Por: Virgílio Timana
A proposta da FIFA para abrir o capital comercial dos Campeonatos do Mundo a investidores privados desencadeou uma das maiores fracturas institucionais do futebol mundial nas últimas décadas. Depois de anunciar um novo modelo destinado a captar até 4,2 mil milhões de dólares para financiar o desenvolvimento da modalidade, o organismo liderado por Gianni Infantino enfrenta agora uma oposição firme da UEFA e da Concacaf, que rejeitam a iniciativa por considerarem que coloca em risco a independência e a identidade do futebol.
Apresentado na terça-feira, o projecto prevê a criação da FIFA Forward Enterprise (FFE), uma subsidiária integralmente detida pela FIFA que passará a concentrar os direitos comerciais das suas competições. Através desta estrutura, a organização pretende vender participações minoritárias a investidores privados, mantendo o controlo da governação, do calendário internacional e das decisões desportivas.
Segundo a FIFA, a operação permitirá aumentar significativamente os fundos destinados às 211 federações nacionais. O programa FIFA Forward passará de oito para 20 milhões de dólares por federação entre 2027 e 2030, podendo atingir 24 milhões de dólares no ciclo de 2035 a 2038. Está igualmente previsto um novo programa, denominado FIFA Fast-Forward, que disponibilizará até 20 milhões de dólares adicionais para projectos de infra-estruturas, como estádios e centros de treino.
Apesar das garantias de que os investidores não terão qualquer influência na gestão do futebol, a proposta encontrou forte resistência.
Em comunicado conjunto divulgado em nome das suas 55 associações nacionais, a UEFA (entidade que dirige o futebol na Europa) rejeitou por unanimidade o plano, considerando que o Campeonato do Mundo "não está à venda". O organismo europeu sustenta que a competição constitui um património construído ao longo de gerações e não pode ser transformada num produto financeiro ao serviço de accionistas.
A confederação liderada por Aleksander Čeferin acusa ainda a FIFA de ter desenvolvido o projecto sem um processo de consulta transparente, classificando a iniciativa como "irresponsável e indefensável". Na visão da UEFA, permitir a entrada de capital privado significaria subordinar as decisões sobre o calendário internacional, os formatos das competições e o futuro do futebol aos interesses financeiros dos investidores.
Num dos pontos mais contundentes da declaração, a UEFA anunciou que as suas selecções nacionais não participarão em competições organizadas pela FIFA enquanto a proposta permanecer em discussão, salvo se esta for totalmente retirada e a FIFA garantir que nunca mais voltará a abrir as suas competições à propriedade privada.
A contestação rapidamente ultrapassou o continente europeu. Horas depois, a Concacaf, que representa as 41 federações da América do Norte, Central e Caraíbas, anunciou igualmente a rejeição formal do projecto. Embora não tenha ameaçado boicotar as competições da FIFA, a confederação criticou a ausência de um processo regular de governação, o curto prazo concedido às federações para analisar a proposta e o facto de a iniciativa não ter sido previamente apreciada pelos órgãos competentes da FIFA.
A Concacaf questiona ainda a necessidade de recorrer a investidores privados para financiar programas de desenvolvimento, lembrando que o organismo internacional acaba de realizar aquele que descreve como o Campeonato do Mundo mais rentável da história.
A confederação instruiu igualmente os seus representantes no Conselho da FIFA a exigirem que qualquer alteração desta dimensão cumpra rigorosamente os mecanismos estatutários de governação e pediu uma avaliação sobre a possibilidade de utilizar as reservas financeiras já existentes da FIFA para reforçar o programa FIFA Forward, sem necessidade de recorrer ao mercado de capitais.
Entretanto, segundo informações avançadas pelo jornal britânico The Times, a FIFA estará a trabalhar com o banco J.P. Morgan para estruturar a operação, surgindo entre os potenciais investidores a Thrive Capital, empresa fundada por Joshua Kushner. O objectivo passa por alienar entre 20 e 30 por cento dos direitos comerciais das competições da FIFA através da nova empresa.
Face à crescente contestação, Gianni Infantino procurou desvalorizar as críticas, afirmando que o novo modelo representa apenas uma oportunidade para as federações-membro aumentarem o financiamento disponível e não uma imposição.
Ainda assim, a oposição simultânea das duas maiores confederações do futebol mundial transforma o projecto numa das decisões mais sensíveis da história recente da FIFA.






