Questões-Chave
Do Potencial À Prosperidade
Moçambique voltou a ouvir, na Conferência Internacional sobre Desenvolvimento Inclusivo e Sustentável, uma mensagem que atravessa hoje todo o debate económico nacional: o País tem recursos, localização estratégica, juventude e oportunidades, mas só será verdadeiramente próspero se conseguir transformar esse potencial em capacidade produtiva, instituições fortes e desenvolvimento inclusivo.
A intervenção de Akinwumi Adesina, antigo presidente do Banco Africano de Desenvolvimento e actual presidente do Global Africa Investment Summit, foi construída em torno de uma ideia central: a prosperidade não se herda, constrói-se. No seu discurso, intitulado “Building Prosperity: Mozambique’s Journey from Potential to Sustainable Development”, Adesina afirmou que o futuro de Moçambique não será determinado apenas pelo que o País possui, mas pela capacidade de transformar recursos em indústrias, infra-estruturas em conectividade, investimento em emprego e crescimento económico em melhoria efectiva da qualidade de vida.
A leitura é particularmente relevante para Moçambique porque toca no centro do seu dilema de desenvolvimento. O País possui uma extensa costa sobre o Índico, portos estratégicos, gás natural, minerais críticos, terras agrícolas, potencial energético e uma população jovem. Mas a experiência nacional e internacional mostra que esses activos só geram prosperidade quando são convertidos em produtividade, empresas, competências, receitas públicas bem geridas e inclusão territorial.
Segundo a síntese da intervenção, Adesina defendeu que Moçambique deve transformar os seus recursos naturais em capacidade produtiva, através da criação de indústrias competitivas, desenvolvimento do capital humano e reforço das instituições, numa abordagem que procura deslocar o debate da mera posse de recursos para a construção de capacidades económicas.
A Diferença Entre Extrair E Transformar
O primeiro pilar proposto por Adesina é a construção de indústrias competitivas. Esta é talvez a dimensão mais crítica para Moçambique, numa altura em que o País procura redefinir a sua ambição económica em torno da transformação local de matérias-primas, conteúdo nacional e diversificação produtiva.
Para Adesina, os países não se desenvolvem simplesmente porque possuem recursos. Desenvolvem-se quando criam capacidade produtiva em torno desses recursos. No caso do gás natural, em particular, a questão estratégica não deve ser apenas quanto Moçambique pode produzir ou exportar, mas quanta capacidade económica pode construir a partir da energia: indústria, manufactura, transformação mineral, agricultura moderna, digitalização, logística e competitividade empresarial.
Esta distinção é decisiva. Exportar gás, grafite, areias pesadas, titânio ou produtos agrícolas em estado bruto pode gerar receitas e atrair investimento, mas não garante automaticamente transformação estrutural. O verdadeiro salto ocorre quando o País passa a processar, refinar, transformar, fabricar, prestar serviços especializados e integrar empresas nacionais em cadeias de valor regionais e globais.
A leitura de Adesina converge com diagnósticos recentes do Banco Mundial, que tem descrito Moçambique como uma economia de “duas velocidades”, onde sectores extractivos e grandes indústrias impulsionam parte do crescimento, enquanto empresas não extractivas, pequenas e médias empresas e sectores intensivos em emprego enfrentam maiores dificuldades.
O desafio, portanto, não é apenas atrair megaprojectos. É garantir que os megaprojectos puxem pela economia real. Que criem procura por fornecedores nacionais. Que formem técnicos. Que gerem novas empresas. Que estimulem serviços industriais. Que financiem infra-estruturas úteis à produção. Que contribuam para uma base fiscal sustentável. E que não deixem o País preso a uma economia estatisticamente maior, mas socialmente pouco transformadora.
Agricultura Como Base Da Inclusão
Adesina colocou também a agricultura no centro da transformação económica. O argumento é simples: Moçambique tem terra, água, clima, população rural e potencial de produção, mas a prosperidade agrícola não nasce da terra disponível; nasce da produtividade. E produtividade exige irrigação, tecnologia, investigação, armazenamento, financiamento, estradas, extensão rural e ligação efectiva aos mercados.
Este ponto é essencial para uma economia onde a agricultura continua a ser o principal meio de subsistência de grande parte da população. O Banco Mundial, no estudo sobre políticas de apoio agrícola em Moçambique, observa que, apesar de a terra com potencial agrícola representar uma parcela significativa do território, a área efectivamente cultivada continua muito abaixo do potencial, o que reflecte limitações estruturais de produtividade, financiamento, tecnologia e acesso a mercados.
Transformar a agricultura de subsistência numa actividade empresarial competitiva exige muito mais do que aumentar produção. Exige cadeias de valor: produção, processamento, conservação, transporte, comercialização, exportação e financiamento. Exige também capacidade de reduzir perdas pós-colheita, estabilizar rendimentos dos produtores, integrar agro-indústria e melhorar a segurança alimentar.
