Crescimento Da Carteira Não Impediu Queda Acentuada Do Lucro
A Empresa Moçambicana de Seguros, EMOSE, encerrou 2025 com um resultado líquido positivo de 20,23 milhões de Meticais, alcançando lucros pelo terceiro ano consecutivo.
A continuidade dos resultados positivos consolida a recuperação iniciada em 2023, depois de a seguradora ter atravessado exercícios marcados por perdas. Contudo, a comparação com o desempenho de 2024 revela uma redução substancial da rentabilidade.
No exercício anterior, a EMOSE havia reportado um lucro líquido de 368,1 milhões de Meticais, depois dos 43,4 milhões alcançados em 2023. A passagem para 20,23 milhões de Meticais em 2025 representa, por cálculo do O.Económico, uma queda anual próxima de 94,5%.
O terceiro exercício consecutivo com lucro constitui, assim, um sinal de continuidade operacional, mas não significa que a trajectória de rentabilidade tenha permanecido ascendente. O resultado de 2025 ficou igualmente abaixo do lucro obtido em 2023.
A diferença entre crescimento da produção e redução do lucro constitui o principal elemento financeiro a explicar. A companhia aumentou fortemente a emissão de prémios, mas reteve uma parcela consideravelmente menor desse volume sob a forma de resultado líquido.
Prémios Emitidos Aumentam 42,82% Para 3,46 Mil Milhões De Meticais
Segundo o comunicado da EMOSE, os prémios emitidos atingiram 3,46 mil milhões de Meticais em 2025, correspondendo a um crescimento de 42,82% relativamente ao exercício anterior.
Os prémios brutos emitidos representam o valor dos contratos de seguro assumidos durante o período. O indicador permite avaliar a dimensão comercial da carteira, mas não corresponde directamente ao lucro, uma vez que desse montante são deduzidos custos com sinistros, resseguro, comissões, provisões técnicas, despesas operacionais e outras responsabilidades.
Com base nos números anunciados, o lucro líquido equivaleu a aproximadamente 0,6% dos prémios emitidos em 2025. A margem indica que, apesar da forte expansão comercial, apenas uma pequena parcela do volume de prémios permaneceu como resultado final.
A análise integral exigirá a divulgação das demonstrações financeiras auditadas de 2025, nomeadamente os custos com sinistros, o nível de resseguro cedido, as provisões técnicas, os rendimentos dos investimentos, os custos administrativos e os prémios ainda por cobrar.
Sem esses elementos, não é possível determinar se a redução do lucro decorreu principalmente de maior sinistralidade, custos extraordinários, reforço de provisões, deterioração dos resultados financeiros ou despesas relacionadas com a expansão da actividade.
EMOSE Recupera Quota E Sobe Para Terceira Posição
Os dados provisórios do Instituto de Supervisão de Seguros de Moçambique, ISSM, confirmam uma recuperação da posição comercial da EMOSE.
Segundo o regulador, a seguradora alcançou uma quota global acumulada de 12,8% em 2025, ocupando a terceira posição, atrás da Hollard, com 21,3%, e da Fidelidade, com 14,8%.
O valor aproxima-se dos 13% indicados pela própria companhia. Em 2024, o relatório anual do ISSM havia colocado a EMOSE na quarta posição, com uma quota de 10%, depois de a empresa ter liderado o mercado em 2023 com 16,5%.
A evolução de 2025 representa, portanto, um ganho de aproximadamente 2,8 pontos percentuais e uma subida de uma posição no mercado.
A recuperação foi particularmente acentuada no quarto trimestre. Os indicadores do ISSM mostram que a quota trimestral da EMOSE atingiu 27,9% entre Outubro e Dezembro, levando a companhia ao primeiro lugar naquele período específico. Nos três trimestres anteriores, as quotas foram de 5,4%, 7,9% e 8,5%, respectivamente.
A concentração de uma parte relevante da produção no último trimestre pode resultar da entrada de grandes contratos empresariais ou institucionais. Trata-se, contudo, de uma inferência. O comunicado não apresenta a composição da carteira, os principais ramos responsáveis pelo crescimento nem a proporção entre negócios recorrentes e contratos de maior dimensão.
Esta informação será importante para avaliar se a expansão de 2025 estabelece uma base sustentável para os exercícios seguintes ou reflecte, em parte, operações de carácter excepcional.
Liderança No Ramo Vida Contrasta Com Quarto Lugar Em Não Vida
Os dados do ISSM mostram que a posição da EMOSE varia significativamente entre os diferentes segmentos do mercado.
No ramo Vida, a companhia alcançou uma quota acumulada de 34% em 2025, recuperando a liderança do segmento. A Sanlam ficou em segundo lugar, com 30,8%, seguida da Hollard Vida, com 20,8%.
Nos ramos Não Vida, a EMOSE terminou o exercício na quarta posição, com uma participação acumulada de 8,8%. A liderança pertenceu à Hollard, com 25,3%, seguida da Fidelidade, com 15,1%, e da Mediplus, com 9,6%.
A distribuição indica que a recuperação da seguradora não ocorreu de forma uniforme. A companhia ganhou uma posição particularmente forte no ramo Vida, enquanto continua a enfrentar maior concorrência nos seguros Não Vida, que constituem a maior parte da actividade seguradora moçambicana.
Em 2024, segundo o relatório anual do ISSM, os ramos Não Vida representavam 86,2% da produção total do mercado, contra 13,8% do ramo Vida.
