InícioCulturaLANÇAMENTO DO LIVRO TRABALHO, IDENTIDADE E PROFISSIONALIDADE DOCENTE EM MOÇAMBIQUE

LANÇAMENTO DO LIVRO TRABALHO, IDENTIDADE E PROFISSIONALIDADE DOCENTE EM MOÇAMBIQUE

Resumo

A Universidade São Tomás de Moçambique recebeu o lançamento do livro "Trabalho, Identidade e Profissionalidade Docente em Moçambique", da autoria do Professor Dr. Bento Rupia Júnior, num evento que reuniu académicos, investigadores e estudantes para debater os desafios atuais da profissão docente no país. A obra analisa a evolução da educação em Moçambique, desde o período pré-colonial até às influências neoliberais pós-independência, destacando a complexa identidade profissional dos professores. Bento Rupia Júnior enfatiza a importância da experiência dos professores na construção do conhecimento pedagógico e destaca a resiliência e inovação destes perante as limitações estruturais, recorrendo a estratégias criativas para melhorar o ensino, apontando para a necessidade de políticas educativas mais abrangentes e apoio contínuo à profissão docente em Moçambique.

Por: Gentil Abel

A Universidade São Tomás de Moçambique acolheu, na terça-feira, 31 de Março, o lançamento do livro Trabalho, Identidade e Profissionalidade Docente em Moçambique, da autoria do Professor Dr. Bento Rupia Júnior, numa sessão que reuniu docentes, investigadores, estudantes e outros interessados na área da educação, marcada por um debate alargado em torno dos desafios contemporâneos da profissão docente no país.

O evento decorreu num ambiente de forte reflexão académica e social, com intervenções que sublinharam a urgência de repensar o lugar do professor no sistema educativo moçambicano. A obra apresentada surge como um contributo relevante para esse debate, ao propor uma análise aprofundada da educação em Moçambique, desde as suas raízes históricas até às dinâmicas actuais que moldam a profissão docente.

No livro, Dr. Bento Rupia Júnior começa por explorar o contexto pré-colonial, caracterizando a educação tradicional como um processo comunitário, assente na oralidade e na transmissão de conhecimentos através dos mais velhos, com forte ligação à coesão social. Em seguida, analisa o impacto da colonização portuguesa, que instituiu um sistema educativo dual, reservado de forma desigual entre colonos e população indígena. Após a independência, o autor descreve o processo de nacionalização do ensino e as transformações subsequentes, incluindo a adopção de políticas influenciadas por correntes neoliberais, que introduziram desafios ligados à contenção de despesas públicas e à privatização de sectores estratégicos.

A obra dedica especial atenção à evolução da profissão docente, evidenciando a sua passagem de práticas informais, muitas vezes associadas ao espaço doméstico e religioso, para uma actividade estruturada, regulamentada e progressivamente reconhecida pelo Estado. Neste percurso, o autor destaca a emergência de uma identidade profissional complexa, construída a partir de múltiplas influências históricas, culturais, sociais e políticas, e permanentemente em transformação.

Bento Rupia Júnior analisa igualmente o papel das políticas educativas e das relações de poder na definição da prática docente, sublinhando que a experiência vivida pelos professores constitui um elemento central na construção do conhecimento pedagógico. A reflexão sobre o quotidiano escolar, incluindo sucessos, fracassos e estratégias improvisadas, é apresentada como fundamental para o desenvolvimento profissional.

A obra aborda ainda os desafios que se colocam à profissionalidade docente em Moçambique, destacando a natureza multifacetada da identidade dos professores, influenciada pela origem social, pela formação académica, pela cultura escolar e pelo reconhecimento social. Apesar das dificuldades, o autor evidencia a capacidade de resistência e inovação dos docentes, que, perante limitações estruturais e contextuais, recorrem a estratégias criativas e saberes locais para melhorar o processo educativo.

Nas conclusões, o livro aponta para a necessidade de políticas educativas mais inclusivas e participativas, defendendo uma maior valorização da classe docente e uma abordagem mais ajustada às realidades locais. O autor reconhece, contudo, limitações no seu estudo e sugere a continuidade da investigação nesta área.

Durante a apresentação, Bento Rupia Júnior afirmou que a obra resulta de uma “inquietação profunda” e de um compromisso com a produção de conhecimento que contribua para repensar o papel do professor nas dimensões identitária, laboral e profissional. O académico criticou a crescente desvalorização da docência, apontando factores como a precarização das condições de trabalho, a falta de reconhecimento social, a politização excessiva do espaço escolar e as recorrentes crises salariais.

Na sua intervenção, manifestou também preocupação com a influência de instituições financeiras internacionais nas políticas públicas, defendendo que tais orientações tendem a reduzir o professor a um mero custo orçamental. Em contrapartida, sublinhou que a docência deve ser reconhecida como um investimento estratégico, essencial para o desenvolvimento sustentável do país. “A educação não se terceiriza e a soberania do pensamento constrói-se a partir de dentro”, afirmou, acrescentando que o professor deve ser visto como um intelectual e como um agente central na construção da sociedade.

O autor enfatizou ainda que a identidade docente se constrói no quotidiano, no espaço concreto das escolas e universidades, sendo enriquecida pela diversidade cultural e social dos professores moçambicanos. Considerou que cada acto pedagógico representa também uma forma de resistência face às adversidades, exigindo coragem, compromisso e consciência crítica por parte dos profissionais da educação.

À margem do evento, o académico Lourenço Veniça destacou a pertinência da obra, considerando-a uma reflexão necessária sobre a realidade da docência em Moçambique. Segundo afirmou, o livro constitui um alerta para a sociedade e para os decisores políticos, sublinhando que a desvalorização da profissão docente tem implicações directas no desenvolvimento do país. Para Veniça, ao relegar o papel do professor para um plano secundário, compromete-se igualmente o futuro da própria sociedade, tornando urgente a adopção de medidas que resgatem a dignidade e a centralidade da docência no processo educativo.

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