A Província de Gaza possui condições para assumir uma posição mais relevante na produção alimentar, agro-industrialização e substituição competitiva de importações em Moçambique, mas a concretização desse potencial exige uma reorganização profunda do sistema agrícola.
A missão de monitoria do Ministério da Planificação e Desenvolvimento identificou uma economia rural que conserva conhecimento produtivo, áreas irrigadas, empresas, associações, investigação agrícola e proximidade aos grandes mercados consumidores do Sul do País.
As cheias de Janeiro de 2026, contudo, danificaram canais, diques, bombas, estradas, estufas, tanques, aviários e equipamentos de irrigação. O desastre reduziu a produção, interrompeu cadeias de abastecimento e agravou as dificuldades financeiras de empresas e agricultores.
A recuperação está em curso, mas o balanço da missão mostra que a transformação de Gaza exige mais do que devolver os produtores à situação anterior. O desafio consiste em elevar produtividade, aumentar a escala, organizar os mercados e ligar a produção primária à indústria.
Regadios Constituem Capital Produtivo Estratégico
Os regadios de Chókwè e do Baixo Limpopo são activos estruturantes da economia agrícola de Gaza.
O sistema de Chókwè possui capacidade para prestar serviços de irrigação a mais de 33 mil hectares. O regulador geral, reabilitado entre 2002 e 2003, tem capacidade de adução de 43 metros cúbicos por segundo e é constituído por oito comportas.
As cheias danificaram muros, banquetas, tomadas de água e diques, além de provocarem o assoreamento de canais. Estes danos reduzem a capacidade de controlar os fluxos e assegurar água regularmente aos produtores.
Quando um sistema de irrigação perde funcionalidade, o impacto económico ultrapassa a infra-estrutura. Agricultores reduzem as áreas cultivadas, trabalhadores sazonais perdem oportunidades, empresas recebem menos matéria-prima e os mercados enfrentam menor oferta.
O regadio deve, por isso, ser entendido como capital produtivo colectivo. Nenhum agricultor isolado possui capacidade para construir, manter e proteger um sistema desta dimensão. A sua funcionalidade depende de investimento público, gestão técnica, manutenção permanente e contribuição organizada dos utilizadores.
Chiguidela Retira 2.600 Hectares Da Produção
O rombo do canal principal em Chiguidela constitui um dos exemplos mais claros da relação entre infra-estrutura hidráulica e actividade económica.
O canal fornece água aos povoados de Chiguidela e Chalucuane, cobrindo aproximadamente 2.600 hectares e beneficiando cerca de 1.300 agricultores.
O troço possui uma dupla função: canal de rega e dique de defesa. A sua ruptura interrompeu o fornecimento de água, expôs comunidades a novas inundações e retirou áreas férteis da produção.
A paralisação cria efeitos em cadeia: perda de culturas, aumento do desemprego rural, insegurança alimentar, redução do rendimento das famílias e menor oferta para os mercados.
As estimativas apresentadas durante a missão colocam o custo da intervenção entre aproximadamente 66 milhões e 76 milhões de meticais, dependendo da solução técnica e dos componentes incluídos.
O balanço da missão recomenda uma intervenção de emergência para restabelecer o fluxo de água e permitir a retoma agrícola, acompanhada por uma solução definitiva de reabilitação do dique, canal e estrada.
Esta combinação é fundamental. A solução emergencial protege a próxima campanha agrícola; a intervenção estrutural reduz o risco de uma nova paralisação.
Manutenção Deve Deixar De Ser Uma Resposta Ocasional
A missão identificou assoreamento, crescimento de vegetação e degradação das valas de drenagem em diferentes pontos dos regadios.
Estes problemas mostram que a sustentabilidade não é determinada apenas pelos grandes investimentos de reconstrução. A manutenção regular é igualmente importante.
A ausência de limpeza dos canais reduz progressivamente a capacidade hidráulica, aumenta o risco de transbordo e torna as intervenções futuras mais caras. Pequenas falhas acumuladas podem transformar-se em danos estruturais durante as cheias.
O actual modelo de gestão foi considerado excessivamente burocrático, com procedimentos demorados para autorizar despesas operacionais e mobilizar intervenções de emergência.
Uma gestão economicamente eficiente deverá permitir a contratação sazonal de trabalhadores, aquisição de combustível, mobilização de máquinas e execução rápida de pequenas obras.
