Uma investigação desenvolvida na Universidade Lúrio (UniLúrio) concluiu que a planta medicinal conhecida como “batata africana” (Hypoxis hemerocallidea) poderá conter compostos com potencial relevância no apoio ao tratamento de pacientes com HIV, abrindo caminho para futuras pesquisas laboratoriais e clínicas.
O estudo, ainda de carácter teórico, foi desenvolvido pelo recém-graduado em Farmácia Hamza Daúde, em parceria com a docente de Química Farmacêutica Laize Beca, e baseou-se na análise de literatura científica e no cruzamento de dados assistido por inteligência artificial.
De acordo com os investigadores, foi identificado um fitoquímico denominado proxenidina A2, que poderá actuar sobre o receptor CCR5 — mecanismo associado à entrada do vírus HIV nas células humanas.
Hamza Daúde explica que o composto poderá impedir a infecção ao bloquear o processo de ligação viral.
“É um fitoquímico que foi identificado contra o receptor CCR5, responsável pela entrada do vírus na célula do hospedeiro. O efeito seria bloquear essa entrada, impedindo a infecção”, afirmou o investigador.
O estudo defende que o conhecimento tradicional sobre plantas medicinais pode ser integrado com ferramentas modernas de análise científica, permitindo validações laboratoriais mais robustas.
Apesar dos resultados promissores, os investigadores alertam que a pesquisa ainda não tem aplicação clínica e necessita de testes laboratoriais aprofundados, incluindo estudos de toxicidade e segurança.
Hamza Daúde sublinha que o objectivo não é substituir os tratamentos já existentes, mas sim contribuir para a validação científica de conhecimentos tradicionais.
“A ideia não é substituir os fármacos usados na prática clínica, mas validar o conhecimento tradicional. Existem muitas limitações e seria necessário optimizar a molécula”, explicou.
O estudo foi submetido à revista científica internacional Clinical Traditional Medicine and Pharmacologic em Setembro de 2025 e publicado em Maio de 2026, após cerca de sete meses de avaliação.
A investigação insere-se num movimento mais amplo de inovação científica na Universidade Lúrio, onde estudantes têm recorrido a tecnologias emergentes, incluindo inteligência artificial e ferramentas digitais, para desenvolver soluções na área da saúde pública.
Entre os projectos em curso destaca-se um sistema de mapeamento de criadouros de mosquitos com recurso a drones, desenvolvido pelo estudante Dalton Edítio.
O projecto visa identificar zonas com água parada e potenciais focos de proliferação do mosquito transmissor da malária.
“Queremos identificar os potenciais criadouros antes da fase adulta do mosquito, porque sem mosquito não há malária”, explicou o estudante.
Outro projecto em desenvolvimento é uma plataforma digital de saúde que permite aos pacientes registar parâmetros clínicos como pressão arterial e glicemia, além de aceder a conteúdos educativos e suporte informativo.
A médica e mestranda em Saúde Pública Imersa Sigaúque afirma que a ferramenta pretende reduzir a distância entre consultas e melhorar o acompanhamento dos doentes.
“Os pacientes têm dúvidas entre consultas. A plataforma inclui uma biblioteca de saúde para esclarecer questões nesse período”, referiu.
A direcção da Universidade Lúrio reconhece que várias destas iniciativas ainda requerem validação científica e aprovação de comités de bioética antes de avançarem para aplicação prática.
Segundo o representante académico Alexandre Biquisa, os projectos representam uma oportunidade para fortalecer a produção científica e atrair financiamento para investigação aplicada.
“Queremos usar estas iniciativas como motor para melhorar a produção científica e captar financiamento”, afirmou.
Os projectos apresentados reflectem uma tendência crescente de integração entre ciência tradicional, inovação tecnológica e inteligência artificial na investigação em saúde em Moçambique, num contexto em que instituições académicas procuram soluções locais para desafios como o HIV e a malária.
Embora ainda em fase inicial, os estudos abrem perspectivas para futuras pesquisas mais aprofundadas e eventual desenvolvimento de novas abordagens terapêuticas e tecnológicas no sector da saúde.