InícioRevistaInternacionalPorque sorri esta cabra?

Porque sorri esta cabra?

A cabra aproxima-se da escova como quem conhece o serviço.

Encosta primeiro a espádua, inclina o corpo, recua meio passo até encontrar o ponto exato e começa a roçar o dorso nas cerdas amarelas, depois levanta o focinho, estende o pescoço e deixa cair as pálpebras durante um instante. Não é um sorriso, não é bem. As cabras não sorriem como nós, mas há naquele abandono uma felicidade suficientemente visível para obrigar à pergunta que dá título a esta história:

porque sorri esta cabra?

À volta, cerca de 300 animais mastigam, repousam na palha ou aproximam os focinhos ao gradeamento e quase nenhum se ouve. E mais ao fundo, dois garranos, potros, atravessam o recinto aos relinchos, aceleram sem destino, travam e voltam a arrancar com a alegria descoordenada de quem ainda está a descobrir que serventia têm as pernas. As cabras acompanham-nos de olhos horizontais e não interrompem a sua digestão. Já devem saber que toda aquela juventude passa.

Há música no cabril, um piano algo lento, água a correr, chilreio de pássaros, vento suave, o tipo de música que os seres humanos inventaram para respirar melhor, dormir oito horas melhor e procurar o eu interior. As cabras não fazem perguntas metafísicas, mas ali ficam a ouvir.

O som sai de uma coluna que pertenceu ao carro do irmão de Marco Sousa, instalada no alto da parede e ligada a um sistema que ele apresenta com a satisfação modesta de quem resolveu um problema sem precisar de o transformar numa invenção propriamente dita. “Ele retirou-o do carro e eu aproveitei-o para lhe dar uma segunda oportunidade. Como é um subwoofer, tem bastante capacidade. Aqui funciona bem.” A coluna que talvez tenha feito estremecer os vidros de um automóvel dedica agora a velhice à paz de espírito de um rebanho minhoto, e nem todas as colunas têm a sorte de envelhecer assim.

Num canto, um computador mantém aberto o YouTube 24 horas por dia. No ecrã aparecem cascatas, flores, pedras molhadas, bambus e a promessa de várias horas de serenidade ininterrupta. A tecnologia que mantém milhões de pessoas acordadas de madrugada é usada em Melgaço para adormecer inquietações de cabra.

Só que a história que nos parece começar ali em cima, entre a música, a escova de cerdas e animais quase silenciosos, começa na verdade alguns metros abaixo, na entrada da Quinta do Moinho, no Lugar de Malhagrilos, em Prado, onde a paisagem não anuncia logo o rebanho. A estrada para lá sobe o suficiente para nos afastar o movimento da vila, ainda que sem chegar a abandonar Melgaço, e em Prado há casas espaçadas, árvores de copas altas, frondosas, a montanha ao fundo e vinhas de Alvarinho em redor a cercarem um edifício pequeno de metal e cimento. Algumas tubagens denunciam que o edifico é uma fábrica. Um letreiro confirma a queijaria. O conjunto é industrial mas com modéstia, como se não quisesse erguer-se contra a paisagem sem antes lhe pedir licença.

São duas da tarde num dia abafado de julho e não se ouve um balido. Não há cabras no pasto, cabeças por cima de uma vedação ou sequer aquele cheiro quente e acre, feito de palha, pelo e estrume, que costuma anunciar um rebanho antes de o vermos. Há apenas o calor imóvel, agarrado às folhas e agarrado às paredes, enquanto os animais se abrigam mais acima. A felicidade aqui parece ter horários, sobretudo no verão.

No interior da queijaria, Verónica Solheiro trabalha com duas funcionárias. A produção ocupou a manhã, a tarde pertence agora ao embalamento, às etiquetas, às caixas e às encomendas que dali partirão, em salas brancas e estreitas, construídas quando a empresa ainda cabia nelas. Um projeto de investimento de 150 mil euros previa ampliar a fábrica, duplicar a capacidade produtiva para cerca de 20 toneladas de leite e criar uma zona exterior para receber grupos e turistas, mas a pandemia e a instabilidade do mercado obrigaram a abandonar o plano em 2020.

