O ouro recuou nas primeiras horas desta terça-feira, 18 de Agosto, pressionado pela subida do petróleo e dos rendimentos das obrigações do Tesouro norte-americano, enquanto os investidores aguardam a publicação das actas da reunião de Julho da Reserva Federal dos Estados Unidos.
O ouro à vista caiu 0,5%, para US$ 4.391,14 por onça, às 04h23 GMT. Os futuros norte-americanos para entrega em Dezembro recuaram 0,6%, para US$ 4.446,70 por onça.
A queda ocorreu apesar do agravamento das tensões entre os Estados Unidos e o Irão, uma circunstância que, em condições normais, tenderia a aumentar a procura de ouro enquanto activo de refúgio.
O movimento demonstra que o impacto económico do conflito está, neste momento, a chegar ao mercado do ouro sobretudo através do petróleo, da inflação e das taxas de juro. O Brent voltou a superar US$ 91 por barril, depois de os Estados Unidos terem afastado a extensão do cessar-fogo e o Irão anunciar uma postura militar mais ofensiva.
Petróleo Altera A Leitura Do Risco Geopolítico
A relação entre ouro e risco geopolítico não é linear. O agravamento de um conflito pode elevar a procura do metal como reserva de valor, mas também pode produzir efeitos macroeconómicos que operam no sentido contrário.
A subida do petróleo aumenta os custos de transporte, produção e distribuição, alimentando expectativas de inflação. Se os bancos centrais entenderem que o choque energético ameaça provocar aumentos persistentes dos preços, poderão manter as taxas de juro elevadas ou adoptar medidas adicionais de restrição monetária.
Esta possibilidade reduz a atractividade relativa do ouro. O metal não paga juros nem dividendos, pelo que se torna menos competitivo quando as obrigações soberanas oferecem rendimentos mais elevados.
Soni Kumari, analista do ANZ, considera que os preços do petróleo continuarão a ser um dos principais factores de pressão sobre o ouro enquanto permanecer a incerteza no Médio Oriente.
Assim, o mesmo conflito que fortalece a função do ouro como activo de refúgio pode enfraquecê-lo através de juros mais elevados. O comportamento do mercado dependerá de qual destes canais — segurança ou política monetária — prevalecer em cada momento.
Rendimentos Do Tesouro Aumentam O Custo De Oportunidade
O rendimento das obrigações do Tesouro norte-americano a dez anos subiu para 4,724%, enquanto a taxa das obrigações a 30 anos atingiu 5,321%, segundo dados reportados pela Reuters.
Quando estes rendimentos aumentam, os investidores podem obter retornos mais elevados através de instrumentos considerados de baixo risco e denominados em dólares. Manter ouro passa, por conseguinte, a representar um custo de oportunidade maior.
A subida das taxas de longo prazo indica que o mercado não está concentrado apenas na próxima decisão da Reserva Federal. Os investidores estão também a incorporar expectativas sobre inflação futura, crescimento económico, política orçamental e volume de emissão de dívida pública.
O efeito líquido sobre o ouro resulta da interacção entre três variáveis. Rendimentos mais elevados tendem a pressionar o metal, a valorização do dólar encarece a sua aquisição fora dos Estados Unidos e o aumento da aversão ao risco pode, em sentido inverso, estimular a procura por activos de protecção.
Actas Da Reserva Federal Ganham Importância
A Reserva Federal deverá publicar, na quarta-feira, as actas da reunião de política monetária realizada em Julho. O documento poderá esclarecer a intensidade das preocupações com a inflação e o grau de apoio existente no banco central para uma eventual subida das taxas.
Na reunião de 29 de Julho, o Comité Federal de Mercado Aberto manteve a taxa dos fundos federais entre 3,50% e 3,75%. A decisão foi aprovada por nove votos contra três.
Os três votos discordantes — de Beth Hammack, Neel Kashkari e Lorie Logan — defenderam um aumento de 25 pontos base. A dimensão da divergência tornou as actas particularmente relevantes, porque permitirá avaliar se outros membros também manifestaram preocupação com a persistência da inflação, mesmo tendo votado pela manutenção dos juros.
No comunicado divulgado após a reunião, a Reserva Federal reconheceu que a inflação permanecia acima do objectivo de 2%, em parte devido aos choques de oferta que provocaram aumentos de preços em sectores como a energia.
A evolução do petróleo desde essa decisão acrescenta complexidade ao debate. Um choque energético prolongado pode manter a inflação elevada, mas também reduzir o consumo e enfraquecer a actividade económica, criando um dilema entre estabilidade de preços e protecção do emprego.
Dados Económicos Reduzem Expectativas De Nova Subida
Apesar da pressão proveniente do petróleo, dados recentes da economia norte-americana diminuíram as expectativas de um aumento dos juros já em Setembro.
