Uma Economia Que Parou De Recuar
O primeiro semestre de 2026 começou a produzir aquilo que, depois de um ano particularmente difícil, era o primeiro requisito para uma recuperação da economia moçambicana: interromper a trajectória de deterioração.
É neste sentido que o economista Eduardo Sengo interpreta os primeiros meses do ano.
“Mais do que recuperação, foi uma inversão da marcha”, afirmou no Tema de Fundo do Semanário Económico, ao avaliar o comportamento da actividade económica depois das fortes perturbações verificadas entre o final de 2024 e 2025.
A distinção é importante.
Inverter uma trajectória negativa significa que sectores anteriormente em contracção começaram a estabilizar ou regressar a taxas positivas. Não significa necessariamente que a economia já esteja a crescer suficientemente depressa para recuperar a produção, rendimento e investimento perdidos no período anterior.
É precisamente essa a imagem que emerge dos indicadores disponíveis.
PIB Regressa A Terreno Positivo, Mas Por Margem Mínima
O Produto Interno Bruto registou um crescimento de 0,1% no primeiro trimestre de 2026, depois da forte contracção observada no período homólogo de 2025.
O dado possui importância sobretudo pela mudança de sinal.
Depois de uma sequência marcada por perturbações políticas, bloqueios logísticos, redução das actividades comerciais e menor confiança empresarial, a economia voltou a apresentar crescimento.
Mas uma expansão de apenas 0,1% mostra também a dimensão do desafio.
A economia deixou de recuar, mas ainda não construiu uma base de crescimento suficientemente forte para caracterizar o início de 2026 como uma recuperação acelerada.
Daí a avaliação de Sengo: recuperação moderada, acompanhada por ritmos muito diferentes entre os sectores.
Mineração Lidera, Construção Continua A Cair
A composição sectorial ajuda a perceber essa diferença.
A indústria extractiva registou crescimento de 4,1% no primeiro trimestre, constituindo uma das actividades com melhor desempenho.
A indústria transformadora cresceu 1,2%, enquanto agricultura, pecuária e silvicultura avançaram 0,9%.
São taxas positivas, mas ainda relativamente modestas fora da actividade extractiva.
A construção seguiu na direcção contrária, registando uma contracção de 2,2%.
Este indicador assume particular importância porque o sector da construção funciona normalmente como um dos canais de transmissão do investimento para a economia doméstica: mobiliza materiais, transportes, serviços, mão-de-obra e diferentes cadeias de fornecimento.
A sua permanência em terreno negativo é consistente com outro indicador igualmente relevante: a Formação Bruta de Capital ainda não regressou ao crescimento.
Comércio E Transportes Começam A Recuperar
Talvez um dos sinais mais representativos da mudança relativamente a 2025 esteja nos sectores mais directamente afectados pelas perturbações da circulação de pessoas e mercadorias.
Comércio e serviços de reparação, que tinham registado uma queda acumulada de 5,9% em 2025, cresceram 0,3% no primeiro trimestre de 2026.
Transportes e armazenagem passaram de uma contracção de 3,4% para um crescimento de 0,5%.
Hotéis e restaurantes, depois de uma quebra superior a 11% em 2025, regressaram marginalmente a terreno positivo, com crescimento de 0,1%.
As taxas são pequenas, mas reveladoras.
Estes sectores não necessitam apenas de estabilidade macroeconómica. Dependem directamente de circulação, confiança, procura das famílias, turismo e normal funcionamento das cadeias logísticas.
A melhoria indica que a normalização progressiva das condições económicas começou a produzir efeitos sobre actividades que tinham sido particularmente penalizadas.
Turismo Ainda Não Recuperou Todo O Potencial
O turismo ilustra bem a natureza incompleta desta recuperação.
Na avaliação de Eduardo Sengo, os fluxos começaram a melhorar, mas as condições rodoviárias e os efeitos dos choques climáticos limitaram a capacidade de aproveitar integralmente períodos tradicionalmente fortes, designadamente a época da Páscoa.
O mercado sul-africano é especialmente relevante neste período e uma parte significativa desses visitantes entra em Moçambique por via terrestre.
Quando estradas estão cortadas, degradadas ou condicionadas, o impacto não se limita ao transporte.