Numa câmara, os queijos curam. Noutra, esperam já embalados, cobertos por círculos negros que anunciam as medalhas conquistadas nos World Cheese Awards, enquanto o frio trabalha continuamente e produz um rumor baixo, um ruído branco e uniforme. As caixas vão-se empilhando e, de tempos a tempos, a máquina manual de etiquetar responde com um clac seco. Antes de sair, cada queijo recebe nome, origem, validade e destino.

Outro clac.

O fabrico começara várias horas antes, quando ao leite foram acrescentados os fermentos e o coalho, a acidez mudou, as proteínas começaram a ligar-se e se formou a coalhada, até aquilo que escorria ganhar resistência e o leite deixar de ser leite sem ainda ser queijo. A ciência chama-lhe coagulação, palavra que parece anunciar uma desgraça quando é afinal e só o queijo a começar. A coalhada é cortada, o soro liberta-se pelas fendas e a massa é mexida, aquecida, colocada em formas, prensada e salgada. Mais tarde, na câmara de cura, o trabalho continua já sem mãos, conduzido pela temperatura, pela humidade, pelas bactérias e pelas enzimas que transformam lentamente a matéria, libertam aromas, alteram a textura e formam a casca. Há queijos que esperam poucos dias, outros precisam de dois meses para se tornarem aquilo que prometiam.

Durante séculos, os homens fizeram queijo antes de conhecerem o nome científico das reações, sabendo apenas que o leite podia ser salvo da morte rápida, endurecido, salgado e guardado. Parece simples.

Verónica conduz-nos pela queijaria e, entre uma sala e outra, a conversa vai-se afastando do fabrico até deixar o queijo para trás e regressar a ela. Tem 42 anos, nasceu em Melgaço e saiu para estudar Bioquímica na Universidade da Beira Interior. Mais tarde, viveu e trabalhou em Gaia, comprou casa, constituiu família e instalou-se naquela situação a que chamamos estabilidade quando ainda não conhecemos a persistência das saudades.

Às colegas, porém, nunca dizia que vinha visitar Melgaço. “Dizia sempre: ‘Este fim de semana vou a casa.’ E elas brincavam comigo porque nós já tínhamos comprado casa em Gaia, já estávamos fixos. Mas, para mim, casa era aqui.” A escritura apontava para Gaia mas, quando Verónica pronunciava aquela palavra, continuava a falar de Melgaço.

Casa eram a família, os vizinhos, os rostos reconhecíveis e a intimidade nem sempre cómoda de um lugar onde toda a gente conhece toda a gente. Verónica não procura embelezar essa proximidade. “Conhecemo-nos todos, para o bom e para o mau.”

Naquele tempo já distante e vivido à distância ainda havia semáforos na vila. Lembra-se de parar o carro e cumprimentar quem ao lado esperava, uma recordação pequena que diz mais sobre a dimensão do lugar. Numa cidade, a luz vermelha interrompe-nos o caminho. Em Melgaço, ainda podia prolongar uma conversa.

Foi o nascimento do seu primeiro filho José que começou a tornar o regresso menos sentimental e algo mais urgente. Verónica e Marco passavam a vida entre Gaia e o Alto Minho, entre malas abertas e fechadas, brinquedos transportados, roupa que ficava ora numa casa, ora noutra e partidas ao domingo. Sempre que chegavam a Melgaço, o rapaz parecia mudar. “Notava-se uma diferença imensa no miúdo quando estávamos aqui, a forma como estava à vontade, a liberdade. Foi aí que tivemos aquele clique. Não era ali que queríamos que ele crescesse. Queríamos que tivesse as mesmas condições que nós tivemos.”

Alguém pode voltar à terra porque sente saudade. No entanto, uma família só regressa se conseguir pagar as contas.