Neste sentido, a agricultura é simultaneamente uma agenda económica e social. É económica porque pode sustentar agro-indústria, exportações, emprego e substituição de importações. É social porque afecta directamente rendimentos rurais, pobreza, alimentação e inclusão territorial. E é estratégica porque permite que o desenvolvimento chegue a regiões que dificilmente beneficiarão, de forma imediata, dos grandes projectos extractivos.
Capital Humano Como Principal Activo Nacional
O segundo pilar de Adesina é o capital humano. No seu discurso, a maior riqueza de Moçambique não está apenas no subsolo, no mar ou nos corredores logísticos, mas no conhecimento, criatividade, energia e ambição da sua população. A juventude moçambicana pode ser uma vantagem económica, mas apenas se for acompanhada por educação de qualidade, saúde, competências digitais, formação técnico-profissional, empreendedorismo e oportunidades de emprego.
Este é um dos pontos mais fortes da intervenção. Moçambique não enfrenta apenas o desafio de criar empregos; enfrenta o desafio de preparar moçambicanos para liderar a economia do futuro. O gás exigirá engenheiros, técnicos, gestores, especialistas ambientais, juristas, contabilistas e fornecedores industriais. A agricultura moderna exigirá agrónomos, operadores de tecnologia, empreendedores rurais e gestores de cadeias de valor. A indústria transformadora exigirá técnicos qualificados, inovação e disciplina produtiva.
A nova estratégia do Banco Mundial para Moçambique, referente ao período 2026–2031, coloca precisamente a criação de crescimento inclusivo, resiliente e intensivo em emprego entre os seus eixos centrais, com foco na transformação económica, fortalecimento institucional e expansão de oportunidades para jovens e mulheres.
Por isso, a agenda do capital humano não deve ser tratada apenas como política social. É política industrial. É política de competitividade. É política de soberania económica. Sem pessoas qualificadas, Moçambique pode atrair capital, mas continuará dependente de conhecimento externo. Com pessoas qualificadas, pode negociar melhor, produzir mais, reter valor e construir empresas nacionais capazes de competir.
Conectividade Regional: De País De Trânsito A Plataforma Económica
O terceiro pilar é a conectividade regional. Adesina destacou a posição de Moçambique no Índico, a sua costa, os portos de Maputo, Beira e Nacala e os corredores de transporte como activos estratégicos que podem transformar o País numa plataforma económica para a África Austral. Mas sublinhou que geografia, por si só, não cria competitividade. A competitividade nasce da conectividade eficiente.
A afirmação é particularmente pertinente. Moçambique pode ser porta de entrada e saída para economias do hinterland regional, mas essa vantagem só se materializa se houver logística eficiente, alfândegas modernas, redes ferroviárias e rodoviárias fiáveis, previsibilidade regulatória, energia estável, digitalização e capacidade de prestar serviços competitivos.
A Zona de Comércio Livre Continental Africana reforça esta oportunidade. Segundo a União Africana, a AfCFTA procura acelerar o comércio intra-africano e fortalecer a posição do continente nas negociações globais, criando espaço para países com boa conectividade se afirmarem como plataformas de produção, comércio e serviços.
Neste quadro, Moçambique deve evitar uma ambição limitada a ser apenas corredor de passagem. A agenda deve ser mais elevada: transformar corredores em zonas económicas, portos em plataformas industriais, energia em base de manufactura, logística em serviço exportável e conectividade em inclusão económica. Uma estrada só é transformadora quando liga produtores a mercados. Um porto só é estratégico quando gera actividade económica para além do cais. Um corredor só cria desenvolvimento quando organiza produção, serviços e investimento ao longo do território.
Instituições Que Criam Confiança
O quarto pilar é a construção de instituições resilientes. Para Adesina, recursos, infra-estruturas e capital só criam valor duradouro quando são suportados por instituições capazes de gerar confiança entre cidadãos, empresas, investidores e parceiros de desenvolvimento. Isso exige administração pública eficiente, gestão responsável dos recursos, políticas previsíveis, regulação forte, transparência e capacidade de entrega.
Esta dimensão é central para Moçambique. O FMI, na sua avaliação de 2026, assinala que o País enfrenta um ambiente macroeconómico complexo, marcado por crescimento baixo, vulnerabilidades fiscais e de dívida, redução da ajuda externa, necessidades sociais elevadas, limitações de capacidade institucional e exposição frequente a desastres naturais.
A mensagem é clara: sem instituições fortes, o potencial económico pode transformar-se em frustração. O gás pode gerar receitas, mas também riscos de má gestão. Os investimentos podem criar oportunidades, mas também tensões se não forem bem regulados. A descentralização pode aproximar serviços dos cidadãos, mas só se houver capacidade técnica e financeira. A industrialização pode avançar, mas exige regras claras, justiça funcional, licenciamento previsível, transparência contratual e estabilidade regulatória.