Hotéis, restaurantes, comércio, serviços turísticos, combustíveis e pequenos fornecedores locais perdem igualmente actividade.
Isto ajuda a explicar por que razão a recuperação dos serviços começou, mas ainda não recuperou os níveis anteriores.
Consumo Privado Reaparece Como Motor
Do lado da procura agregada, um dos sinais mais importantes foi a recuperação do consumo das famílias.
O relatório económico aponta para uma expansão do consumo privado de 1,4% no primeiro trimestre, depois de uma contracção durante 2025.
Na entrevista ao Semanário Económico, Eduardo Sengo refere igualmente uma recuperação do consumo privado durante a primeira metade do ano, apontando para um crescimento de aproximadamente 1,8% na leitura conjuntural utilizada na sua análise.
As referências correspondem a bases temporais diferentes, mas apontam na mesma direcção: o consumo voltou a crescer.
Isto é particularmente importante para a economia não extractiva.
Quando as famílias aumentam despesas, o efeito transmite-se rapidamente para comércio, transportes, telecomunicações, restauração, serviços pessoais e diferentes actividades de pequena e média dimensão.
O consumo privado continua, portanto, a ser uma das variáveis mais importantes para transformar uma recuperação estatística numa recuperação sentida pela economia doméstica.
Investimento Continua A Ser O Elo Mais Fraco
Se o consumo melhorou, o investimento continua a apresentar um quadro menos favorável.
A Formação Bruta de Capital recuou 1,9% no primeiro trimestre, depois de uma contracção de 4,2% em 2025.
A persistência de taxas negativas significa que empresas e outros agentes económicos continuam cautelosos relativamente à criação de nova capacidade produtiva.
Este comportamento é compatível com a contracção da construção, custo elevado do financiamento, maior percepção de risco e dificuldades enfrentadas na mobilização de crédito.
Uma economia pode recuperar temporariamente através de maior consumo e exportações.
Mas para sustentar crescimento durante vários anos precisa de investimento.
Sem formação de capital, torna-se mais difícil aumentar produtividade, criar emprego formal, expandir empresas e diversificar a produção.
Crédito Não Está A Acompanhar A Recuperação
É neste ponto que surge uma das principais limitações do actual ciclo.
“O crédito no seu todo não está a crescer”, observa Eduardo Sengo.
A concessão de financiamento tornou-se mais exigente, acompanhando critérios prudenciais mais restritivos e maior avaliação do risco por parte dos bancos comerciais.
O problema afecta tanto as famílias como as empresas.
Para as famílias, menos crédito significa menor capacidade de antecipar consumo e financiar bens duradouros.
Para as empresas, significa menor capacidade de adquirir equipamentos, financiar stocks, ampliar instalações ou gerir capital circulante.
A recuperação do consumo privado está, desta forma, a acontecer sem um forte impulso de financiamento bancário.
Isso ajuda a explicar por que razão a procura regressou a terreno positivo, mas a expansão permanece moderada.
Inflação Mudou De Direcção
A primeira metade do ano trouxe também uma deterioração do ambiente de preços.
A inflação homóloga começou 2026 em 2,12% em Janeiro, avançou para 3,20% em Fevereiro e chegou a 4,11% em Março.
O relatório económico associa parte da aceleração inicial às perturbações climáticas e logísticas que afectaram o escoamento de produtos agrícolas para os principais centros urbanos.
Ao longo do semestre, a pressão ganhou intensidade adicional.
O balanço partilhado aponta para uma inflação de 7,51% em Junho, num ambiente também afectado pelos custos dos combustíveis e pelos efeitos das disrupções externas.
A evolução representa uma mudança importante relativamente ao início do ano.
A inflação mais elevada reduz o rendimento real das famílias exactamente no momento em que o consumo privado começa a recuperar.
Combustíveis Transmitem Pressão À Economia
Os combustíveis foram uma das variáveis mais sensíveis do semestre.
A evolução dos preços internacionais e os constrangimentos associados ao abastecimento obrigaram a ajustamentos no mercado doméstico.
A subida do preço do gasóleo possui impacto particularmente amplo.
A agricultura utiliza combustível em diferentes fases da produção e comercialização. Transportadores incorporam o custo nas tarifas. Empresas comerciais enfrentam custos logísticos superiores. A construção e indústria utilizam equipamentos dependentes de combustíveis.
