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Há um alfabeto em que as letras imitam a posição da tua língua e dos teus lábios

Resumo

O alfabeto latino e outros sistemas de escrita evoluíram ao longo dos séculos através de cópias de símbolos antigos, exceto o coreano Hangul, criado em 1443 por Sejong, o Grande, com cada letra representando a posição da boca ao produzir o som correspondente. As consoantes refletem diagramas da língua e dos lábios, enquanto as vogais seguem uma lógica cosmológica confucionista. Sejong pretendia um sistema simples para aumentar a alfabetização, desafiando a hierarquia social baseada no controlo do saber pela nobreza. Apesar da resistência inicial, o Hangul tornou-se oficial no final do século XIX, resistindo à ocupação japonesa e sendo hoje um símbolo de identidade nacional na Coreia do Sul, com um manual original reaparecido em 1940 e reconhecido pela UNESCO.

Pensa um segundo: ninguém faz a mínima ideia de quem inventou a letra A. Nem o B, nem o C. O nosso alfabeto latino foi-se formando ao longo de séculos, copiado dos etruscos, que copiaram dos gregos, que copiaram dos fenícios… uma cadeia de cópias anónimas com milhares de anos em cima. O mesmo vale para o chinês, o árabe ou o devanagari indiano. Em todos, as letras são o resultado mais ou menos acidental de gerações a deformar símbolos antigos. O coreano é a grande exceção. O Hangul é o único sistema de escrita de uma grande língua moderna com inventor conhecido, data certa e um manual a explicar porque é que cada letra tem aquela forma. Mas o que esconde este alfabeto?

O coreano foi desenhado em 1443 por um rei, Sejong, o Grande, e o documento que justifica cada traço sobreviveu 583 anos e ainda hoje se lê.

Entretanto as letras são, literalmente, desenhos da tua boca

Esta é a parte que arrepia. As consoantes do Hangul não são símbolos inventados ao calhas: são diagramas da posição da língua e dos lábios no momento exato em que fazes o som.

O ㄱ (som de “g/k”) tem a forma da raiz da língua a bloquear o fundo da garganta. O ㄴ (som de “n”) desenha a ponta da língua a tocar por trás dos dentes de cima. O ㅁ (som de “m”) é um quadrado, os lábios fechados. O ㅅ (som de “s”) imita um dente. E o ㅇ é um círculo: a garganta aberta. As restantes consoantes nascem destas cinco, com traços extra a marcar mais sopro ou força.

As vogais seguem outra lógica, vinda da cosmologia confucionista: um ponto (o Céu), uma linha horizontal (a Terra) e uma linha vertical (o Homem, de pé). Todas as outras vogais são combinações destes três elementos. Os linguistas têm um nome para isto, escrita featural,  e nenhum outro alfabeto em uso o faz de forma tão completa.

A motivação de Sejong era, para o século XV, quase revolucionária. Assim os coreanos escreviam com caracteres chineses (Hanja), que não encaixavam nada na fonética da língua coreana e exigiam anos de estudo. Resultado: só 3 a 5% da população, a nobreza masculina, sabia ler. Camponeses, mulheres, artesãos: todos de fora do mundo escrito.

O objetivo declarado do rei era um sistema tão simples que, nas suas palavras, “um sábio o aprende numa manhã e até um tolo o aprende em dez dias”. E conseguiu.

É aqui que a história azeda. Já em 1444, o erudito Choe Manri entregou um protesto formal ao rei: dar escrita ao povo era barbárie e ameaçava a hierarquia social, que dependia de a nobreza controlar o saber. E, no fundo, tinha razão, era exatamente isso que o Hangul fazia.

A aristocracia continuou a usar Hanja durante 450 anos. O Hangul ficou remetido para as mulheres (chamavam-lhe “amgeul”, “escrita de mulheres”, com desprezo), para monges e romancistas populares. Só se tornou escrita oficial entre o fim do século XIX e o início do XX e, ironia das ironias, foi a ocupação japonesa (1910-1945) que o transformou em símbolo de identidade nacional contra a assimilação.

Entretanto o manual original, perdido durante séculos, só reapareceu em 1940, na cidade de Andong. Hoje é Tesouro Nacional da Coreia do Sul e está na lista Memória do Mundo da UNESCO desde 1997. A literacia nas duas Coreias passa dos 99%. Seis séculos depois, o alfabeto de Sejong faz exatamente aquilo para que foi desenhado.

 

Fonte: Zero Zero

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