O dólar dos Estados Unidos iniciou a semana próximo de mínimos de vários meses, condicionado pelas preocupações com o crescimento da dívida soberana e pela decisão do Tesouro norte-americano de aumentar as recompras de obrigações de longo prazo.
Segundo a Reuters, o mercado interpretou a iniciativa como um sinal de que o Governo procura conter a subida dos rendimentos das obrigações. Embora as recompras tenham como objectivo formal melhorar a liquidez e o funcionamento do mercado, a sua dimensão e o momento do anúncio alimentaram receios sobre uma intervenção mais directa na formação das taxas de longo prazo.
A moeda norte-americana não conseguiu beneficiar plenamente dos dados que mostraram o crescimento mais forte da actividade de serviços em quase dois anos. O comportamento revela que as preocupações fiscais e a credibilidade da política económica se tornaram, temporariamente, mais relevantes para o mercado cambial do que os indicadores de curto prazo da economia.
O dólar registou a maior queda semanal face ao Bitcoin em aproximadamente três anos e meio. A moeda digital valorizou perto de 23%, enquanto o ouro avançou cerca de 5%, numa deslocação de capitais para activos considerados alternativas às moedas soberanas.
Tesouro Duplica Recompras de Obrigações Longas
O Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou que aumentará de dois mil milhões para pelo menos quatro mil milhões de dólares o valor máximo de cada operação de recompra de obrigações nos segmentos de 10 a 20 anos e de 20 a 30 anos.
Segundo o próprio Tesouro, a alteração entrará em vigor a 9 de Setembro de 2026 e terá como finalidade apoiar a liquidez dos títulos de longo prazo.
O programa permite ao Governo recomprar obrigações antigas, que possuem menor liquidez, e substituí-las por novas emissões mais facilmente negociáveis. Em condições normais, este mecanismo melhora o funcionamento do mercado e reduz diferenças excessivas entre títulos semelhantes.
A reacção cambial mostra, porém, que os investidores estão a analisar a decisão num contexto mais amplo. Os rendimentos das obrigações a 30 anos atingiram recentemente máximos próximos de duas décadas, impulsionados por expectativas de inflação, crescimento económico e aumento das necessidades de financiamento público.
O mercado de obrigações do Tesouro norte-americano possui uma dimensão aproximada de 32 biliões de dólares. Neste universo, recompras de quatro mil milhões por operação são reduzidas. O impacto surgiu menos da quantidade anunciada e mais do sinal de que as autoridades estão preocupadas com o comportamento das taxas longas.
Shane Oliver, responsável pela estratégia de investimento da AMP, considerou, numa declaração citada pela Reuters, que as tentativas do Tesouro de conter artificialmente os rendimentos de longo prazo estão a reactivar as operações baseadas numa possível perda de valor do dólar.
“Debasement Trade” Ganha Espaço
A expressão inglesa “debasement trade” descreve a procura por activos que os investidores acreditam poder preservar valor quando uma moeda perde poder de compra devido à inflação, expansão monetária ou deterioração fiscal.
O ouro e o Bitcoin foram os principais beneficiários deste movimento. A Reuters indicou que o dólar registou a sua maior queda semanal face ao Bitcoin em quase três anos e meio. O Financial Times calculou uma valorização semanal de cerca de 23% da moeda digital.
No mercado de metais preciosos, o ouro ultrapassou os 4.600 dólares por onça e atingiu máximos de mais de três meses. Segundo a Reuters, a subida foi apoiada pela fragilidade do dólar, pelas tensões geopolíticas e pela expectativa em torno dos dados de inflação dos Estados Unidos.
A compra de ouro e activos digitais não significa que o dólar tenha perdido a sua posição central no sistema internacional. A moeda continua a dominar as reservas, o comércio de matérias-primas, as transacções financeiras e o financiamento global.
O movimento indica, contudo, que os investidores estão dispostos a reduzir parte da exposição ao dólar quando percebem menor disciplina fiscal ou interferência na formação dos rendimentos das obrigações.
Jackson Hole Pode Alterar Expectativas Sobre os Juros
A atenção volta-se agora para o discurso do presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, no simpósio de Jackson Hole.
Segundo o Federal Reserve Bank de Kansas City, o encontro decorrerá entre 27 e 29 de Agosto, sob o tema “Inovação Financeira: Implicações Para os Pagamentos e a Política”.
Os investidores procurarão indicações sobre a trajectória das taxas de juro, a gestão do balanço da Reserva Federal e a resposta do banco central à subida dos rendimentos de longo prazo.
Geoff Yu, estratega do BNY, afirmou à Reuters que observações sobre o balanço, a oferta de títulos por maturidade ou o prémio de prazo poderão influenciar mais as obrigações longas do que os próprios dados económicos.
O prémio de prazo corresponde à compensação adicional exigida pelos investidores para manter títulos de longa duração, sujeitos a maiores riscos de inflação, taxa de juro e incerteza fiscal. Quando este prémio aumenta, os rendimentos longos podem subir mesmo sem alteração imediata da taxa directora da Reserva Federal.
