Resumo
O acesso global à energia moderna e limpa continua a ser um desafio, com 665 milhões de pessoas sem eletricidade e 2 mil milhões dependendo de combustíveis poluentes para cozinhar, afetando a saúde e a qualidade de vida. Um relatório conjunto de várias organizações destaca a desaceleração do progresso global, com profundas desigualdades entre regiões. A África Subsaariana é a mais afetada, com mais de 560 milhões sem eletricidade e 970 milhões sem acesso a soluções de cozinha limpa, impactando áreas como saúde, educação e atividade económica. Para alcançar o acesso universal até 2030, o ritmo de eletrificação na região precisa triplicar, especialmente nas zonas rurais e de difícil acesso. A falta de acesso a soluções de cozinha limpa também é destacada como uma emergência de saúde pública, afetando cerca de 2 mil milhões de pessoas.
Os dados constam de um relatório conjunto da Agência Internacional de Energia, Agência Internacional de Energias Renováveis, Banco Mundial e Organização Mundial da Saúde, que alerta para o abrandamento do progresso global e para a persistência de desigualdades profundas entre regiões.
O acesso mundial à electricidade manteve-se em 92%, mas o ritmo anual de expansão reduziu-se para cerca de metade do verificado na década anterior. A tendência revela que, embora milhões de pessoas tenham sido ligadas à rede ou tenham passado a beneficiar de soluções descentralizadas, a velocidade do progresso continua insuficiente para alcançar as comunidades mais remotas, pobres e vulneráveis.
África Subsaariana Continua No Centro Do Défice Energético
A África Subsaariana concentra a maior parte do desafio mundial. Mais de 560 milhões de pessoas na região permanecem sem electricidade, enquanto cerca de 970 milhões não têm acesso a soluções de cozinha limpa.
A dimensão destes números confirma que o problema energético africano não se limita à falta de geração eléctrica. Trata-se de uma limitação estrutural com impactos em cadeia sobre a educação, a saúde, a actividade económica, a produtividade agrícola, a segurança alimentar e a inclusão financeira.
Sem energia fiável, pequenas empresas operam com custos mais elevados, unidades de saúde enfrentam dificuldades para conservar medicamentos e assegurar serviços básicos, escolas têm menor capacidade de utilizar ferramentas digitais e famílias continuam dependentes de fontes de energia com riscos para a saúde e para o ambiente.
O relatório sublinha que, embora a maioria das regiões esteja progressivamente mais próxima do acesso universal, a África Subsaariana registou um abrandamento significativo. Para cumprir a meta até 2030, o ritmo de electrificação na região terá de ser triplicado.
A exigência é particularmente relevante porque a população sem acesso à electricidade está, cada vez mais, concentrada em zonas rurais, áreas de difícil acesso, comunidades afectadas por conflitos e territórios onde a expansão convencional da rede nacional é mais cara e demorada.
Cozinha Limpa Continua A Ser Uma Emergência De Saúde Pública
A falta de acesso à electricidade é acompanhada por outro défice igualmente grave: a ausência de soluções de cozinha limpa.
Cerca de dois mil milhões de pessoas continuam a utilizar lenha, carvão, querosene e outras tecnologias poluentes para preparar refeições. Esta realidade expõe famílias — sobretudo mulheres e crianças — à poluição dentro das habitações, com consequências para a saúde respiratória, cardiovascular e para o bem-estar geral.
Para além dos riscos sanitários, a dependência de combustíveis tradicionais consome tempo e rendimento das famílias, incentiva a pressão sobre recursos florestais e limita a capacidade de mulheres e jovens se dedicarem à educação, ao empreendedorismo e a outras actividades produtivas.
A electrificação, por isso, não deve ser analisada apenas como uma questão de ligação à rede. O acesso universal à energia implica também assegurar serviços que permitam cozinhar em segurança, conservar alimentos, estudar à noite, utilizar equipamentos produtivos e melhorar as condições de vida das comunidades.
Renováveis Crescem, Mas O Financiamento Continua Desigual
O relatório reconhece que as energias renováveis continuam a expandir-se de forma robusta, representando já mais de 30% do consumo mundial de electricidade. A expansão da energia solar, eólica, hídrica e de outras fontes limpas abre oportunidades importantes para acelerar o acesso em áreas onde a extensão das redes tradicionais permanece economicamente difícil.
Mini-redes, sistemas solares domésticos, soluções híbridas e sistemas de armazenamento podem desempenhar um papel decisivo na ligação de comunidades rurais e dispersas. Em muitos casos, estas alternativas permitem levar electricidade a locais onde a construção de grandes linhas de transmissão exigiria investimentos elevados e longos períodos de execução.
Contudo, o avanço tecnológico não está a ser acompanhado por uma distribuição equilibrada dos recursos financeiros.
Os fluxos públicos internacionais destinados à energia limpa nos países em desenvolvimento aumentaram ligeiramente, atingindo 24,6 mil milhões de dólares. Ainda assim, os países menos desenvolvidos registaram uma redução de 11% no financiamento recebido face a 2023.
A contradição é evidente: os países e comunidades com maiores necessidades de electrificação são, muitas vezes, aqueles que enfrentam maior dificuldade em mobilizar capital, atrair investidores e financiar soluções adaptadas às suas realidades.
Acessibilidade É Tão Importante Quanto A Infra-Estrutura
Mesmo quando a electricidade está fisicamente disponível, milhões de famílias continuam excluídas por não conseguirem suportar os custos de ligação, instalação eléctrica, aquisição de equipamentos ou pagamento regular do serviço.
A acessibilidade económica tornou-se, assim, uma dimensão central da agenda de acesso universal. Não basta construir linhas, instalar postes ou disponibilizar sistemas solares. É necessário garantir que os serviços sejam compatíveis com o rendimento das famílias e com a capacidade de pagamento de pequenos negócios, escolas, centros de saúde e produtores rurais.
O relatório defende a adopção de mecanismos de financiamento que reduzam os custos iniciais de ligação e permitam que comunidades de menor rendimento tenham acesso a soluções energéticas de qualidade.
Isto pode incluir financiamento concessionado, subsídios direccionados, modelos de pagamento faseado, garantias públicas, fundos de risco e incentivos capazes de atrair o sector privado para zonas onde os retornos financeiros são mais baixos, mas o impacto social é elevado.
ODS 7 Entra Na Sua Fase Mais Decisiva
Com menos de cinco anos até 2030, a meta do Objectivo de Desenvolvimento Sustentável 7 entra numa fase crítica.
O desafio já não é apenas demonstrar que existem tecnologias capazes de levar energia a comunidades sem acesso. Essas soluções existem e têm vindo a tornar-se mais competitivas. A questão central é mobilizar financiamento, reforçar a coordenação entre governos, reguladores, empresas e parceiros de desenvolvimento e concentrar esforços nos países e populações que correm maior risco de ficar para trás.
A expansão das energias renováveis representa uma oportunidade histórica. Mas, sem políticas orientadas para a inclusão, mecanismos de financiamento adequados e uma visão de electrificação centrada nas necessidades das comunidades, a transição energética poderá avançar sem resolver o principal problema: a persistência de centenas de milhões de pessoas sem acesso aos serviços básicos que a energia torna possíveis.
O acesso universal à electricidade e à cozinha limpa não é apenas uma meta ambiental. É uma condição para reduzir desigualdades, melhorar a saúde pública, ampliar oportunidades económicas e transformar o desenvolvimento em benefício concreto para as populações mais vulneráveis.
Fonte: O Económico






