Resumo
O alfabeto latino e outros sistemas de escrita evoluíram ao longo dos séculos através de cópias de símbolos antigos, exceto o coreano Hangul, criado em 1443 por Sejong, o Grande, com cada letra representando a posição da boca ao produzir o som correspondente. As consoantes refletem diagramas da língua e dos lábios, enquanto as vogais seguem uma lógica cosmológica confucionista. Sejong pretendia um sistema simples para aumentar a alfabetização, desafiando a hierarquia social baseada no controlo do saber pela nobreza. Apesar da resistência inicial, o Hangul tornou-se oficial no final do século XIX, resistindo à ocupação japonesa e sendo hoje um símbolo de identidade nacional na Coreia do Sul, com um manual original reaparecido em 1940 e reconhecido pela UNESCO.
O coreano foi desenhado em 1443 por um rei, Sejong, o Grande, e o documento que justifica cada traço sobreviveu 583 anos e ainda hoje se lê.
Entretanto as letras são, literalmente, desenhos da tua boca
Esta é a parte que arrepia. As consoantes do Hangul não são símbolos inventados ao calhas: são diagramas da posição da língua e dos lábios no momento exato em que fazes o som.
O ㄱ (som de “g/k”) tem a forma da raiz da língua a bloquear o fundo da garganta. O ㄴ (som de “n”) desenha a ponta da língua a tocar por trás dos dentes de cima. O ㅁ (som de “m”) é um quadrado, os lábios fechados. O ㅅ (som de “s”) imita um dente. E o ㅇ é um círculo: a garganta aberta. As restantes consoantes nascem destas cinco, com traços extra a marcar mais sopro ou força.
As vogais seguem outra lógica, vinda da cosmologia confucionista: um ponto (o Céu), uma linha horizontal (a Terra) e uma linha vertical (o Homem, de pé). Todas as outras vogais são combinações destes três elementos. Os linguistas têm um nome para isto, escrita featural, e nenhum outro alfabeto em uso o faz de forma tão completa.
A motivação de Sejong era, para o século XV, quase revolucionária. Assim os coreanos escreviam com caracteres chineses (Hanja), que não encaixavam nada na fonética da língua coreana e exigiam anos de estudo. Resultado: só 3 a 5% da população, a nobreza masculina, sabia ler. Camponeses, mulheres, artesãos: todos de fora do mundo escrito.
O objetivo declarado do rei era um sistema tão simples que, nas suas palavras, “um sábio o aprende numa manhã e até um tolo o aprende em dez dias”. E conseguiu.
É aqui que a história azeda. Já em 1444, o erudito Choe Manri entregou um protesto formal ao rei: dar escrita ao povo era barbárie e ameaçava a hierarquia social, que dependia de a nobreza controlar o saber. E, no fundo, tinha razão, era exatamente isso que o Hangul fazia.
A aristocracia continuou a usar Hanja durante 450 anos. O Hangul ficou remetido para as mulheres (chamavam-lhe “amgeul”, “escrita de mulheres”, com desprezo), para monges e romancistas populares. Só se tornou escrita oficial entre o fim do século XIX e o início do XX e, ironia das ironias, foi a ocupação japonesa (1910-1945) que o transformou em símbolo de identidade nacional contra a assimilação.
Entretanto o manual original, perdido durante séculos, só reapareceu em 1940, na cidade de Andong. Hoje é Tesouro Nacional da Coreia do Sul e está na lista Memória do Mundo da UNESCO desde 1997. A literacia nas duas Coreias passa dos 99%. Seis séculos depois, o alfabeto de Sejong faz exatamente aquilo para que foi desenhado.
Fonte: Zero Zero