A confiança institucional é, por isso, um activo económico. Países não atraem apenas capital por terem recursos. Atraem capital de qualidade quando oferecem previsibilidade, segurança jurídica, boa governação, transparência e capacidade de execução. E é essa confiança que permite transformar investimento em desenvolvimento.
Resiliência Climática Como Investimento Económico
Um dos pontos mais inovadores da intervenção foi a proposta de criação de um Fundo de Investimento Resiliente de Moçambique. Adesina argumentou que ciclones, cheias e secas não são apenas desafios ambientais; são choques económicos que danificam estradas, afectam colheitas, interrompem serviços, destroem activos e reduzem a confiança dos investidores.
A proposta faz sentido num país altamente exposto a eventos climáticos extremos. O Banco Africano de Desenvolvimento projecta uma recuperação gradual da economia moçambicana, mas também destaca riscos associados a choques climáticos, segurança e pressões externas, num contexto em que o crescimento deverá depender do sector extractivo, consumo privado e investimento.
A criação de um fundo de resiliência poderia mobilizar capital público e privado para proteger infra-estruturas críticas, apoiar agricultura climaticamente inteligente, reforçar preparação para desastres, reduzir perdas económicas e tornar o País mais atractivo para investimento sustentável. A ideia de fundo é que a resiliência não deve ser vista como custo adicional, mas como protecção do valor já criado e garantia da continuidade do desenvolvimento.
Para Moçambique, isto tem implicações práticas. Uma estrada construída sem resiliência climática pode ser destruída em poucos anos. Uma zona agrícola sem sistemas de irrigação e drenagem continuará vulnerável. Uma cidade sem ordenamento adequado continuará exposta a cheias. Uma economia que não antecipa riscos climáticos continuará a gastar mais em emergência do que em prevenção.
Parcerias Que Transformam, Não Apenas Financiamento Que Entra
O quinto pilar de Adesina é a construção de parcerias estratégicas. A sua leitura vai além da captação de investimento. A questão não é apenas quanto capital Moçambique consegue atrair, mas que tipo de investimento chega, com que estrutura, que impacto produz, que capacidades deixa e que valor acrescenta à economia nacional.
Esta distinção é essencial. Nem todo investimento é transformador. Há investimento que extrai valor e deixa poucos encadeamentos. Há investimento que cria ilhas de modernidade sem integrar a economia nacional. Mas há também investimento que transfere conhecimento, cria empresas locais, forma quadros, desenvolve fornecedores, abre mercados e aumenta produtividade.
Adesina defendeu que Moçambique deve ser visto não apenas como destino de investimento, mas como parceiro na criação de valor. Isso implica transformar prioridades nacionais em oportunidades bancáveis, com preparação técnica, estruturação financeira, avaliação de risco, governação clara e envolvimento de investidores de longo prazo.
A proposta dialoga directamente com o desafio actual do País: transformar activos soberanos, recursos naturais, portos, corredores, energia e futuras receitas em financiamento produtivo, sem comprometer soberania nem sustentabilidade fiscal. O objectivo não deve ser vender riqueza nacional, mas desbloquear o seu potencial produtivo.
A Prosperidade Será Medida Pelo Que Ficar No País
A mensagem de Adesina é simultaneamente optimista e exigente. Optimista, porque reconhece que Moçambique tem activos estratégicos raros: recursos energéticos, minerais críticos, agricultura, juventude, localização e relevância regional. Exigente, porque lembra que nenhuma dessas vantagens se transforma automaticamente em prosperidade.
O verdadeiro teste será medir o que fica no País depois dos investimentos. Quantos técnicos foram formados. Quantas empresas nacionais entraram nas cadeias de valor. Quantos agricultores passaram a vender melhor. Quantas indústrias surgiram. Quantos empregos qualificados foram criados. Quantas instituições se tornaram mais fortes. Quantas comunidades passaram a ter serviços, oportunidades e maior resiliência.
É por isso que a intervenção de Adesina tem particular relevância no actual momento nacional. Moçambique acaba de encerrar simbolicamente um ciclo de reflexão sobre os últimos 25 anos e inicia um novo ciclo ancorado na ENDE 2025–2044, no Programa Quinquenal do Governo 2025–2029 e numa ambição renovada de transformação económica. A pergunta central já não é se o País tem potencial. Essa resposta parece evidente. A pergunta decisiva é se conseguirá construir os sistemas, capacidades e escolhas que transformam potencial em desenvolvimento.
A frase que melhor resume a intervenção é simples: Moçambique não será definido apenas pelos recursos que possui, mas pelas oportunidades que cria a partir deles. E esse é talvez o maior desafio do próximo ciclo nacional: fazer com que a riqueza natural se transforme em riqueza produtiva, que o crescimento se converta em inclusão e que o investimento deixe como legado uma economia mais competitiva, resiliente e capaz de melhorar a vida dos moçambicanos.
Fonte: O Económico


