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ESCASSEZ APESAR DO ABASTECIMENTO SIGNIFICATIVO: FALHA DE GESTÃO OU TRANSPARÊNCIA?

Por: Gentil Abel

 Nos últimos dias, tem-se vivido em Moçambique um ambiente de crescente inquietação em torno do abastecimento de combustível. Filas em algumas bombas, relatos de escassez e um sentimento generalizado de incerteza contrastam com as garantias oficiais de que o fornecimento está assegurado e que não há motivos para pânico. É neste cruzamento entre a realidade visível e a narrativa institucional que nasce a dúvida que hoje domina a conversa pública: afinal, o que está realmente a acontecer com o combustível no país?

Do ponto de vista dos dados operacionais, registaram-se nos últimos dias várias entradas significativas de combustível no território nacional. No dia 21 de abril de 2026, no Terminal de Combustíveis do Porto da Matola, terá ocorrido a descarga de cerca de 21 milhões de litros de gasolina destinados ao abastecimento da zona sul. Poucos dias depois, a 29 de abril, no Porto da Beira, outro navio-tanque terá descarregado aproximadamente 20 milhões de litros de gasóleo, com destino ao mercado da zona centro. Já a 3 de maio, no Porto de Nacala, foi registada a descarga de cerca de 10 milhões de litros de gasolina, distribuídos entre operadores do sector. E, a 5 de maio, mais um navio terá concluído a descarga de quase 17 milhões de litros de gasóleo no Terminal da Matola.

À primeira vista, estes volumes parecem contradizer qualquer ideia de escassez. No entanto, a realidade sentida nas ruas nem sempre acompanha os números apresentados. Em várias zonas urbanas, a percepção de instabilidade no abastecimento mantém-se, alimentando dúvidas sobre a eficiência da cadeia de distribuição e sobre a consistência da gestão dos stocks.

É neste ponto que surgem diferentes leituras. Por um lado, há quem defenda que o problema pode estar associado a falhas logísticas e de distribuição interna, desde limitações no transporte até dificuldades operacionais entre terminais e postos de abastecimento.

Por outro lado, circulam também alegações mais sensíveis, ainda não confirmadas de forma oficial, sobre possíveis práticas de reexportação irregular de combustível. Chegou a ser referida, em determinados meios, a suspeita de que parte do combustível importado para consumo interno possa estar a sair do circuito nacional, contrariando orientações do Governo que desencorajam a reexportação. Estas informações, contudo, permanecem no campo das investigações e das versões não confirmadas, exigindo cautela na sua interpretação.

O próprio Governo tem reiterado publicamente que o abastecimento está garantido e que não há razões para alarme. Ainda assim, a comunicação institucional parece não estar a conseguir dissipar totalmente a sensação de insegurança que se instalou entre consumidores e agentes económicos. E quando a confiança na previsibilidade do abastecimento começa a fragilizar-se, o impacto vai além dos postos de combustível, reflecte-se no transporte, nos preços e na rotina diária das cidades.

Importa também considerar outro factor frequentemente subestimado: o comportamento dos mercados em contextos de incerteza. A simples percepção de escassez pode levar à criação de filas, ao aumento da procura preventiva e até à retenção de produto por parte de alguns intervenientes da cadeia, o que agrava ainda mais a pressão sobre o sistema.

Assim, o cenário actual parece resultar de uma combinação de elementos: fluxos significativos de importação, possíveis constrangimentos logísticos, falhas de comunicação e uma percepção pública cada vez mais sensível à ideia de crise. Reduzir o problema a uma única causa pode ser uma leitura simplista de uma realidade mais complexa.

Neste contexto, há também leituras que sugerem que o combustível existe no país e que não se verifica, necessariamente, uma crise estrutural de abastecimento. Algumas análises apontam para a possibilidade de certos intervenientes estarem a reter o produto ao longo da cadeia de distribuição, o que acabaria por criar uma sensação artificial de escassez no mercado.

Paralelamente, circula a perceção de que esta situação pode estar a gerar benefícios para determinados agentes, que tirariam vantagem da instabilidade e da flutuação do abastecimento.

No meio de tudo isto, permanece uma questão central que ainda não encontra resposta clara: como é possível que, com milhões de litros de combustível a entrar regularmente no país, continue a persistir uma sensação generalizada de insegurança no abastecimento?

A resposta, se existir uma única, provavelmente estará na intersecção entre gestão, transparência e confiança.

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