A oportunidade começou a desenhar-se durante uma Festa do Alvarinho, por volta de 2011, quando Verónica e Marco estavam com um tio dele, emigrante em França, rodeados de “vinho, mel, broa, doces e fumeiro”. O tio olhou para a abundância e reparou no que faltava. “Como é que não há queijo em Melgaço?”

As grandes mudanças de vida nem sempre começam com uma revelação. Às vezes começam à mesa, quando alguém olha para tudo o que há e vê, antes dos outros, aquilo que falta.

A pergunta ficou e começou então a acompanhá-los. Melgaço tinha uma identidade gastronómica, mas não tinha uma queijaria com dimensão empresarial, Verónica conhecia a ciência, Marco estava ligado à produção de uva e crescera próximo da pecuária dos avós, sobretudo dos cavalos, e os dois começaram a estudar equipamentos, apoios, animais, métodos de fabrico e licenciamentos, ao mesmo tempo que imaginavam o projeto com a generosidade que as ideias conservam antes de receberem orçamentos.

“Fomos romantizando.”

Admite Verónica.

Romantizar uma empresa era imaginá-la sem eletricidade, salários, cereais, veterinários e bancos.

Primeiro pensaram numa fábrica instalada na zona industrial, mas perceberam depois que uma queijaria desligada dos animais e da paisagem seria apenas um edifício capaz de existir em qualquer sítio. Queriam produzir o próprio leite, criar o rebanho e ligar o queijo ao território, imaginavam cabras a pastar livremente numa zona mais alta, próxima da montanha até os licenciamentos começarem a reduzir a poesia. “Em termos legais, era praticamente impossível. Tivemos de descer mais para perto da nossa vila.”

Foi assim que a Prados de Melgaço nasceu em Prado, entre casas, escolas e vinhas, com um investimento inicial próximo dos 500 mil euros. Um projeto de jovem agricultor, financiado através do PRODER e de fundos europeus, suportou cerca de 45%, o resto veio do banco e quando chega à dívida, Verónica sorri com a prudência de quem ainda não quer provocar o credor. “Não tínhamos esse dinheiro em poupanças. Tivemos de recorrer ao crédito. E ainda estamos a pagar. Falta pouco.”

Houve momentos em que Verónica temeu ter dado um passo maior do que a perna, sobretudo quando a pandemia fechou restaurantes, hotéis e lojas e deixou a exploração com quase 500 animais, cinco trabalhadores e uma despesa que renascia todas as manhãs. O rosto muda-lhe ligeiramente quando regressa àqueles meses. A palavra surge antes da explicação. “Foi duríssimo. Assustador mesmo. Tínhamos os animais, as pessoas, os custos diários e não sabíamos até quando seríamos capazes de suportar aquilo.”

As cabras não compreenderam o confinamento, continuaram a comer, a beber e a produzir leite também e todos os dias obrigavam a empresa a continuar também.

Quando restaurantes, hotéis e lojas voltaram a abrir, os custos já não eram os mesmos, depois da pandemia chegou a guerra na Ucrânia e com ela a subida dos cereais, dos combustíveis, da eletricidade e dos materiais. Verónica conhece a fronteira entre aquilo que a empresa precisa de cobrar e aquilo que o cliente aceita pagar. “Nunca conseguimos refletir completamente esses aumentos no preço final. Se o fizermos, o consumidor foge.”

A formação em Bioquímica ajudou Verónica a compreender o leite, mas não lhe ensinou a cuidar de um rebanho. Antes do curso quisera ser veterinária e os animais já faziam parte do futuro que imaginava, embora tenha descoberto depressa que imaginá-los era a parte menos dispendiosa da pecuária. “São 365 dias por ano. Se não gostarmos de animais, não podemos meter-nos num negócio destes.”

As cabras chegaram antes de eles saberem verdadeiramente o que fazer com elas. E quem as vendeu ficou por perto. Nos primeiros tempos de aprendizagem, um engenheiro de uma queijaria emprestou-lhes 30 anos de experiência e o veterinário ajudou a decifrar doenças, comportamentos e necessidades. Depois veio a parte que nenhum plano consegue ensinar: os dias.

