Os preços do petróleo recuaram mais de um dólar no início da semana, à medida que os investidores realizaram lucros antes do anúncio de um novo pacote de sanções dos Estados Unidos contra o Irão.
Segundo a Reuters, os futuros do Brent caíram 1,23 dólares, ou 1,3%, para 93,16 dólares por barril. O West Texas Intermediate, referência do mercado norte-americano, perdeu 1,36 dólares, ou 1,6%, passando para 85,70 dólares.
A descida ocorreu depois de ambos os contratos terem acumulado ganhos superiores a 5% na semana anterior, na sequência do impasse nas negociações entre Washington e Teerão e das persistentes limitações ao transporte de petróleo através do Estreito de Hormuz.
O movimento representa uma correcção de curto prazo, e não uma melhoria das condições de oferta. Os inventários estão a diminuir, as exportações do Médio Oriente continuam abaixo dos níveis anteriores ao conflito e os compradores asiáticos enfrentam menor disponibilidade de petróleo iraniano.
Washington Procura Alargar o Isolamento Económico
O secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent, deverá apresentar as novas medidas contra o Irão, descritas por Washington como as mais severas alguma vez aplicadas ao país. O presidente Donald Trump também ameaçou impor sanções aos parceiros comerciais de Teerão.
A estratégia poderá incidir sobre compradores de petróleo, bancos, refinarias, armadores, seguradoras e operadores logísticos envolvidos nas exportações iranianas. O objectivo será dificultar tanto a venda do crude como a recepção e movimentação das receitas obtidas.
Ao contrário de uma sanção limitada a entidades iranianas, as chamadas sanções secundárias procuram alterar as decisões de empresas e governos estrangeiros. Uma instituição que continue a negociar com o Irão poderá perder acesso ao sistema financeiro norte-americano, ao dólar ou ao mercado dos Estados Unidos.
Este mecanismo concede a Washington um alcance que ultrapassa as suas fronteiras. A sua eficácia dependerá, porém, da disposição dos principais compradores para reduzir as transacções e da capacidade iraniana de recorrer a intermediários, pagamentos alternativos, transferências entre navios e frotas menos transparentes.
Vivek Dhar, analista de matérias-primas do Commonwealth Bank of Australia, considerou, numa nota citada pela Reuters, que permanece incerto se a tentativa norte-americana de isolar economicamente o Irão produzirá os resultados pretendidos. Na sua avaliação, quanto maior for a eficácia das medidas, maior poderá ser o incentivo para Teerão responder através de acções capazes de afectar os mercados energéticos.
China É Decisiva Para a Eficácia das Medidas
A China constitui o principal destino do petróleo iraniano transportado por via marítima. Dados da Kpler citados pela Reuters indicam que o país absorveu mais de 80% desses volumes em 2025.
A concentração das exportações num único mercado torna Pequim determinante para a eficácia das sanções. Se as refinarias chinesas continuarem a adquirir petróleo iraniano, Teerão poderá conservar parte das suas receitas externas. Caso bancos, refinarias e transportadores reduzam a exposição, a oferta iraniana disponível no mercado internacional poderá diminuir ainda mais.
Fontes comerciais ouvidas pela Reuters indicaram que as ofertas de crude iraniano aos compradores chineses diminuíram e os preços aumentaram. As exportações iranianas terão recuado para cerca de 534 mil barris diários em Agosto, comparativamente à média de 1,4 milhões de barris por dia registada em 2025.
A mesma informação aponta para uma redução do petróleo iraniano armazenado em navios fora da zona de bloqueio, de aproximadamente 105 milhões para 80 milhões de barris. Apenas cerca de 30 milhões estariam em águas asiáticas.
A alteração já influencia as decisões das refinarias independentes chinesas, que tradicionalmente compram petróleo iraniano com desconto. Com menor disponibilidade e preços mais elevados, parte dessas empresas procura alternativas no Brasil, no Iraque e noutros fornecedores.
Estreito Continua a Determinar o Prémio Geopolítico
O Estreito de Hormuz permanece no centro da formação dos preços. Antes do conflito, era a principal passagem marítima do petróleo produzido no Golfo Pérsico.
Segundo a Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos, o tráfego através do Estreito atingiu uma média de 21,6 milhões de barris diários no quarto trimestre de 2025. No segundo trimestre de 2026, esse volume tinha caído para 4,9 milhões de barris por dia.
A diferença mostra que o risco actual não se limita às exportações do Irão. As limitações na rota afectam igualmente produtores como Arábia Saudita, Iraque, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Qatar e Bahrein, embora alguns disponham de oleodutos e terminais alternativos.
O Irão autorizou recentemente a passagem de alguns petroleiros iraquianos, depois de pedidos apresentados por Bagdad, segundo a agência estatal iraniana IRNA. A autorização selectiva demonstra, contudo, que os fluxos permanecem dependentes de decisões políticas e de segurança.
