Por: Alfredo Júnior
O Papa Leão XIV apelou, domingo, 23 de Agosto, à comunidade internacional para reforçar a resposta ao surto de Ébola na República Democrática do Congo (RDC), que se tornou o maior já registado no país em número de casos confirmados e continua a provocar centenas de mortes.
A intervenção foi feita após a oração do Angelus, na Praça de São Pedro, no Vaticano. O pontífice afirmou que recorda frequentemente a população da RDC nas suas orações, sobretudo devido à propagação da epidemia, e pediu uma resposta internacional que envolva também as comunidades locais nos esforços de prevenção.
O apelo ocorre num momento particularmente grave para a resposta sanitária. Segundo os dados mais recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgados esta segunda-feira, 24 de Agosto, mais de 5.200 casos já foram registados desde o início do surto, que foi declarado em Maio deste ano. A transmissão continua a crescer mais rapidamente do que a capacidade de controlo das autoridades.
A OMS classifica o surto como doença provocada pelo vírus Bundibugyo, uma variante do vírus Ébola para a qual, actualmente, não existe vacina licenciada nem tratamento específico aprovado. A organização declarou a epidemia uma emergência de saúde pública de importância internacional em 17 de Maio, devido ao risco de propagação e à necessidade de coordenação internacional.
Os números mais recentes ajudam a dimensionar a crise. A OMS indica que cerca de 85% dos casos e 79% das mortes estão concentrados na província de Ituri, epicentro da epidemia. Nas últimas seis semanas, foram registadas, em média, cerca de 260 mortes por semana, sendo aproximadamente 60% destas ocorridas nas comunidades, fora dos centros de tratamento.
A elevada mortalidade fora das unidades sanitárias constitui uma das principais preocupações das autoridades, uma vez que revela dificuldades na identificação precoce dos casos, na referenciação dos doentes e no acesso atempado ao tratamento. A OMS alerta ainda que muitos pacientes chegam às unidades de saúde numa fase avançada da doença, reduzindo as possibilidades de sobrevivência.
O contexto de segurança também dificulta o combate à epidemia. A resposta decorre num ambiente marcado por conflitos e insegurança, deslocamentos populacionais, ataques contra instalações sanitárias, resistência de algumas comunidades e dificuldades de acesso a determinadas áreas. Estes factores tornam mais complexas a vigilância epidemiológica, a investigação de casos e o acompanhamento de pessoas que estiveram em contacto com doentes.
Apesar dos obstáculos, a resposta internacional registou alguns avanços. Segundo a OMS, a capacidade laboratorial passou de um único local de testagem para 19 laboratórios capazes de processar mais de 3.000 amostras por dia. A capacidade de tratamento também aumentou de menos de dez camas para mais de 1.300, enquanto mais de 900 unidades sanitárias receberam apoio para reforçar medidas de prevenção e controlo de infecções.
A OMS afirma ainda ter mobilizado mais de 260 especialistas e entregue mais de 330 toneladas de material médico e operacional. As campanhas de envolvimento comunitário já terão alcançado mais de 2,5 milhões de pessoas, enquanto o acompanhamento de contactos aumentou de apenas 9% na primeira semana da epidemia para 84% em 18 de Agosto.
A dimensão da epidemia tornou-se particularmente preocupante porque, no final de Julho, o actual surto ultrapassou o anterior recorde da RDC em número de casos confirmados, registado durante a epidemia de 2018-2020. Trata-se da 17.ª epidemia de Ébola registada no país desde a identificação do vírus, em 1976.
Outro desafio é a ausência de instrumentos médicos específicos contra o Bundibugyo. A OMS explica que, ao contrário do Ébola provocado pela variante Zaire, para a qual existe uma vacina licenciada, não há actualmente vacina aprovada nem terapêutica específica para a doença causada pelo Bundibugyo. A resposta depende, por isso, sobretudo da detecção precoce, isolamento, cuidados de suporte, rastreio de contactos, prevenção de infecções e envolvimento das comunidades.
O apelo de Leão XIV surge, assim, num momento em que a resposta precisa de ser ampliada para acompanhar uma epidemia que continua a avançar rapidamente. A OMS considera os próximos meses decisivos e defende uma mobilização mais intensa de recursos, vigilância e coordenação entre as autoridades nacionais, comunidades afectadas, países vizinhos e parceiros internacionais.