Para ampliar estruturalmente a sua quota global, a EMOSE precisará, por isso, de consolidar a liderança em Vida e melhorar o posicionamento nos segmentos Não Vida, incluindo automóvel, saúde, acidentes de trabalho, incêndio, transporte de mercadorias e riscos empresariais.
Contracção De 9% Do Mercado Não Coincide Com Dados Agregados Do Regulador
O comunicado da EMOSE afirma que o mercado segurador moçambicano contraiu 9% em 2025, enquanto a companhia cresceu mais de 42%.
Os dados públicos provisórios do ISSM apresentam, contudo, uma evolução diferente. O regulador reporta prémios brutos emitidos no valor acumulado de 24,664 mil milhões de Meticais em 2025. Para 2024, o relatório anual do mesmo instituto indica uma produção de seguros de 24,166 mil milhões de Meticais. (ISSM)
A comparação nominal entre os dois valores aponta para um crescimento próximo de 2,1%, e não para uma contracção de 9%.
Esta diferença não significa necessariamente que uma das informações esteja incorrecta. Poderá resultar de metodologias, perímetros de comparação ou ajustamentos distintos. Os dados de 2025 são provisórios e o próprio ISSM assinala que algumas seguradoras não remeteram informação em determinados períodos. (ISSM)
Ainda assim, a afirmação de que o mercado encolheu 9% precisa de ser acompanhada pela identificação da base de cálculo utilizada pela EMOSE: se corresponde à produção comparável, aos prémios cobrados, a um determinado segmento, aos dados corrigidos pela inflação ou a um conjunto específico de operadores.
A explicitação da metodologia permitiria compreender melhor a dimensão real do desempenho da companhia relativamente aos seus concorrentes.
Liquidez De 124,82% Indica Capacidade De Cumprimento, Mas Não Substitui Análise De Solvência
A EMOSE anunciou um rácio de liquidez de 124,82% e afirmou manter os indicadores de solvabilidade e liquidez acima dos mínimos estabelecidos pelo regulador.
O Conselho de Administração considera que esta posição permite à empresa cumprir as suas obrigações perante segurados, parceiros e restantes intervenientes do mercado.
A liquidez é particularmente relevante para uma seguradora, porque a empresa precisa de dispor de activos realizáveis para pagar indemnizações e outras responsabilidades à medida que se tornam exigíveis.
Contudo, um único rácio não permite avaliar integralmente a robustez financeira. A análise prudencial deverá considerar também a cobertura das provisões técnicas, a adequação dos capitais próprios, a qualidade dos activos, a exposição a grandes riscos, a concentração da carteira, o volume de prémios por cobrar e a dependência do resseguro.
O comunicado não apresenta o valor do rácio de solvabilidade, o mínimo regulamentar aplicável, a cobertura das provisões técnicas nem a evolução dos capitais próprios em 2025.
A publicação do Relatório e Contas permitirá verificar se a expansão dos prémios foi acompanhada por capital suficiente para suportar os riscos assumidos.
Crescer Com Rentabilidade Será A Questão Central De 2026
A EMOSE atribui o desempenho à gestão prudencial, ao rigor na selecção de riscos e à optimização operacional. A companhia considera que os resultados consolidam os pilares de solidez, crescimento e confiança junto dos segurados, accionistas e da economia nacional.
Os indicadores mostram, efectivamente, uma recuperação comercial: os prémios cresceram, a quota aumentou e a empresa regressou às três maiores seguradoras do mercado.
A dimensão da queda do resultado líquido, porém, demonstra que expansão e rentabilidade seguiram trajectórias diferentes em 2025.
O desafio para 2026 será transformar a carteira adicional em resultados sustentáveis, sem comprometer a qualidade dos riscos, a capacidade de pagamento de indemnizações e os níveis prudenciais de capital.
Isso exigirá maior disciplina na subscrição, contenção dos custos, cobrança efectiva dos prémios, gestão dos sinistros e utilização criteriosa do resseguro. Exigirá igualmente identificar quais ramos geraram o crescimento e quais reduziram a rentabilidade.
Seguradora Pretende Apoiar Empresas E Protecção Social
A EMOSE reafirmou o compromisso de apoiar o tecido empresarial nacional, contribuir para a bancarização dos investimentos e ampliar a protecção social dos cidadãos moçambicanos.
O seguro pode desempenhar uma função económica relevante ao transferir riscos que, de outra forma, permaneceriam integralmente nos balanços das empresas, famílias e instituições financeiras.
Projectos protegidos contra incêndios, acidentes, danos de equipamentos, interrupções da actividade e outros riscos apresentam maior capacidade de mobilizar financiamento e preservar o investimento em caso de ocorrência de sinistros.
A contribuição da EMOSE para esse objectivo dependerá não apenas da sua dimensão financeira, mas da capacidade de desenvolver produtos acessíveis, pagar indemnizações de forma célere, expandir a cobertura para além dos grandes centros urbanos e aumentar a confiança dos cidadãos no mercado segurador.
O lucro pelo terceiro ano consecutivo confirma que a companhia se mantém numa trajectória positiva depois dos prejuízos anteriores. Todavia, o forte recuo do resultado líquido coloca a qualidade e a rentabilidade do crescimento no centro da avaliação do exercício de 2025.
Fonte: O Económico