Foi assim que chegaram ao dia 14 de março de 2015.

A data do primeiro queijo, se a memória de Verónica não a atraiçoa.

As máquinas falharam, algumas ligações não funcionaram e o fabrico prolongou-se durante horas. Ela enumera as avarias com o desespero já domesticado pelo tempo. “Isto não liga ali, aquilo não trabalha acolá. Passámos aqui umas boas horas.” Só depois acrescenta o pormenor que verdadeiramente mede a duração daquele dia. “Fomos almoçar às cinco da tarde.”

O primeiro queijo, apesar de tudo, “ficou bom, ficou bom”.

Naquele dia, bastava que uma coisa tivesse corrido bem.

A partir daí, a gama cresceu, vieram os frescos, os curados, as curas longas, os amanteigados, os cremes de barrar e uma versão de Camembert de cabra e o território entrou também nas receitas através do Pimentão com Vinho Alvarinho, do Camembert com Alvarinho, do creme de presunto e das referências curadas com fumeiro. Não bastava fazer queijo em Melgaço. Era preciso fazer Melgaço dentro do queijo.

O Pimentão com Vinho Alvarinho tornou-se um dos produtos mais premiados. Cura durante cerca de 60 dias, recebe um revestimento vermelho intenso, quase luminoso, e desde 2021 tem ajudado a Prados de Melgaço a somar distinções nos World Cheese Awards: três medalhas nessa primeira participação internacional, quatro em 2023 e outras três em 2024. São já dez medalhas em apenas quatro anos.

Verónica olha para o queijo como uma mãe que já perdeu o pudor de se gabar do filho. “O nosso Pimentão com Vinho Alvarinho já é um profissional. Está sempre a repetir umas medalhinhas.”

As medalhas não pagam diretamente cereais, combustíveis, eletricidade, materiais, mas fazem tocar o telefone: de Lisboa e do Porto há quem pergunte onde comprar, há lojas interessadas em vender. O queijo não muda. Muda a distância a que consegue chegar.

Ainda assim, quando se pergunta a Verónica qual é a parte mais difícil, Verónica não fala dos animais nem do fabrico. “É comercializar. Nós temos de pensar desde a produção animal até à comercialização. Estamos aqui com um trabalho diário muito intenso, que exige a nossa presença, e depois acabamos por deixar para mais tarde uma das partes mais importantes da empresa.” Há leite para transformar, formas para lavar, animais para alimentar, encomendas para preparar, trabalhadores para coordenar. O trabalho que mantém a queijaria viva ocupa o tempo necessário para a fazer crescer: procurar pontos de venda, apresentar os queijos a retalhistas e chegar a quem ainda não os conhece. Muitas pequenas empresas não morrem por falta de qualidade. Morrem exaustas.

Uma das caixas passa para as mãos de Ana Gonçalves, que desaparece nas câmaras frigoríficas, reaparece junto às bancadas de aço e volta às encomendas, naquele ponto da queijaria em que aquilo que foi leite recebe uma etiqueta, uma caixa e um destino. Tem 30 anos, estudou Engenharia Alimentar e é natural da região, embora não de Melgaço. “Eu fiquei sempre por cá. Sempre trabalhei cá.” Ana não tem uma história de regresso porque nunca chegou a partir. Entrou na empresa através de um estágio profissional. “Surgiu a oportunidade de vir para cá trabalhar e vim. Fiz cá o meu estágio profissional e depois continuei cá a trabalhar.” Quando o estágio terminou, Ana continuou numa empresa onde a dimensão não permite grandes distâncias entre as pessoas. “Aqui somos poucos, por isso torna-se mais fácil sermos chegados. A convivência fez com que nos fôssemos aproximando.” Partilham o frio das câmaras, as encomendas que têm hora para sair, os dias em que o trabalho corre bem e aqueles em que alguma coisa se atrasa e acabam por conhecer não apenas as tarefas uns dos outros mas também os silêncios, os cansaços e as maneiras diferentes de atravessar um dia difícil.