A incerteza sobre a circulação de navios aumenta os prémios de seguro, os custos de frete e o risco operacional. Mesmo quando o petróleo consegue sair da região, o custo total de entrega pode permanecer elevado devido às exigências de segurança, aos atrasos e à menor disponibilidade de embarcações.
Oferta Mundial Continua Abaixo dos Níveis Anteriores
A Agência Internacional de Energia estima que a oferta mundial de petróleo atingiu 101,5 milhões de barris diários em Julho, depois de aumentar 2,4 milhões face ao mês anterior. Ainda assim, permaneceu 6,3 milhões de barris por dia abaixo do nível registado um ano antes.
No seu relatório de Agosto, a Agência indicou que cerca de 8,3 milhões de barris diários de produção do Golfo continuavam interrompidos. As novas hostilidades e perturbações marítimas levaram a instituição a reduzir em 1,7 milhões de barris diários a previsão de oferta para o terceiro trimestre.
Para o conjunto de 2026, a Agência Internacional de Energia projecta uma contracção média de 4,3 milhões de barris por dia na oferta mundial. A produção poderá recuperar em 2027, mas a normalização dependerá da segurança das rotas, da reposição da capacidade operacional e da retoma dos fluxos comerciais.
A existência de capacidade produtiva não significa disponibilidade imediata no mercado. Quando os terminais e rotas marítimas estão limitados, os produtores podem ser obrigados a reduzir a extracção porque não conseguem escoar ou armazenar os volumes.
A Agência Internacional de Energia assinalou também que as perdas de fornecimento do Médio Oriente provocaram, entre Fevereiro e Maio, a redução mais rápida de sempre dos inventários globais. Depois de uma recuperação temporária em Junho, as reservas voltaram a cair em Julho.
Inventários Reduzidos Limitam Margem de Segurança
O Morgan Stanley advertiu que as últimas semanas registaram uma das quedas mais acentuadas no volume de petróleo transportado ou armazenado no mar. Os inventários terrestres também estão a diminuir, incluindo na China.
Segundo os analistas do banco, várias fontes de acompanhamento colocam as exportações agregadas do Médio Oriente novamente nos níveis observados entre Março e Abril. O Morgan Stanley reviu, por isso, o ritmo esperado de recuperação do fornecimento regional.
A redução dos inventários significa que o mercado dispõe de menor capacidade para compensar interrupções inesperadas. Em períodos de reservas elevadas, os compradores conseguem responder a uma falha temporária recorrendo aos stocks existentes. Quando as reservas diminuem, qualquer perturbação possui maior capacidade para provocar oscilações nos preços.
Este quadro ajuda a explicar por que razão o Brent permanece acima de 90 dólares, apesar da descida registada na sessão. O mercado está a avaliar não apenas os barris actualmente disponíveis, mas também a capacidade de substituir rapidamente uma eventual perda adicional.
África Enfrenta Custos de Importação Mais Elevados
Para as economias africanas importadoras de combustíveis, a combinação entre preços elevados, fretes mais caros e volatilidade cambial afecta as contas externas e os custos internos de produção.
O impacto começa na aquisição de gasolina, gasóleo, combustível de aviação e outros derivados. Transmite-se depois ao transporte de pessoas e mercadorias, à agricultura mecanizada, à indústria, à construção e à produção de electricidade nos sistemas dependentes de combustíveis líquidos.
Nos países que subsidiam os combustíveis, a subida pode aumentar as necessidades orçamentais. Onde os preços são ajustados ao mercado, o efeito tende a chegar mais rapidamente às famílias e empresas através da inflação.
Moçambique enfrenta uma exposição dupla. Como importador de produtos petrolíferos refinados, suporta o aumento da factura energética e dos custos logísticos. Como produtor e futuro grande exportador de gás natural liquefeito, pode beneficiar de preços internacionais de energia mais elevados e de maior procura por fontes alternativas.
Os dois efeitos não ocorrem, porém, no mesmo horizonte. O encarecimento dos combustíveis possui repercussões imediatas sobre transportes, empresas e consumidores, enquanto os benefícios fiscais dos grandes projectos de gás são graduais e dependem do calendário de produção, dos contratos e da estrutura de recuperação dos investimentos.
A descida desta segunda-feira oferece, assim, pouca evidência de uma normalização sustentável. As sanções podem retirar mais petróleo iraniano do mercado, mas também podem elevar o risco de resposta militar e de novas limitações às exportações do Golfo. Com inventários em queda e menor capacidade de substituição imediata, o mercado petrolífero continuará sensível a qualquer alteração no equilíbrio entre Washington e Teerão.
Fonte: O Económico





