Resumo
Por: Gentil Abel
O “Pita Kufa” continua a ser uma das práticas tradicionais mais debatidas em Moçambique, sobretudo nas províncias da região centro, como a Zambézia, e sofala. Associado a rituais de purificação após a morte de um membro da família, especialmente do cônjuge, o costume representa um tema sensível, situado entre a preservação da identidade cultural e os desafios contemporâneos ligados aos direitos humanos, à saúde pública e às transformações sociais.
A expressão “Pita Kufa”, que pode ser traduzida como “afastar o morto”, está profundamente ligada à cosmovisão tradicional de algumas comunidades moçambicanas. A prática assenta na crença da existência de dois mundos: o dos vivos e o dos mortos, e na necessidade de estabelecer um ritual de passagem que marque a separação espiritual entre ambos. Nesse contexto, acredita-se que a morte não encerra automaticamente os vínculos entre o falecido e os familiares próximos, sendo necessário um processo simbólico de purificação para restaurar o equilíbrio social e espiritual da família.
Embora o ritual seja frequentemente associado às viúvas, existem diferentes formas de “Pita Kufa”, dependendo da condição da pessoa falecida. Nos casos de morte de um homem casado, a tradição prevê que a viúva seja purificada através de uma relação sexual ritual com um familiar do falecido, geralmente um cunhado, ou, na ausência deste, com um homem escolhido ou pago pela comunidade para cumprir essa função. Em determinadas comunidades, o ritual é antecedido por reuniões familiares onde se avalia o estado emocional e físico da viúva e se define, de forma consensual, quem será o responsável pela purificação.
Também existem práticas semelhantes para viúvos, apesar de, historicamente, a maior pressão social recair sobre as mulheres. Líderes comunitários e idosos defendem que o ritual deve aplicar-se a ambos os cônjuges, sendo que, quando morre uma mulher casada, o viúvo pode igualmente participar num ritual de purificação com uma mulher indicada pela comunidade. Em situações de morte de crianças, os próprios pais podem realizar o ritual após o funeral. Já no caso da morte de idosos ou pessoas solteiras, o procedimento pode envolver o chefe do agregado familiar ou o filho mais velho com a respetiva esposa.
Do ponto de vista cultural o ritual desempenha uma função importante de reintegração social. Para algumas comunidades, a prática não se resume ao acto sexual em si, mas simboliza o encerramento de um ciclo de luto e a libertação espiritual da pessoa sobrevivente. Sem essa purificação, acredita-se que a viúva ou o viúvo pode continuar vulnerável a infortúnios, doenças ou conflitos espirituais associados ao falecido. Em sociedades onde as tradições ancestrais continuam a orientar grande parte da vida comunitária, estes rituais são vistos como mecanismos de coesão social e respeito pelos antepassados.
Contudo, à medida que Moçambique se urbaniza e amplia o acesso à educação formal, o “Pita Kufa” passou a ser alvo de crescente debate público. Organizações da sociedade civil, profissionais de saúde e defensores dos direitos humanos questionam sobretudo os riscos associados à prática sexual ritual sem proteção. Em muitas comunidades, acredita-se que o uso de preservativo compromete ou anula o ritual de purificação, o que levanta preocupações sérias em relação à transmissão do HIV/SIDA e de outras infeções sexualmente transmissíveis.
Num país onde os desafios de saúde pública continuam significativos, campanhas de sensibilização têm procurado promover alternativas simbólicas ao ritual sexual, defendendo práticas de purificação que preservem o valor cultural sem colocar vidas em risco. Algumas comunidades começaram gradualmente a adaptar os rituais, substituindo o acto sexual por cerimónias simbólicas, banhos tradicionais ou outros elementos espirituais considerados menos perigosos do ponto de vista sanitário.
No campo religioso, as posições também variam. Igrejas cristãs e outros grupos religiosos frequentemente desencorajam o ritual, considerando-o incompatível com determinados princípios morais e espirituais. Ainda assim, em algumas regiões, observa-se uma convivência complexa entre crenças tradicionais e práticas religiosas modernas, com famílias que conciliam rituais ancestrais e cerimónias religiosas formais.
Importa ressaltar que a prática de “Pita Kufa” se tornou igualmente tema de reflexão artística e literária em Moçambique. O romance “Pita Kufa: O Leito da Morte”, do escritor moçambicano Paradona Roque, é um exemplo de como a literatura nacional tem explorado os conflitos humanos, culturais e sociais associados à prática. A arte, nesse contexto, surge como espaço de diálogo sobre tradição, identidade, mudança social e dignidade humana.