Quando fala da sua geração, Ana não transforma ficar em virtude nem partir em ingratitude. “Há pessoas que saem porque acham que lá fora têm mais oportunidades, têm empresas maiores, e há outras que acabam por ficar cá na região.” A distância entre ficar e sair pode caber num estágio, num salário ou numa empresa que abre uma vaga no momento certo.

Fala-se muitas vezes da desertificação do interior como se as pessoas partissem levadas por uma corrente de ar, mas partem atrás de trabalho, habitação, serviços e futuro. Não fogem da terra, fogem da impossibilidade.

Ana encontrou uma vaga antes de ter de escolher entre o lugar onde queria viver e o lugar onde poderia trabalhar. Quando se pergunta se é possível ser feliz ali, começa por descrever aquilo que a felicidade tem de concreto. “É uma zona tranquila, calma. Conseguimos ter algum sossego, estamos no meio da natureza. É um local sossegado para se viver.”

Mas são felizes?

“Sim. Sim, sim.”

Ana demora mais tempo a explicar o lugar do que a responder à pergunta, talvez porque, para ela, a felicidade seja poder trabalhar sem ter de abandonar o lugar onde sempre viveu.

Quando a porta da câmara volta a fechar-se atrás de Ana, o caminho abre-se até ao cabril. José Pedro Costa tem 21 anos, deixou a tropa, encontrou um anúncio na internet e candidatou-se sem saber nada de cabras. “Vi a vaga e tive curiosidade. Sempre gostei de animais, mas nunca tinha trabalhado diretamente com eles. Aqui estamos a trabalhar com seres vivos e temos de satisfazer as necessidades deles.” Aprendeu depressa que cuidar de animais exige uma responsabilidade diferente porque uma máquina pode ficar parada, mas uma cabra não. A hora da alimentação é a mais exigente e quando José Pedro entra com a comida, as cabras levantam-se, aproximam-se e a paz sofre uma interrupção. Ele sorri antes de escolher a palavra. “Elas têm fome e ficam mais agitadas. É o momento mais violento do meu dia.”

É uma violência relativa, feita de empurrões, cornos, pressa e apetite, até todas começarem a comer e a civilização regressar.

José Pedro ainda não sabe se aquele trabalho será uma profissão ou apenas uma passagem e não tenta transformar a incerteza numa vocação retroativa. “Por agora, é uma experiência. Não digo que não possa vir a fazer disto a minha vida, mesmo que não seja aqui. Tenho gostado bastante de trabalhar com animais.”

Muitos dos amigos estão a terminar cursos e ainda regressam nas férias e nas festas, quando Melgaço recupera temporariamente as pessoas que perdeu, mas depois chegarão os empregos, as casas, as relações e a distância deixará de ser uma fase. “Têm mais oportunidades, e possivelmente melhores, fora do concelho e, muitas vezes, fora do país.” Quando se pergunta a José Pedro se é feliz, ele abriga-se na única medida de tempo em que confia. “Para já, sou. Não digo que vá ser para sempre, mas acho que sim.”

Aos 21 anos, “para já” é provavelmente a resposta mais honesta que alguém pode dar sobre a felicidade.

Mais acima, no cabril, o silêncio continua. Marco Sousa espera junto ao gradeamento, observa as cerca de 300 cabras reunidas e chama a atenção para aquilo que não se ouve, como quem apresenta uma prova. Seria de esperar uma berraria. “Basta olhar. Entrámos aqui e não se ouviu nenhum animal a berrar. Numa exploração com 300 cabras, o normal seria haver um barulho enorme. Elas estão relaxadas, vão mais tranquilas para a sala de ordenha e as produções são melhores.”

A empresa nunca realizou um estudo científico controlado para determinar quantos litros de leite se devem ao piano ou aos ruídos de água.

Não separou grupos idênticos de cabras nem publicou medições sobre o efeito de uma sonata na ordenha.

