Resumo
A apresentação dos resultados definitivos do III Censo Agro-Pecuário (CAP 2023/24) em Moçambique revelou desafios históricos no setor agrário, mas também destacou o potencial económico do país. O Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, enfatizou a importância do CAP como ferramenta crucial para a transformação económica, classificando-o como um instrumento estratégico de inteligência económica e territorial. O relatório mostrou que 80% dos agregados familiares em zonas rurais estão ligados à agricultura, com cerca de 5,2 milhões de explorações agro-pecuárias no país, a maioria pequenas. A elevada fragmentação da estrutura agrícola, com mais de 84% das explorações com menos de dois hectares, evidencia desafios de produtividade e mecanização. Moçambique possui 36 milhões de hectares de terra arável, mas apenas 17,8% estão atualmente cultivados, apontando para um vasto potencial agrícola por explorar. Principais culturas incluem milho, mandioca, arroz, gergelim, amendoim e feijão bóer.
Durante o seminário de divulgação dos resultados, realizado esta quarta-feira em Maputo, o Ministro da Planificação e Desenvolvimento, Salim Cripton Valá, enquadrou o CAP como uma ferramenta decisiva para a transformação económica nacional, defendendo que “nenhuma transformação estrutural consistente pode ser construída sobre percepções difusas, diagnósticos incompletos ou ausência de evidência”.
No seu discurso, o governante conferiu ao censo uma dimensão que ultrapassa a simples recolha estatística, classificando-o como um “instrumento estratégico de inteligência económica e territorial”, capaz de apoiar decisões públicas mais eficientes, territorializadas e orientadas para resultados concretos.
Os dados apresentados pelo relatório confirmam que a agricultura continua a representar a principal base de subsistência e geração de rendimento para a maioria da população moçambicana. Segundo o documento, cerca de 80% dos agregados familiares nas zonas rurais e peri-urbanas estão envolvidos no sector agrário.
O CAP apurou igualmente a existência de aproximadamente 5,2 milhões de explorações agro-pecuárias no país, das quais 5.078.835 são pequenas explorações, 89.075 médias e apenas 1.271 grandes explorações.
Estrutura Agrária Continua Marcada Pela Fragmentação Produtiva
Uma das principais revelações do relatório reside precisamente na elevada fragmentação da estrutura agrícola nacional.
De acordo com os dados destacados pelo Ministro Salim Valá, mais de 84% das explorações agrícolas possuem menos de dois hectares, realidade que, segundo defendeu, evidencia os enormes desafios associados à produtividade, mecanização, irrigação, assistência técnica e integração nas cadeias de valor.
Ao mesmo tempo, o governante chamou atenção para o facto de o país possuir cerca de 36 milhões de hectares de terra arável, dos quais apenas 17,8% estão actualmente cultivados.
Para Salim Valá, este dado demonstra que Moçambique continua a possuir “uma das maiores reservas estratégicas de potencial agrícola” do continente africano, sublinhando que o futuro da transformação económica do país dependerá da capacidade de converter a agricultura de subsistência em agricultura comercial, integrada e orientada para a agro-industrialização.
O relatório mostra ainda que a área cultivada ronda os 6,2 milhões de hectares, com destaque para culturas como milho, arroz, mandioca, gergelim, amendoim e feijão bóer.
O milho mantém-se como principal cultura cerealífera, com uma produção estimada em cerca de 1,7 milhões de toneladas, enquanto a mandioca domina o segmento de raízes e tubérculos, com aproximadamente 11 milhões de toneladas produzidas.
Pecuária, Segurança Alimentar E Vulnerabilidades Estruturais
O relatório traça igualmente um quadro relevante sobre o efectivo pecuário nacional.
Segundo os dados apresentados, Moçambique possui aproximadamente 2,4 milhões de bovinos, 4,2 milhões de caprinos e cerca de 16 milhões de galinhas de raça local.
Apesar da dimensão destes efectivos, o CAP evidencia limitações persistentes relacionadas com assistência técnica, adopção tecnológica e acesso a serviços de extensão rural.
O relatório indica que apenas 6,7% das pequenas e médias explorações tiveram acesso a serviços de extensão agrária, enquanto cerca de 20,6% utilizaram práticas de rotação de culturas.
Os resultados reforçam a percepção de que a agricultura moçambicana continua fortemente dependente de modelos produtivos tradicionais, vulneráveis às mudanças climáticas, baixa mecanização e reduzida integração comercial.
CAP Introduz Nova Capacidade De Planificação Territorial
Um dos elementos mais destacados durante a apresentação foi o facto de esta edição do CAP passar a disponibilizar resultados com representatividade até ao nível distrital.
Segundo o Ministro, trata-se de um “salto qualitativo relevante” na capacidade estatística nacional, permitindo ao Estado e aos diversos actores económicos compreenderem com maior precisão “onde se produz, quanto se produz, quem produz e em que condições se produz”.
O relatório confirma igualmente que esta edição adoptou metodologias recomendadas pela FAO, incluindo recolha digital através de tablets e utilização da metodologia CAPI, substituindo os tradicionais questionários em papel.
A operação decorreu entre Dezembro de 2024 e Junho de 2025, cobrindo praticamente todo o território nacional, com excepção de seis distritos de Cabo Delgado devido a razões de segurança.
Governo Quer Estatísticas A Influenciar Políticas Públicas
No plano político-institucional, Salim Valá associou os resultados do CAP às prioridades actuais do Governo, nomeadamente à Estratégia Nacional de Desenvolvimento (ENDE 2025-2044) e ao Programa Quinquenal do Governo (PQG 2025-2029).
Segundo explicou, os dados irão alimentar directamente os instrumentos centrais de planificação nacional, sobretudo nas áreas de segurança alimentar, investimento agrícola, ordenamento territorial, desenvolvimento rural, infra-estruturas produtivas e promoção da agro-indústria.
O Ministro defendeu ainda que, num contexto de recursos escassos e desafios crescentes, “a qualidade da decisão pública dependerá cada vez mais da qualidade da evidência disponível”.
Nesse contexto, destacou igualmente que a agricultura ocupa actualmente a segunda posição entre os sectores financiados pelo Fundo de Desenvolvimento Económico Local (FDEL), representando 27,2% dos 15.956 projectos apoiados em todo o país.
A mensagem central do evento acabou por consolidar a ideia de que o desafio agrícola de Moçambique deixou de estar apenas associado à expansão produtiva, passando agora pela necessidade de transformar informação estatística em políticas públicas mais consequentes, territorializadas e economicamente transformadoras.
Fonte: O Económico






