Resumo
A crítica do professor pan-africanista PLO Lumumba levanta preocupações sobre a falta de ação dos governos africanos perante a violência e discriminação contra imigrantes na África do Sul, questionando a união do continente. A xenofobia contra africanos de outras nacionalidades na África do Sul revela desigualdades internas e contraria valores como o Ubuntu. A necessidade de respostas diplomáticas e políticas internas para proteger os cidadãos africanos no estrangeiro e promover a inclusão é destacada, desafiando a ideia de integração continental da União Africana. A crítica de Lumumba alerta para a importância de reavaliar que tipo de África se pretende construir, se baseada em solidariedade ou divisões.
Durante décadas, a ideia de uma África unida foi apresentada como um dos grandes sonhos do continente. A luta contra o colonialismo e contra o regime do Apartheid criou uma memória colectiva baseada na solidariedade entre povos africanos, onde países vizinhos apoiaram movimentos de libertação e acolheram milhares de pessoas perseguidas por defenderem a liberdade. No entanto, os acontecimentos recentes envolvendo o tratamento dado a imigrantes africanos na África do Sul colocam em causa esse ideal de união.
O professor pan-africanista PLO Lumumba levantou recentemente uma forte crítica contra a postura dos governos africanos diante de episódios de violência e discriminação contra cidadãos de outros países africanos na África do Sul. Para o académico, o silêncio das lideranças do continente perante situações de humilhação e desumanização representa uma ameaça aos princípios de cooperação e respeito entre os povos africanos.
A posição defendida por Lumumba, que sugere uma resposta diplomática mais firme, incluindo a convocação de embaixadores para consultas, abre um debate importante sobre o papel dos Estados africanos na defesa dos seus cidadãos. Afinal, se existe uma ideia de integração continental, ela não pode funcionar apenas em discursos ou documentos oficiais, mas deve ser demonstrada em momentos de crise.
A África do Sul tem registado, ao longo dos anos, episódios de violência contra imigrantes provenientes de países como Moçambique, Nigéria e Zimbabué. Muitas dessas agressões são associadas a sentimentos de xenofobia, disputas económicas e percepções de que estrangeiros retiram oportunidades dos cidadãos sul-africanos. Porém, transformar dificuldades sociais em ataques contra outros africanos revela um problema mais profundo: a falta de respostas eficazes para combater desigualdades internas.
Neste contexto, existe também uma questão histórica que não pode ser ignorada. Durante a luta contra o Apartheid, vários países africanos ofereceram apoio ao Congresso Nacional Africano (CNA), acolheram activistas e ajudaram na resistência contra um sistema de segregação racial. Por isso, muitos consideram que a violência contra africanos de outras nacionalidades representa uma ruptura com essa história de solidariedade.
Além disso, os episódios de xenofobia entram em contradição com valores defendidos pela própria sociedade sul-africana, como o princípio do Ubuntu, que transmite a ideia de que a humanidade de cada pessoa está ligada à humanidade dos outros. Quando um africano é tratado como inimigo apenas por ter outra nacionalidade, esse princípio perde força na prática.
Assim sendo, a resposta ao problema deve envolver tanto medidas diplomáticas como políticas internas de inclusão e desenvolvimento. Os países africanos precisam encontrar formas de proteger os seus cidadãos no estrangeiro, mas também devem trabalhar para que as populações não vejam outros africanos como concorrentes ou ameaças.
A União Africana tem defendido maior integração económica e circulação entre os povos do continente, mas esses objectivos ficam enfraquecidos quando cidadãos africanos são vítimas de perseguição dentro de África.
A crítica de PLO Lumumba deve, portanto, ser vista como um alerta para uma reflexão mais ampla: que África queremos construir? Uma África onde as fronteiras continuam a dividir povos ou um continente onde a solidariedade, que marcou tantas lutas históricas, volta a ser colocada em prática?