O que existe é a observação diária, a forma como os animais entram na sala, a tranquilidade do rebanho e aquilo que acontece quando a rotina se quebra.

A música falhou durante o grande apagão elétrico e, enquanto para quem trabalhava na quinta o problema se media nas máquinas paradas e na produção interrompida, entre as cabras revelou-se de outra maneira. Verónica lembra-se de o cabril perder a calma. “Havia mais ruído, pegavam-se mais umas com as outras, ficavam mais agitadas.”

Durante algumas horas, as cabras ficaram entregues aos próprios pensamentos.

A música não explica tudo.

O bem-estar depende da alimentação, do espaço, da higiene, do acompanhamento veterinário, do descanso e da forma como os animais são tratados, e um mamífero sujeito a stresse pode libertar o leite com maior dificuldade durante a ordenha. Um ambiente previsível reduz a resistência, os movimentos bruscos e a tensão. Verónica devolve a explicação ao princípio mais simples. “Quanto melhor elas estiverem, mais leite vão conseguir produzir e menores serão os níveis de stresse.”

Perto da sala de ordenha, uma frase resume a convicção da empresa:

“Animais felizes dão leite de qualidade.”

Na parede, uma cabra, notas musicais e garrafas de leite compõem a equação da casa, simples apenas no traço.

Verónica aproxima-se das grades e uma cabra estende o focinho à procura da mão. Ela acaricia-lhe a testa com a familiaridade de quem já não precisa de conquistar confiança. “Pedem festinhas. Nunca tivemos casos de animais violentos connosco ou com quem nos visita. Olha-se para elas e nota-se.” Quando a mão se afasta, a cabra não foge nem protesta, fica ali junto às grades e continua a mastigar vagarosamente. Outras aproximam-se uma a uma, sem empurrões, como se soubessem que a mão regressará. Olham-nos sem pressa, como se o movimento estivesse todo do nosso lado.

Quando Verónica e Marco chegam a casa, a queijaria chega com eles. Marco mantém outro emprego, mas nenhum dos dois consegue tratar a exploração como um trabalho que termina a uma hora certa. As decisões foram tomadas a dois e as respostas também aparecem muitas vezes assim, com um a começar uma frase e o outro a completá-la, a corrigir uma data ou a lembrar o pormenor que faltava. “O mais difícil não é trabalharmos juntos”, começa Marco. Verónica termina a ideia. “É deixar as preocupações, fazer a separação das duas vidas. Ao ser um negócio nosso, é quase impossível. Não desligamos nunca a ficha.” Uma cabra doente, uma encomenda atrasada ou uma conta por pagar não ficam no cabril quando a porta se fecha. Vão no carro, sentam-se à mesa, atravessam o jantar e, por vezes, chegam à cama.

As férias medem melhor essa dificuldade do que qualquer explicação. Verónica não precisa de fazer contas. “Uns dias. Uns dias muito poucos. Uma semaninha por ano.” Antes de saírem, precisam de encontrar alguém a quem possam confiar os animais e mesmo assim a distância tem um limite. “Nunca nos podemos ausentar para muito longe”, acrescenta Marco. A semana existe, mas nunca chega a ser uma verdadeira ausência. Ficam sempre perto o suficiente para regressar, sabendo que o descanso naquela vida depende de nada correr mal durante alguns dias.

Os filhos cresceram dentro desse calendário. José tem 15 anos e já pergunta se as cabras comeram, se têm água, se é preciso subir ao cabril. Verónica fala dele como quem ainda se surpreende por já poder contar com o filho. “Quando estou sozinha, sei que posso contar com ele. Às vezes já o vejo mais cuidador do que nós.” Beatriz, de 13 anos, quer ser veterinária e queijeira e Verónica ri-se quando repete o plano da filha. “Vai tomar conta de tudo.” A frase fica entre a brincadeira e a esperança. Marco olha mais longe. “Estamos a criar alguma coisa que pode ter continuidade e que os nossos filhos talvez venham a acompanhar.”