A rigidez administrativa gera custos económicos. Enquanto uma despesa aguarda autorização, produtores perdem água, culturas e rendimento.
Agricultura Cientificamente Ancorada
Salim Valá defendeu que Moçambique deve avançar para uma agricultura “cientificamente ancorada”, baseada em sementes melhoradas, investigação, irrigação, mecanização, fertilizantes, fitofármacos e conhecimento técnico.
A posição responde a uma limitação estrutural: grande parte dos produtores explora áreas reduzidas com tecnologias de baixa produtividade.
De acordo com o Ministro, o País possui cerca de 5,2 milhões de produtores, maioritariamente pequenos agricultores com pouco mais de um hectare. A transformação da agricultura exige que este grupo aumente a produtividade e passe a participar em cadeias de valor mais organizadas.
O crescimento da produtividade é particularmente importante porque permite obter mais produção na mesma área, elevar o rendimento dos agricultores e reduzir o custo unitário dos alimentos.
Sem produtividade, a expansão agrícola depende sobretudo da abertura de novas áreas, aumentando custos logísticos e ambientais. Com tecnologia, irrigação e conhecimento, o crescimento pode ocorrer através da utilização mais eficiente da terra disponível.
Sementes De Trigo Abrem Possibilidade De Substituição De Importações
Os ensaios conduzidos pela Wanbao constituem uma das iniciativas mais estratégicas observadas pela missão.
A empresa está a testar variedades de trigo adaptadas às condições locais, em articulação com as instituições de investigação agrária. Os resultados preliminares indicam níveis de qualidade próximos de 99% e potencial de produtividade de até sete toneladas por hectare.
A fase seguinte deverá envolver pequenos produtores, permitindo disseminar sementes adaptadas e ampliar a produção.
Salim Valá destacou que o trigo representa uma factura significativa de importação e exige a utilização de divisas. A produção nacional poderia substituir parte dessas compras externas, reduzir a exposição cambial e criar uma nova cadeia de valor agrícola e industrial.
A substituição não significa eliminar todas as importações. O objectivo económico consiste em produzir internamente uma parcela em condições competitivas, sobretudo quando existem terra, água, tecnologia e procura assegurada.
A cadeia do trigo poderá envolver produção de sementes, cultivo, mecanização, armazenamento, transporte, moagem, fabrico de massas, panificação e distribuição.
O impacto potencial, portanto, não se limita ao campo. Estende-se à indústria alimentar, ao comércio, à logística e ao emprego urbano.
Arroz Mantém Importância Estratégica
A produção de arroz constitui outro eixo de desenvolvimento agrícola em Gaza.
A cultura beneficia da experiência existente nos regadios, da procura interna e da possibilidade de processamento local. A unidade da Wanbao em Chongoene acrescenta uma dimensão industrial à cadeia, permitindo transformar a produção antes de chegar ao mercado.
Uma cadeia de arroz funcional exige regularidade no fornecimento de água, sementes de qualidade, mecanização, secagem, armazenamento, processamento e distribuição.
Quando estes componentes não estão coordenados, o produtor enfrenta dificuldades para comercializar e a indústria funciona abaixo da capacidade.
A recuperação dos sistemas de irrigação poderá, por isso, aumentar simultaneamente a produção agrícola e a utilização das unidades industriais existentes.
Papa Pesca Mostra Potencial Da Integração Produtiva
A Papa Pesca representa um modelo de agronegócio integrado com capacidade para gerar efeitos em várias cadeias económicas.
A empresa, detida por capitais moçambicanos, investiu cerca de 320 milhões de meticais desde 2016. Possui 151 tanques de aquacultura, 52 tanques de reprodução de tilápia e capacidade para incubar aproximadamente três milhões de alevinos por ano.
Na avicultura, dispõe de quatro aviários com capacidade anual para cerca de 520 mil aves. A empresa também desenvolve a produção de proteína a partir da mosca-soldado-negra, procurando reduzir a dependência de ingredientes convencionais e importados para o fabrico de rações.
A unidade emprega actualmente cerca de 120 trabalhadores, depois de ter alcançado mais de 250 postos de trabalho no momento de maior utilização da capacidade.
As cheias danificaram tanques e aviários, causando perdas estimadas em três milhões de meticais. A escassez de casca de arroz, utilizada nos aviários, obrigou a empresa a recorrer a circuitos de abastecimento mais longos e dispendiosos.