A economia registou uma perda inesperada de postos de trabalho em Julho, enquanto a inflação ao consumidor ficou abaixo das previsões e as vendas a retalho apresentaram um desempenho mais fraco.
Em consequência, a probabilidade implícita de a Reserva Federal manter os juros na próxima reunião aproximou-se de 65%, depois de o mercado ter anteriormente atribuído maior possibilidade a uma subida de 25 pontos base.
Uma sondagem da Reuters, realizada entre 12 e 17 de Agosto, indicou que uma maioria expressiva de economistas espera que a Reserva Federal mantenha a taxa entre 3,50% e 3,75% até ao final de 2026.
As expectativas permanecem, contudo, sensíveis aos próximos indicadores, principalmente o índice de preços das despesas de consumo pessoal, a medida de inflação preferida pela Reserva Federal, e o relatório do mercado de trabalho.
Esta combinação explica a volatilidade do ouro. A fraqueza económica e a menor probabilidade de subida dos juros oferecem suporte ao metal, mas o petróleo e os rendimentos das obrigações impedem, por enquanto, uma valorização mais consistente.
Ouro Recupera Parte Das Perdas Do Conflito
A queda desta terça-feira ocorre depois de uma recuperação significativa do ouro. Segundo a Reuters, o metal valorizou cerca de 9% desde os mínimos registados em Junho, aproximando-se novamente de US$ 4.400 por onça.
O preço atingira um máximo histórico próximo de US$ 5.600 em Janeiro, mas caiu para menos de US$ 4.000 em Junho. A correcção esteve associada à procura de liquidez, à subida dos juros e à necessidade de algumas instituições monetizarem reservas durante a crise desencadeada pelo conflito no Médio Oriente.
O Conselho Mundial do Ouro indicou que o preço de referência da London Bullion Market Association terminou a semana passada em US$ 4.391 por onça, correspondente a uma valorização semanal de 1,3%. Esse desempenho colocou o ganho acumulado desde o início do ano em apenas 0,5%, depois das fortes oscilações registadas durante o primeiro semestre.
A procura dos bancos centrais continua a oferecer suporte estrutural. Ao procurarem diversificar as reservas internacionais e reduzir a concentração em activos denominados em dólares, as autoridades monetárias sustentam uma fonte de procura menos sensível às variações diárias dos preços.
Os fundos negociados em bolsa garantidos por ouro também voltaram a registar entradas, embora ainda moderadas. A Reuters estima que estes instrumentos tenham captado cerca de US$ 7 mil milhões no início de Agosto.
Suporte De US$ 4.381 Torna-Se Referência Imediata
No plano técnico, o ouro aproxima-se de um nível importante. Wang Tao, analista técnico da Reuters, considera que o preço à vista poderá testar o suporte de US$ 4.381 por onça.
Uma quebra consistente abaixo deste nível poderá abrir espaço para uma descida em direcção ao intervalo entre US$ 4.320 e US$ 4.351. No sentido inverso, a capacidade de permanecer acima do suporte poderá preservar a recuperação iniciada em Junho.
O metal enfrenta também uma resistência próxima da sua média móvel de 200 dias, situada em torno de US$ 4.504 por onça. A aproximação deste patamar, depois de uma recuperação rápida, poderá estimular a realização de lucros.
A divulgação das actas da Reserva Federal deverá determinar se o mercado volta a testar as resistências superiores ou aprofunda a correcção. Uma leitura mais favorável ao aumento dos juros tenderá a elevar os rendimentos e pressionar o ouro. Uma posição mais cautelosa poderá enfraquecer o dólar e devolver atractividade ao metal.
Restantes Metais Também Recuam
A pressão estendeu-se aos outros metais preciosos. A prata caiu 1%, para US$ 65,11 por onça, enquanto a platina perdeu 1,2%, para US$ 1.748,56. O paládio recuou igualmente 1,2%, para US$ 1.317,01.
Ao contrário do ouro, estes metais possuem uma exposição industrial mais significativa. A sua evolução depende não apenas das taxas de juro e do dólar, mas também das perspectivas para a indústria automóvel, electrónica, energia solar e actividade manufactureira.
A queda conjunta indica que, nesta sessão, o aumento dos rendimentos das obrigações e a incerteza sobre a política monetária tiveram maior peso do que a procura por protecção geopolítica.
O ouro permanece, deste modo, entre duas narrativas concorrentes: a possibilidade de prolongamento do conflito sustenta o seu papel como activo de refúgio, enquanto o petróleo mais caro eleva o risco inflacionário e mantém aberta a possibilidade de juros elevados. As actas da Reserva Federal poderão determinar qual destas forças dominará o mercado nas próximas sessões.
Fonte: O Económico




