InícioRevistaSociedadeRessano Garcia: Medo da xenofobia acelerou regressos nas últimas 24 horas

Ressano Garcia: Medo da xenofobia acelerou regressos nas últimas 24 horas

Maputo, 30 de Junho (AIM) – O medo da violência xenófoba e a incerteza em torno da permanência de estrangeiros em situação irregular na África do Sul continuam a empurrar centenas de moçambicanos para o regresso ao país.

No posto fronteiriço de Ressano Garcia, o movimento de entrada de cidadãos nacionais mantém-se elevado, numa altura em que hoje decorrem manifestações anti-imigração em várias cidades sul-africanas, aumentando o receio de novos ataques contra comunidades estrangeiras.

Muitos dos que regressam afirmam ter abandonado as suas casas, empregos e bens por recearem que os protestos degenerem em actos de violência, como aconteceu em anteriores vagas de xenofobia.

Os receios intensificaram-se com o prazo apontado por movimentos anti-imigração para a permanência de estrangeiros em situação irregular no país, fixado para hoje, 30 de Junho, data que coincide com as manifestações convocadas.

Dados recolhidos pela AIM junto de fontes da Direcção Provincial de Migração de Maputo junto da fronteira, indicam que, nas últimas 24 horas, o posto fronteiriço de Ressano Garcia registou mais de seis mil movimentos migratórios.

Só no dia 29 de Junho entraram em Moçambique 3.439 pessoas, das quais 3.205 são cidadãos moçambicanos e 234 estrangeiros.

A reportagem da AIM constatou, ao longo da manhã desta terça-feira, um fluxo contínuo, mas ordeiro, de moçambicanos provenientes da vizinha África do Sul, muitos transportando apenas pequenas bagagens e histórias marcadas pela incerteza.

Nas primeiras horas de hoje, pelo menos 24 cidadãos moçambicanos regressaram ao país através de vias clandestinas, por não possuírem passaporte ou outro documento de viagem válido.

No âmbito da fiscalização migratória, as autoridades deportaram igualmente 210 cidadãos por imigração ilegal, dos quais 187 homens e 23 mulheres, com idades entre os quatro e os 50 anos.

Na segunda-feira foram ainda deportados 61 cidadãos malawianos para o seu país de origem.

Entre os regressados está Armando Macuácua, trabalhador residente em Joanesburgo, que decidiu antecipar a viagem de regresso para evitar ser surpreendido pela violência.

“Viemos porque ouvimos falar das manifestações e do clima de tensão. Preferimos regressar enquanto ainda é possível viajar em segurança”, contou.

A história de Virgínia Mondlane retrata o drama vivido por muitas famílias. Depois de 22 anos na África do Sul, viu-se obrigada a abandonar praticamente tudo para proteger a família.

“Saí apenas com a minha família. Deixámos a casa e os nossos bens porque a situação já não nos dava segurança”, lamentou.

A cidadã apelou directamente ao Presidente da República, Daniel Chapo, para intensificar o diálogo com o Governo sul-africano, de forma a encontrar soluções para a regularização documental dos moçambicanos que vivem e trabalham naquele país.

Virgínia manifestou igualmente preocupação com o impacto económico e social do regresso de milhares de trabalhadores.

“Se todos regressarem sem emprego, isso pode criar outros problemas sociais. Precisamos de uma solução”, vincou.

A situação obrigou também os seus filhos a interromperem os estudos na África do Sul para regressarem a Moçambique.

Outra cidadã, proveniente da Cidade do Cabo, afirmou que, embora ainda não tivesse presenciado episódios de violência naquela cidade, preferiu regressar antes que a situação se agravasse.

Refira-se que, com vista a assegurar um regresso digno dos cidadãos moçambicanos afectados pela vaga de xenofobia na África do Sul, a Ministra dos Negócios Estrangeiros e Cooperação, Maria Manuela Lucas, garantiu que o Governo moçambicano mantém contactos permanentes com as autoridades sul-africanas para criar condições que permitam aos compatriotas regressarem ao país com todos os seus bens e pertences tendo em conta os longos anos que muitos deles viveram e trabalharam naquele país.

Os protestos que decorrem hoje em diferentes pontos da África do Sul são promovidos por movimentos que defendem a expulsão de estrangeiros em situação irregular, alegando que estes contribuem para o desemprego, o aumento da criminalidade e a pressão sobre os serviços públicos.

Enquanto as manifestações decorrem, em Ressano Garcia continuam a chegar famílias que apenas procuram um lugar seguro. Muitas deixam para trás anos de trabalho, os seus bens e o sonho de uma vida melhor, regressando a Moçambique apenas com a esperança de reencontrar a paz.

(AIM)
SNN/pc

 

Fonte: aimnews

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