O choque transmite-se, portanto, por múltiplos canais.
Na leitura de Eduardo Sengo, a opção do Governo por direccionar apoios aos transportadores de passageiros, em vez de subsidiar indistintamente todo o consumo de combustível, procurou limitar o impacto orçamental e concentrar a protecção nos utilizadores do transporte colectivo.
O princípio económico é o de substituir um subsídio generalizado por um apoio dirigido.
A eficácia dependerá, contudo, da capacidade de alcançar operadores num sector ainda marcado por níveis elevados de informalidade.
Comércio Externo Cresce, Mas Défice Mantém-se
O sector externo apresenta igualmente uma recuperação com características próprias.
As exportações totalizaram aproximadamente 3,12 mil milhões de dólares no primeiro semestre, enquanto as importações alcançaram cerca de 3,88 mil milhões.
Da diferença resulta um défice comercial próximo de 760 milhões de dólares.
As exportações continuam fortemente apoiadas pelo gás natural, alumínio, carvão mineral e energia eléctrica.
Esta concentração possui uma dupla leitura.
Por um lado, os grandes projectos proporcionam uma importante fonte de receitas externas e ajudam a sustentar a balança de pagamentos.
Por outro, revelam a limitada diversificação da capacidade exportadora da economia.
Quanto maior for a presença de produtos agrícolas processados, manufacturas e serviços nas exportações, maior tende a ser a difusão doméstica dos benefícios gerados pelo comércio externo.
Reservas Mantêm Almofada, Mas Liquidez Cambial Continua Sensível
As Reservas Internacionais Líquidas mantiveram-se próximas de 3,5 mil milhões de dólares no final do primeiro semestre, depois da utilização de uma parcela importante de reservas para o pagamento antecipado de obrigações junto do Fundo Monetário Internacional.
Eduardo Sengo considera que, apesar desse pagamento, a cobertura das importações continuou em níveis relativamente confortáveis.
A existência de reservas, todavia, não eliminou completamente as dificuldades de acesso a moeda estrangeira enfrentadas pelas empresas.
Este é um dos principais paradoxos da conjuntura: o País pode manter uma almofada externa relevante e, simultaneamente, empresas enfrentarem atrasos na obtenção de divisas para pagamentos comerciais.
O problema passa não apenas pelo stock agregado de reservas, mas também pela quantidade de moeda estrangeira efectivamente disponível no mercado e pela forma como circula entre bancos, exportadores e importadores.
Receitas Do Estado Melhoram
As finanças públicas registaram uma evolução relativamente mais favorável do lado das receitas.
A receita total passou de aproximadamente 171,8 mil milhões de meticais no primeiro semestre de 2025 para 183,9 mil milhões em igual período de 2026.
A despesa total aumentou de 213,4 mil milhões para 219,1 mil milhões de meticais.
Como resultado, o défice global diminuiu de 41,6 mil milhões para cerca de 35,2 mil milhões de meticais.
A melhoria reduz parcialmente a necessidade de financiamento adicional.
Não elimina, contudo, a pressão sobre a tesouraria do Estado, sobretudo num contexto de obrigações elevadas relacionadas com salários, dívida pública, fornecedores e investimento.
Recuperação Existe, Aceleração Ainda Não
A imagem do primeiro semestre é, portanto, menos linear do que a simples passagem de recessão para crescimento poderia sugerir.
Há sinais inequívocos de melhoria.
Comércio, transportes e turismo começaram a recuperar. Agricultura e indústria voltaram a crescer. O consumo privado regressou a terreno positivo. As receitas públicas aumentaram.
Mas há igualmente indicadores que recomendam cautela.
A expansão inicial do PIB é mínima. O investimento permanece negativo. A construção continua em contracção. O crédito não acompanha a recuperação. A inflação acelerou e a dívida interna continua a aumentar.
A economia moçambicana parece ter conseguido ultrapassar a fase mais aguda das perturbações que marcaram 2025.
O passo seguinte é economicamente mais difícil: transformar estabilização em aceleração, e aceleração em crescimento suficientemente amplo para atingir empresas, emprego e rendimento das famílias.
É esse desafio que passa para a segunda metade de 2026.
Fonte: O Económico