A intervenção de Warsh será particularmente sensível porque a política monetária e a gestão da dívida pública estão a produzir sinais que o mercado pode interpretar como contraditórios. Enquanto a Reserva Federal procura preservar a estabilidade dos preços, o Tesouro tenta melhorar a liquidez num mercado afectado pelo aumento das emissões e dos rendimentos.
Euro Beneficia da Fragilidade Norte-Americana
O euro era negociado a 1,1685 dólares, confortavelmente acima de 1,16 dólares. O desempenho resultou sobretudo da fraqueza da moeda norte-americana, embora a subida dos rendimentos soberanos também tenha ocorrido em várias economias europeias.
A libra mantinha-se em 1,3650 dólares, enquanto os dólares australiano e neozelandês eram negociados próximos de máximos de três meses, em 0,7171 e 0,5979 dólares, respectivamente.
As moedas da Austrália e Nova Zelândia beneficiaram do maior interesse por alternativas ao dólar e da procura por moedas associadas às matérias-primas. O dólar australiano permaneceu acima de 71 cêntimos norte-americanos, apesar das incertezas comerciais e da volatilidade nos mercados energéticos.
O Yuan acumulou a oitava semana consecutiva de valorização e situava-se próximo de um máximo de três anos e meio, em 6,7222 por dólar. A evolução da moeda chinesa adquire especial relevância perante a possibilidade de as novas sanções dos Estados Unidos contra o Irão atingirem compradores chineses de petróleo.
Yen Aguarda Sinais do Banco do Japão
O Yen negociava no lado mais forte de 159 por dólar, beneficiando da fragilidade da moeda norte-americana e das expectativas de maior normalização monetária no Japão.
O Banco do Japão confirmou que o vice-governador Ryozo Himino discursará na quinta-feira, 27 de Agosto, num encontro com dirigentes locais em Saitama. Os investidores procurarão saber se o banco central pretende acelerar o ritmo de aumento dos juros.
Joe Capurso, estratega do Commonwealth Bank of Australia, considerou, numa nota citada pela Reuters, que Himino poderá sinalizar uma maior proximidade de uma nova subida da taxa directora.
O efeito sobre o Yen poderá, contudo, ser limitado. A diferença entre os rendimentos norte-americanos e japoneses continua a constituir um dos principais determinantes da taxa de câmbio. Quando as obrigações dos Estados Unidos oferecem rendimentos muito superiores aos títulos japoneses, os investidores encontram incentivo para manter posições em dólares.
Por esta razão, a evolução do par dólar/Yen dependerá tanto do Banco do Japão como do comportamento da dívida norte-americana. Uma descida consistente dos rendimentos nos Estados Unidos poderia favorecer a apreciação do Yen. Uma nova subida teria o efeito contrário.
Dólar Canadiano Reflecte Escalada Comercial
O dólar canadiano depreciou-se 0,2%, para 1,3798 por dólar dos Estados Unidos, depois do fracasso das negociações comerciais entre os dois países.
Segundo a Reuters, Washington aplicou tarifas de 50% sobre produtos canadianos, levando o Canadá a anunciar medidas de retaliação.
A integração das cadeias produtivas norte-americanas e canadianas significa que tarifas elevadas podem aumentar custos para empresas dos dois lados da fronteira. O efeito cambial dependerá da intensidade da redução das exportações canadianas, da resposta da política monetária e do comportamento dos preços das matérias-primas.
Embora o dólar norte-americano esteja a enfraquecer perante várias moedas, continua a valorizar face ao dólar canadiano. Esta diferença mostra que os movimentos cambiais não dependem apenas da situação nos Estados Unidos, mas também da vulnerabilidade específica de cada parceiro comercial.
Implicações Para Moçambique Não São Automáticas
Uma queda do dólar nos mercados internacionais não implica necessariamente uma apreciação equivalente do Metical. A taxa de câmbio doméstica depende da oferta e procura de divisas em Moçambique, das receitas de exportação, dos pagamentos de importações, dos fluxos de investimento e da actuação do Banco de Moçambique.
Ainda assim, a trajectória internacional da moeda norte-americana possui efeitos importantes. O dólar é utilizado no pagamento de combustíveis, equipamentos, matérias-primas, fretes e parte significativa da dívida externa.
Quando o dólar perde valor face a outras moedas internacionais, os preços de matérias-primas cotadas em dólares podem subir, anulando parte do benefício cambial. O ouro e o petróleo ilustram esta relação: ambos podem valorizar quando a moeda norte-americana enfraquece.
Para empresas moçambicanas, a gestão do risco cambial deve considerar não apenas o par dólar/Metical, mas também as moedas dos fornecedores. Uma importação proveniente da Europa pode tornar-se mais cara se o euro se valorizar face ao dólar, mesmo que a taxa entre o dólar e o Metical permaneça estável.
A evolução da moeda norte-americana durante esta semana dependerá de três factores: o alcance das sanções contra o Irão, a mensagem da Reserva Federal em Jackson Hole e a reacção do mercado às recompras de dívida. Mais do que a dimensão imediata das operações do Tesouro, os investidores avaliarão se a política económica norte-americana continua capaz de conciliar financiamento público, controlo da inflação e preservação da confiança no dólar.
Fonte: O Económico






