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Reabertura De Ormuz Não Resolverá Crise Do LNG E Disputas Poderão Arrastar-Se Até 2027

Resumo

Especialistas alertam que a reabertura imediata do Estreito de Ormuz não resolverá rapidamente os problemas no mercado global de gás natural liquefeito. Acumulação de cargas não entregues, disputas contratuais e limitações operacionais podem afetar os fornecimentos por vários anos. A interrupção no Estreito de Ormuz continua a causar impactos significativos, levando a renegociações de contratos, reprogramação de cargas e litígios entre produtores e compradores. A região do Médio Oriente, especialmente o Qatar, enfrenta desafios após a declaração de força maior nos fornecimentos de LNG. Estima-se que as perdas mensais de fornecimento de LNG tenham sido de 6,4 a 8,2 milhões de toneladas. Mesmo com uma reabertura total do estreito em junho, prevê-se uma perda total de 31 milhões de toneladas em 2026, podendo chegar a 42 milhões se as perturbações persistirem até julho.

Especialistas alertam que mesmo uma reabertura imediata do Estreito de Ormuz não será suficiente para normalizar rapidamente o mercado global de gás natural liquefeito. Acumulação de cargas não entregues, disputas contratuais e limitações operacionais poderão afectar a programação de fornecimentos durante vários anos.

A eventual reabertura do Estreito de Ormuz poderá não representar o regresso imediato à normalidade para o mercado mundial de gás natural liquefeito (LNG). Pelo contrário, especialistas em contratos energéticos e analistas do sector alertam que os impactos da interrupção poderão continuar a ser sentidos durante vários anos, afectando a programação de fornecimentos e gerando disputas comerciais complexas entre produtores e compradores.

Segundo informações divulgadas pela publicação especializada Platts, do grupo S&P Global Commodity Insights, os exportadores do Médio Oriente poderão enfrentar um longo período de renegociação de contratos, reprogramação de cargas e resolução de litígios relacionados com incumprimentos causados pela interrupção do tráfego marítimo no Estreito de Ormuz.

A situação assume particular relevância porque esta passagem marítima continua a ser uma das mais estratégicas para o comércio energético global, servindo de corredor para cerca de 20% da oferta mundial de LNG.

Mercado Acumula Défice De Milhões De Toneladas

Os números revelam a dimensão do problema.

Dados da consultora S&P Global CERA, citados pela Platts, indicam que as perdas de fornecimento provenientes do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos têm rondado cerca de 90 cargas por mês desde o início do conflito, correspondendo a aproximadamente 6,4 a 8,2 milhões de toneladas mensais de LNG não entregues.

Até 21 de Maio, as perdas acumuladas eram já estimadas em cerca de 20 milhões de toneladas.

Para se ter uma dimensão mais clara do impacto, cerca de 89 milhões de toneladas de LNG atravessaram o Estreito de Ormuz durante todo o ano de 2025.

Mesmo num cenário optimista de reabertura total do estreito já em Junho, a S&P Global CERA prevê perdas totais de 31 milhões de toneladas em 2026. Caso as perturbações se prolonguem até Julho, as perdas poderão atingir 42 milhões de toneladas relativamente às projecções anteriores ao conflito.

Qatar Continua No Centro Da Crise

O Qatar permanece no epicentro da actual perturbação do mercado.

Segundo a Platts, a QatarEnergy declarou força maior nos fornecimentos de LNG destinados a clientes afectados logo a 4 de Março, após ter suspendido operações na sua principal instalação de exportação dois dias antes.

A situação agravou-se quando duas unidades de liquefacção sofreram danos significativos, sendo que avaliações técnicas anteriores apontavam para a possibilidade de serem necessários vários anos para a sua reconstrução.

O impacto vai muito além da simples interrupção física da produção.

O Qatar é actualmente um dos maiores exportadores mundiais de LNG e desempenha um papel central no abastecimento energético de mercados estratégicos na Ásia e na Europa.

Litígios Contratuais Podem Marcar O Pós-Crise

Para os especialistas jurídicos consultados pela Platts, a fase mais complexa poderá começar precisamente quando as exportações forem retomadas.

Max Rockall, sócio da firma internacional Squire Patton Boggs, explica que uma das principais questões será determinar se os produtores deverão priorizar os volumes contratuais normais ou as cargas adiadas durante o período de interrupção.

Segundo o especialista, existe uma acumulação de obrigações por resolver, incluindo reclamações de força maior, pedidos de compensação, reprogramação de entregas e potenciais disputas comerciais entre fornecedores e compradores.

A situação poderá afectar os programas anuais de fornecimento muito para além da actual crise, com reflexos já previstos para 2027.

Sagar Gupta, também da Squire Patton Boggs, considera que as entregas não realizadas continuarão a afectar os volumes contratuais e a programação futura das cargas, evidenciando a dimensão do desafio que o sector enfrentará quando as operações forem retomadas.

Crise Deverá Alterar Contratos Futuros De LNG

A actual crise está igualmente a provocar mudanças profundas na forma como os contratos internacionais de LNG são redigidos.

Segundo Patricia Tiller, sócia da Bracewell LLP no Dubai, os futuros contratos de compra e venda poderão deixar de considerar o encerramento do Estreito de Ormuz como um evento de força maior, uma vez que este passou a constituir um risco conhecido e previsível para o mercado.

A observação sugere uma mudança importante na percepção de risco dos mercados energéticos globais.

Humzah Yazdani, especialista em direito energético e investigador do Tulane Energy Law and Policy Center, citado pela Platts, estabelece um paralelo com a evolução dos contratos após a pandemia da COVID-19. Segundo explica, a crise actual deverá conduzir a cláusulas mais detalhadas e específicas relativamente ao encerramento de corredores marítimos estratégicos e interrupções nas cadeias globais de abastecimento.

Consequências Para Os Grandes Importadores

As implicações poderão ser particularmente relevantes para os principais mercados consumidores da Ásia.

A referência asiática JKM, utilizada para contratos de LNG entregues no Nordeste Asiático, encontrava-se recentemente em 18,121 dólares por milhão de unidades térmicas britânicas (MMBtu), permanecendo cerca de 70% acima dos níveis observados antes do início do conflito.

A manutenção de preços elevados poderá afectar os custos energéticos de economias fortemente dependentes das importações de gás, incluindo Japão, Coreia do Sul, China e Índia.

Mais do que uma crise conjuntural, o encerramento prolongado do Estreito de Ormuz está a revelar vulnerabilidades estruturais do comércio energético global, obrigando produtores, compradores e financiadores a reavaliar riscos que, durante décadas, foram considerados remotos.

Fonte: O Económico

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