O preço de aquisição deste insumo terá passado de menos de dez meticais para aproximadamente 100 meticais por saco, segundo o balanço da missão.
A situação demonstra a importância dos encadeamentos produtivos. A redução da produção de arroz não afecta apenas os produtores e processadores do cereal. Também limita a disponibilidade de subprodutos utilizados noutras actividades, como a avicultura.
Economia Circular Pode Reduzir Dependência De Insumos
A produção de proteína a partir da mosca-soldado-negra constitui uma resposta inovadora ao custo das rações.
O modelo utiliza resíduos orgânicos para produzir larvas com elevado teor proteico, que podem ser incorporadas na alimentação de peixes e aves.
A empresa pretende aumentar a produção das actuais 50 toneladas para cerca de 500 toneladas por ano.
Esta expansão poderá reduzir a dependência de ingredientes importados, diminuir custos, aproveitar resíduos e criar uma cadeia local de produção de proteína animal.
A iniciativa mostra como a inovação pode responder simultaneamente a três desafios: escassez de divisas, custo dos insumos e gestão de resíduos.
Também aproxima agricultura, aquacultura, avicultura e tecnologia, criando maior densidade económica dentro do próprio território.
Formação Transforma Empresa Em Plataforma De Desenvolvimento
A Papa Pesca não funciona apenas como unidade de produção. A empresa possui um centro de formação prática em aquacultura que já capacitou 96 jovens.
A incubadora forma cerca de 12 jovens por ciclo, combinando aprendizagem teórica e prática. Os beneficiários recebem kits e apoio inicial para desenvolver actividades próprias nas suas províncias de origem.
Em parceria com programas públicos, a empresa perspectiva ampliar a incubação para 70 jovens.
Este modelo transforma uma empresa numa plataforma de disseminação de conhecimento. O impacto não se limita aos postos de trabalho directos. Multiplica-se quando os formandos criam unidades de produção, contratam trabalhadores e aplicam a tecnologia noutras regiões.
A formação associada a uma unidade empresarial em funcionamento possui uma vantagem: os participantes aprendem num ambiente real de produção, custos, riscos e mercados.
Pequenos Produtores Possuem Capacidade, Mas Falta Escala
As visitas à Associação Guinguiricane e aos produtores de Chivonguene mostraram uma base de pequenos agricultores com experiência na produção de hortícolas, leguminosas e sementes.
A Associação Guinguiricane possui 64 hectares, dos quais pouco mais de 40 hectares se encontravam em exploração antes dos danos provocados pelas cheias. As mulheres constituem a maioria dos membros.
A associação beneficiou de equipamentos de irrigação, estufa, painéis solares, tabuleiros, sementes e capacitação. Parte desses activos foi destruída pelo desastre.
Os produtores enfrentam custos elevados de combustível, fertilizantes e aluguer de tractores. A perda de animais também reduziu a disponibilidade de tracção, aumentando a dependência da mecanização contratada.
Em Guijá, produtores de sementes de feijão e milho demonstraram capacidade de produzir acima das quantidades absorvidas pelos programas que apoiam a actividade. A expansão da oferta, porém, não foi acompanhada por mercados suficientes.
O resultado foi a redução dos preços e a necessidade de vender rapidamente para evitar perdas.
Esta situação mostra que aumentar a produção sem desenvolver comercialização, armazenamento e processamento pode transferir o risco para os agricultores.
Informação De Preços É Parte Da Infra-Estrutura Do Mercado
Os produtores relataram reduzida capacidade para influenciar os preços, que são frequentemente definidos pelos compradores.
A assimetria de informação enfraquece a posição negocial dos agricultores. Sem dados sobre preços praticados noutros mercados, procura disponível, volumes e custos de transporte, o produtor aceita condições que podem não reflectir o valor económico da sua produção.
Um sistema de informação de mercados pode reduzir esta assimetria, permitindo comparar compradores, planificar culturas e decidir o momento de venda.
A organização em cooperativas pode igualmente aumentar o poder negocial, concentrar volumes e reduzir os custos individuais de transporte, armazenamento e aquisição de insumos.
O entreposto de Bilene poderá desempenhar uma função importante nesta arquitectura, desde que combine espaço físico com informação, conservação, classificação e mecanismos transparentes de comercialização.
