InícioRevistaSociedadeMOÇAMBIQUE EM ALERTA FACE À PREVISÃO DE UM FORTE FENÓMENO EL NIÑO

MOÇAMBIQUE EM ALERTA FACE À PREVISÃO DE UM FORTE FENÓMENO EL NIÑO

Por: Gentil Abel

Moçambique voltará a enfrentar um dos maiores desafios impostos pela natureza. Depois das cheias que marcaram o início deste ano e deixaram um rasto de destruição em várias regiões do país, as autoridades alertam agora para um novo fenómeno climático que poderá agravar ainda mais a situação. Entre Outubro de 2026 e Março de 2027, o fenómeno El Niño deverá afectar grande parte do território nacional, trazendo seca severa, temperaturas elevadas e impactos significativos na agricultura, na disponibilidade de água e na segurança alimentar.

Os avisos emitidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (INAM) e pelo Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) indicam uma elevada probabilidade de precipitação abaixo da média nas regiões Sul e Centro do país. Ao mesmo tempo, prevê-se a ocorrência de chuvas intensas no Norte, cenário que aumenta o risco de eventos climáticos extremos em diferentes pontos do território nacional.

A previsão surge numa altura particularmente delicada para Moçambique. O país ainda procura recuperar dos prejuízos causados pelas recentes cheias, que levaram o Governo a rever em baixa a previsão de crescimento económico para 2026, passando de 2,8% para apenas 0,59%.

As estimativas oficiais apontam para prejuízos avaliados em cerca de 112,5 mil milhões de meticais. Deste montante, cerca de 71,6 mil milhões de meticais correspondem a danos físicos, enquanto que 42,7 mil milhões de meticais representam perdas económicas.

Perante este cenário, a organização internacional ACAPS, especializada na análise de crises humanitárias, colocou Moçambique na lista mundial de países com maior risco de emergências humanitárias entre Julho de 2026 e Março de 2027. A avaliação considera que o actual fenómeno El Niño poderá ser um dos mais intensos desde 1950, mantendo grande parte da África Austral sob condições de seca prolongada.

Segundo as projecções meteorológicas, a época chuvosa deverá começar mais tarde do que o habitual, sobretudo entre Novembro e Dezembro. A redução das chuvas poderá comprometer as culturas de sequeiro, precisamente no período em que muitos agricultores iniciam a produção agrícola. Paralelamente, prevê-se que as temperaturas permaneçam acima da média até ao final do ano, agravando a escassez de água para o consumo humano, para a agricultura e para a pecuária.

As consequências poderão ser profundas. A redução das colheitas, sobretudo de milho, a diminuição das áreas de pastagem e a escassez de água para o gado poderão aumentar a insegurança alimentar e hídrica durante 2027. Numa economia onde milhares de famílias dependem directamente da agricultura de subsistência, qualquer falha na produção agrícola representa uma ameaça ao rendimento, à alimentação e à estabilidade social.

Este fenómeno demonstra, mais uma vez, que as alterações climáticas deixaram de ser um problema distante para se tornarem uma realidade com impacto directo na vida das comunidades. Sempre que ocorre uma seca prolongada ou uma inundação de grande dimensão, os sectores mais vulneráveis são os primeiros a sentir os efeitos. Agricultores perdem as suas colheitas, criadores de gado enfrentam dificuldades para alimentar os animais, famílias percorrem maiores distâncias em busca de água e os preços dos alimentos tendem a aumentar.

Face às previsões, o Governo decidiu activar o Plano de Acções Antecipadas através do Conselho Técnico de Gestão e Redução do Risco de Desastres. A iniciativa procura reduzir os impactos da seca nas províncias do Sul e Centro antes que a situação se agrave.

Ao mesmo tempo, foi aprovado um Plano Global de Recuperação e Reconstrução Pós-Cheias, orçado em aproximadamente 105 mil milhões de meticais. O programa pretende reconstruir infra-estruturas, recuperar os meios de subsistência das populações afectadas e reforçar a capacidade do país para responder a futuras catástrofes naturais.

Neste contexto, torna-se essencial reforçar os sistemas de armazenamento e gestão da água, investir em pequenas barragens e furos de abastecimento, promover culturas agrícolas mais resistentes à seca.

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