Os dois envolvem-nos nas decisões e mostram-lhes não apenas o brilho das medalhas mas a repetição do trabalho, para que saibam exatamente o que receberão caso um dia decidam continuar.

Essa continuidade não cabe apenas nos filhos.

A empresa precisa de trabalhadores jovens e encontrá-los, formá-los e mantê-los é uma dificuldade que regressa todos os anos. Marco não culpa os que partiram. “Ao longo destes anos demos oportunidades a muitos. Uns encontraram coisas melhores, outros não se adaptaram. Mas queremos continuar, dentro das nossas possibilidades, a apoiar quem queira trabalhar connosco e ficar.” Cada partida pesa mais numa microempresa, porque não desaparece apenas um nome da folha salarial, desaparecem também a experiência, a confiança e o conhecimento de animais que não vêm com manual.

Verónica conhece bem esse movimento. Muitos dos colegas estudaram fora e nunca regressaram porque não encontraram no concelho trabalho que justificasse o caminho inverso e a emigração instalou-se na cultura local como se fosse uma fase natural do crescimento.

Nascer. Estudar. Partir.

É Verónica quem lhe dá palavras. “Está cá dentro. Convencer os jovens de que aqui pode ser tão bom ou melhor é um trabalho diário.”

Uma pequena queijaria não resolve a falta de transportes, habitação, médicos, serviços ou salários mais elevados, mas consegue criar alguns empregos e provar que uma ideia nascida numa Festa do Alvarinho trouxe uma família de volta, contratou jovens e levou queijos de Melgaço a concursos internacionais.

É pouco para salvar uma região. É muito para quem ficou por causa disso.

No fim da tarde, já outra vez junto das cabras, perguntamos a Verónica se é mais difícil garantir a felicidade dos animais ou a das pessoas. Ela ri-se antes de responder, não precisa de refletir, conhece as duas espécies.

“Nós somos mais exigentes. Elas ficam contentes com música, uma massagem, boa comida e condições para terem uma vida tranquila. Sem dúvida, é mais fácil manter a felicidade das cabras.”

Uma cabra precisa de alimento, água, saúde, descanso, ainda companhia, ainda espaço e a ausência de medo. Uma pessoa precisa do mesmo e precisa ainda de conseguir construir uma vida com isso, criar os filhos, guardar algum tempo e acreditar que ficar não foi apenas o nome dado à falta de escolha.

E eles, serão eles felizes? Verónica responde primeiro.

Com uma definição que não inclui a empresa nem as medalhas.

“Fazer aquilo de que se gosta e ter uma família feliz. Sim.”

Marco não a contradiz, acrescenta-lhe apenas o plural.

“Sim. E estarmos todos unidos em torno de um só objetivo.”

Quando algumas cabras saem para um pequeno recinto exterior, a música fica no cabril, presa ao computador, ao amplificador e à coluna que veio de um automóvel. Cá fora, uma aproxima-se, baixa ligeiramente a cabeça e, por um instante, parece preparar uma cornada. Não avança.

A cabra pode ser teimosa e dar marradas. Ao menos dá-as de frente.

Depois levanta a cabeça, mastiga e observa-nos com aqueles seus olhos horizontais, vastos e impassíveis. Atrás dela estão o cabril, as vinhas, a fábrica, as medalhas de queijo, uma dívida quase paga, uma família que regressou e alguns jovens que ainda não partiram. O leite que produziu será queijo, queijo que pagará salários, cereais, eletricidade e prestações. É assim, litro a litro, que se adia a próxima partida.

A cabra ignora tudo. É talvez a única criatura daquela quinta que não sofre por antecipação. Talvez sorria.

 

Fonte: TVI

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor, digite seu nome aqui
Por favor digite seu comentário!

- Advertisment -spot_img

Últimas Postagens

Moradores denunciam esquema de venda ilegal de terrenos em Gaza

0
Residentes dos bairros Patrice Lumumba e Praia, na cidade de Xai-Xai, denunciam o recrudescimento de esquemas de venda múltipla de terrenos, por valores que...
- Advertisment -spot_img