Agro-Processamento Deve Absorver A Produção
Os produtores defenderam a instalação de pequenas unidades de processamento para aumentar o valor da produção local.
O agro-processamento pode reduzir perdas, prolongar a vida útil dos produtos e criar novos mercados. Tomate, frutas, hortícolas, feijão, milho e outros produtos podem ser classificados, embalados, conservados ou transformados antes de serem comercializados.
Sem processamento, os agricultores ficam mais expostos à sazonalidade. Quando muitos produtores colhem simultaneamente, a oferta aumenta, os preços caem e uma parte da produção deteriora-se.
A indústria absorve os excedentes, estabiliza a procura e acrescenta valor. Também cria emprego fora do campo, incluindo actividades de embalagem, manutenção, controlo de qualidade, transporte e comercialização.
O futuro Parque Industrial do Limpopo poderá funcionar como destino natural para algumas destas unidades, aproximando a indústria das matérias-primas e dos corredores de distribuição.
Financiamento Continua A Ser Uma Restrição Transversal
Empresas e associações identificaram o acesso limitado ao financiamento como um dos principais constrangimentos à recuperação e expansão.
Pequenos produtores precisam de recursos para sementes, fertilizantes, combustível, sistemas de rega e pagamento de trabalhadores sazonais. Empresas de maior dimensão necessitam de capital para recuperar infra-estruturas, importar equipamentos e voltar a utilizar plenamente a capacidade instalada.
Depois de uma calamidade, o problema torna-se mais complexo. Os activos utilizados como garantia podem estar danificados, as receitas diminuem e o risco percebido pelas instituições financeiras aumenta.
O resultado é um paradoxo: o produtor necessita de mais financiamento precisamente quando possui menor capacidade para cumprir os critérios convencionais do crédito.
A resposta requer instrumentos diferenciados, incluindo garantias, linhas de recuperação, crédito bonificado, seguros agrícolas e financiamento associado a contratos de compra.
O Fundo de Desenvolvimento Económico Local pode apoiar iniciativas de menor escala, mas o seu impacto será maior se estiver articulado com assistência técnica, mercados e acompanhamento dos reembolsos.
Transformação Exige Arquitectura Financeira E Técnica
Salim Valá defendeu a mobilização de aproximadamente 500 milhões de dólares por ano, durante quatro anos, para acelerar a transformação da agricultura nacional.
O montante acumulado poderá aproximar-se de dois mil milhões de dólares, combinando recursos internos e financiamento mobilizado junto de parceiros.
Segundo o Ministro, o investimento deverá concentrar-se na produtividade dos pequenos produtores e nas cadeias de valor com maior potencial.
A dimensão financeira proposta mostra que a transformação agrícola não poderá resultar de intervenções fragmentadas. Exige programas com escala, continuidade, capacidade técnica e coordenação entre irrigação, investigação, financiamento, mecanização, insumos, extensão, mercados e indústria.
Os regadios de Chókwè e Baixo Limpopo foram identificados como áreas prioritárias pela capacidade de combinar água, terra, experiência produtiva e proximidade aos mercados.
Gaza Pode Tornar-Se Plataforma Agro-Industrial
A vantagem de Gaza não reside apenas na extensão das áreas agrícolas. Está na possibilidade de integrar diferentes componentes de uma economia agro-industrial.
A província possui regadios, produtores, empresas, investigação de sementes, unidades avícolas e aquícolas, processamento de arroz, corredores rodoviários e proximidade do maior mercado consumidor do País.
O entreposto de Bilene pode organizar a comercialização. O Parque Industrial do Limpopo pode concentrar agro-indústrias e logística. Os regadios podem assegurar oferta regular. A investigação pode elevar a produtividade. As empresas podem incubar jovens e difundir tecnologias.
Quando estas componentes funcionam de forma articulada, o território deixa de ser apenas uma zona de produção primária e passa a constituir um sistema produtivo.
A oportunidade estratégica consiste em converter a reconstrução pós-cheias numa transição para uma agricultura mais produtiva, comercial, tecnologicamente apoiada e ligada à indústria.
Gaza poderá, assim, aumentar a produção alimentar, reduzir importações, preservar divisas, criar emprego e abastecer mercados nacionais e regionais.
A transformação exige que água, conhecimento, financiamento, estradas, mercados e indústria sejam tratados como partes da mesma economia agrícola
Fonte: O Económico







