InícioRevistaInternacionalEscócia-Brasil, 0-3 (crónica)

Escócia-Brasil, 0-3 (crónica)

Resumo

A teoria sugere que a vitória do Brasil no Mundial 94, com jogadores como Romário e Bebeto, marcou o declínio do futebol brasileiro, substituindo o jogo bonito por uma abordagem mais física. Apesar disso, a entrada de Neymar no jogo recente foi aclamada como uma lembrança do Brasil antigo, apesar da equipa atual não encantar tanto. Com a liderança do grupo garantida e a equipa a melhorar, os adeptos brasileiros voltam a sonhar com o título. A vitória recente, liderada por Vinicius Jr., destaca a transição rápida como uma arma eficaz, com a influência de Carlo Ancelotti neste estilo de jogo.

Há uma teoria, que não é minha, de que o Mundial 94 - curiosamente também jogado aqui nos Estados Unidos - matou o futebol brasileiro.

A seleção de Carlos Alberto Parreira, recorde-se, venceu esse Campeonato do Mundo, nos penáltis (foi a primeira final decidida da marca de onze metros), com uma equipa que tinha Romário e Bebeto. O resto, diz a teoria, era um grupo de pernas grossas: Mauro Silva, Mazinho, Dunga, Aldaír, Branco, enfim.

Jogadores duros, rigorosos e fortes.

Desde então, e mesmo no Mundial 2022, com aquele tridente mágico formado por Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho, o Brasil nunca mais foi aquele Brasil de antigamente.

Talvez por isso, o Hard Rock Stadium levantou-se num salto, esta noite, para aplaudir a entrada de Neymar. Mesmo inferiorizado, mesmo com um joelho destruído, o craque ainda representa para esta gente uma recordação feliz do Brasil de antigamente.

Ora por isso ele entrou a vinte minutos do fim, o estádio celebrou como se fosse um golo e os olhos ficaram todos colocados em cima dele. No fundo, mudou tudo... menos o jogo.

O resultado já estava, nessa altura, num 3-0 e não se mexeu nem mais um milímetro. O que foi a outra boa notícia da noite para o Brasil.

É que, para os adeptos canarinhos, o otimismo não é um estado de espírito; é uma condição clínica. Por isso, com o primeiro lugar do grupo assegurado e a equipa a mostrar que está a subir relativamente de forma, o sonho volta a parecer possível e enche as discussões em todos os cafés, do Rio de Janeiro a São Paulo.

Será um exagero? Honestamente, parece que sim. Mas é preferível não dizermos nada. Um brasileiro otimista é um bom malandro, um zé carioca. Um brasileiro verdadeiro.

Vamos ser honestos, porém: este Brasil não encanta. Quem ligou a televisão à espera do mítico jogo bonito, de calcanhares desnecessários, tabelinhas mágicas e uma posse de bola hipnótica, deve ter achado que estava a ver o canal errado. Este é um Brasil diferente.

É um Brasil que olha para a posse de bola do adversário e não a inveja. Não tem vergonha em recuar as linhar, em fazer uma pressão média/baixa e em recorrer às transições rápidas.

Por isso lá está, é melhor não dizer nada, embora se possa lembrar que esta vitória se escreveu com seis letras e um espaço no meio. Vini Jr. Foi quem carregou a equipa às costas. Marcou dois golos, teve mais um anulado e pelo menos mais duas grandes oportunidades. Pela terceira jornada seguida, fez golos e foi eleito o melhor em campo.

Assim é mais fácil sorrir.

E que, quando o adversário pestaneja... zás: surge a lei da transição rápida e Vinicius Jr. a fazer a diferença.

A impressão digital disto tudo tem um nome e uma sobrancelha levantada, claro: Carlo Ancelotti. O italiano herdou este tipo de jogo de José Mourinho, nos tempos do Real Madrid - aquela máquina trituradora dos contra-ataques de dez segundos -, e descobriu aí o pote de ouro.

É certo que temos Vinicius Jr. a espalhar o pânico nas defesas contrárias, e até Matheus Cunha a dar o litro na frente, mas convém manter os pés na terra. Este Brasil, pragmático, cínico e calculista, fica a anos-luz da poesia futebolística que o país já produziu no passado. Não há magia constante, há eficácia cirúrgica.

No fim do dia, recorde-se, o futebol é feito de bolas na rede. E enquanto Vini Jr. continuar a correr mais rápido que a própria sombra e Ancelotti replicar a sua receita de sucesso, o Brasil vai crescendo e avançando. Mesmo com uns sustos pelo meio, e a Escócia criou duas ou três ocasiões de golo que só Alisson evitou que terminassem pior, este Brasil continua a sorrir.

Pode não ser o futebol de encantar de outros tempos, mas ganha jogos. E para o adepto brasileiro, já com o pandeiro na mão, isso é mais do que suficiente para começar a festa.

Vini, Vini, Vini. Este jogou só deu Vini Jr, que foi, mais uma vez, o dono absoluto do relvado. Bisou na partida - faturando assim pelo terceiro jogo -, levou o prémio de melhor em campo para casa com a naturalidade de quem vai comprar pão e provou que é o verdadeiro abono de família desta seleção. É, no fundo, o bilhete dourado de uma equipa que, verdade seja dita, trocou o samba no pé pela corrida de 100 metros barreiras.

Jogou pouco mais de vinte minutos, mas foi o suficiente para incendiar as bancadas de cima abaixo. Este público, e não é só o brasileiro, tem fome de ver Neymar jogar, naquele que também é o último Mundial dele. No tempo em campo, bateu as bolas paradas todas, atirou para defesa de Agnus Gunn e colocou duas vezes Vinicius Jr. em boa posição para marcar. Nada mal, e talvez por isso acabou o jogo emocionado.

 

Fonte: TVI

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