não mais por militares, mas pelos
parlamentos e pelos judiciários nacionais e ou boicotados sistematicamente pelos interesses do
capital financeiro global, pelas grandes corporações internacionais, numa verdadeira e deliberada
guerra mesmo contra as limitadas democracias liberais capitalistas que conseguem se instalar,
principalmente quando estas guindam ao poder – candidatos que mesmo após conseguirem vencer
todo o cerco do aparato jurídico, midiático e econômico em processos eleitorais viciados –
representantes das classes trabalhadoras dispostos a defender os interesses destas a qualquer custo.

Pelo menos é o que se tem apresentado até agora, em nossos dias, nesses dois centenários de
desenvolvimento do pensamento marxiano e, neste ponto, não constituiria uma excepção o caso
específico de Moçambique. Aqui, muito pelo contrário, tais características estão amplamente
contempladas, ainda que – transcorridos 200 anos desde o nascimento do autor desta corrente de
pensamento, o “Mouro”, – o capitalismo tenha se metamorfoseado; seja por conta do
desenvolvimento endógeno extremo das suas forças produtivas, do denominado capitalismo
selvagem.

Aliás, como já fora previsto pelo próprio Karl Marx, seja por conta também das transformações
exógenas ao próprio sistema capitalista, no caso, sua humanização forçada devido aos avanços
sociais promovidos pelas sucessivas vitórias do socialismo revolucionário, no século XX, a
começar pela Revolução Russa, a Chinesa e a Cubana para citarmos apenas as três mais
importantes e impactantes, em várias partes do mundo e, em particular, na nossa realidade de
Africa e em particular Moçambique, com sua especificidade, via sistema eleitoral de(s)mocrático,
com a eleição de Daniel Chapo –, o que obrigou as diversas burguesias nacionais a cederem os
seus anéis para que não perdessem os seus dedos, em processos revolucionários que colocaram os
“homens e mulheres” que actualmente “vivem do trabalho” ou, simplesmente, os trabalhadores
em geral e ou os “proletários reais” do passado, no poder, no governo, no controle dos meios de
produção, socializando-os, e na gestão do aparelho do Estado, para que o mesmo deixasse de ser
uma “agência dos negócios da burguesia” e passasse a legitimar os interesses da maioria da
população, que é a classe trabalhadora; enfim, se implantasse, assim, pela primeira vez na história,
a verdadeira democracia enquanto governo do povo, para o povo e pelo povo.

Esse processo histórico adverso ao capitalismo fez com que a voracidade do capital fosse aplacada
e o trabalho pudesse avançar na conquista e manutenção de alguns direitos fundamentais para a
dignidade dos trabalhadores, ou seja, contribuiu, directa ou indirectamente, para a reforma do
sistema capitalista.

Importante ressaltar, como ponto de partida, que Karl Marx produziu todo seu pensamento na fase
do capitalismo industrial monopolista/imperialista, durante o século XIX e o analisou como
resultado da sua fase anterior, do capitalismo concorrencial, comercial, da Idade Moderna, que ele
o classificou como o período de acumulação primitiva do capital, um interstício de tempo com
duração de 300 anos de saque das riquezas da América, África e Ásia, promovido em escala global
pelas diversas burguesias nacionais dos países europeus, sem o qual não haveria a extrema
acumulação de capital na Europa que propiciasse o desenvolvimento necessário das forças
produtivas para que tivéssemos assistido ao salto qualitativo da produção manufatureira,
característica desse período anterior, para a produção industrial, predominante no contexto europeu
em que Marx viveu.

Portanto, ao afirmarmos a actualidade, a importância e o significado do pensamento marxiano para
a América do Sul, não o fazemos desconhecendo essa sua extemporalidade, uma vez que vivemos
sob a égide de uma nova fase no desenvolvimento das forças produtivas, do toyotismo, do
capitalismo financeiro, do neoliberalismo, ou da internacionalização do capital financeiro, como
definem alguns autores marxistas, e que, ainda, tem no pós-modernismo a “etapa superior do
capitalismo” ou a ideologia cultural que cimenta a hegemonia da globalização, com tais
especificidades completamente diversas daquelas do capitalismo industrial dos tempos de K.
Marx, e na esteira desse raciocínio, não temos como deixar de considerar as contribuições do
pensamento dos autores marxistas, contemporâneos nossos, que já procederam à releitura da obra
marxiana para melhor compreendermos as contradições e os entraves presentes em nosso contexto
do século XXI, que impedem a chegada da humanidade numa sociedade socialista onde se construa
um homem novo, autônomo e livre de toda forma de opressão.

Outra constatação importante que devemos fazer inicialmente é que Marx propôs uma ruptura
definitiva com a dicotomia entre o pensar e o fazer, quando afirmou, na XI Tese sobre Feuerbach,
que “Até hoje os filósofos têm interpretado o mundo de diferentes maneiras; o que importa é
transformá-lo” e, em seu lugar, cunhou o conceito de práxis, como a união dialética entre a teoria
e essa mesma prática.

Assim, fica impossível tratarmos do pensamento revolucionário marxiano sem, no entanto, nos
reportarmos às “práticas revolucionárias” na Amárica do Sul. A maioria absoluta delas se deu
através da luta armada, sejam as actuais e ou aquelas que influenciaram estas, no decorrer desses
dois centenários do nascimento de K. Marx.

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