O estudante moçambicano Cleiton Michaque está a testar um ‘drone’ com autonomia até 200 quilómetros e capacidade para transportar três quilogramas de carga, numa aposta para distribuir medicamentos e reduzir custos de entrega em zonas remotas de Moçambique.
“Em vez de usar a terra, por que não usamos o ar, o céu, como quem diz? Por que não usamos as vias aéreas? Com a minha capacidade de criar ‘drones’, acabei por desenvolver esse ‘delivery’ para facilitar os pilotos no transporte de medicamentos”, explica Cleiton, à Lusa.
O estudante, a frequentar o primeiro ano de Engenharia Eletrónica na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), a maior do país, pretende também responder às dificuldades de transporte de medicamentos e pequenas encomendas para comunidades onde cheias, rios ou estradas degradadas condicionam a circulação terrestre.
Para isso decidiu adaptar uma tecnologia habitualmente utilizada em filmagens e competições para uma solução de apoio à logística de produtos essenciais, após observar os constrangimentos de motociclistas responsáveis pela distribuição de medicamentos para localidades mais afastadas na província de Maputo.
O protótipo está ainda em fase final de testes, realizando atualmente voos experimentais de cerca de dois quilómetros, muitas vezes a partir da sua casa, no bairro Tsalala, na província de Maputo.
Equipado com GPS e sistema de navegação autónoma, o aparelho segue uma rota previamente programada, entrega a carga no destino e regressa automaticamente ao ponto de partida.
O modelo utiliza baterias importadas da África do Sul, que atualmente permitem voos entre 30 e 45 minutos, enquanto outros protótipos mais pequenos têm autonomia entre oito e 12 minutos. Agora, o estudante já vai testar novas configurações para alcançar uma autonomia máxima de 200 quilómetros: “Isso por conta do sistema de GPS que ele tem (…). Outro fator é que ele consegue alcançar zonas longínquas. Estamos a falar de outras províncias”.
O equipamento suporta tecnicamente até três quilogramas de carga, embora os ensaios estejam limitados a dois quilogramas por razões de segurança, permitindo transportar medicamentos, alimentos, água, roupa e outras pequenas encomendas.
“A capacidade é que ele consegue carregar cerca de três quilos, mas por fator de segurança, traçou-se que deve ser dois quilos. Então, com dois quilos conseguimos carregar várias coisas, como encomendas”, explica, afirmando que o mesmo “consegue aguentar ventos fortes”.
Para chegar a este resultado, Cleiton Michaque começou a construir ‘drones’ em 2019, ainda adolescente, recorrendo inicialmente ao computador do pai para aprender programação e eletrónica de forma autodidata. O primeiro protótipo exigiu meses de investigação, testes e sucessivas tentativas até conseguir levantar voo, experiência que considera determinante para os projetos que desenvolve atualmente.
Cleiton explica que fabricar um ‘drone’ — e já construiu do zero mais de uma dezena — exige conhecimentos de eletrónica, programação, mecânica e impressão tridimensional, além de um investimento elevado, uma vez que praticamente todos os componentes, motores, controladores, hélices, baterias e outros equipamentos, são importados, sobretudo da África do Sul.
Com todos os materiais disponíveis, estima conseguir produzir até cinco ‘drones’ por dia. E sonha produzir uma centena em duas semanas.
“Existem pessoas que podem dizer que: ‘ah, às vezes é só comprar uns componentes e juntar e acabou’, mas não é isso. Eu diria a mesma coisa, então compra o motor de um carro, compra pneus e monta o carro, quer ver será que o carro vai funcionar ou não”, diz, acrescentando que fazer um ‘drone’ exige programação, testes, impressão 3D e muito investimento, estimado em 200 mil meticais (2,7 mil euros).
As dificuldades, acrescenta, não foram apenas financeiras. Recorda que passou noites sem dormir a resolver problemas de programação e chegou a chorar quando o primeiro ‘drone’ não respondia aos comandos, até conseguir fazê-lo voar com recurso ao computador do pai, que mais tarde passou a apoiar a compra dos primeiros materiais.
“Ele é uma pessoa que realmente viu um potencial depois de várias dúvidas, porque ele via como algo inocente, mas depois que viu que eu realmente estava a dedicar-me”, afirmou.
Desde então, construiu 14 ‘drones’ destinados a filmagens, mapeamento, corridas e transporte de pequenas cargas. Guarda todos os modelos num expositor instalado no quarto, onde conserva o primeiro protótipo e os restantes aparelhos, cada um identificado com um nome e as respetivas características técnicas, como velocidade e autonomia.
Desenvolveu ainda sentinelas eletrónicas ligadas à Internet e teclados personalizados, como parte dos projetos de engenharia que tem vindo a realizar.
Nos últimos anos participou em iniciativas internacionais de tecnologia, incluindo uma deslocação ao Japão, e foi convidado para palestras e demonstrações em instituições de ensino, entre as quais a Escola Portuguesa de Maputo.
Paralelamente, criou o Centro de Criação e Controlo, através do qual já formou 17 jovens em pilotagem, programação e montagem de ‘drones’, procurando criar alternativas de formação e ocupação para jovens em situação de vulnerabilidade.
O estudante adianta que já recebeu manifestações de interesse de empresas públicas e privadas para utilização dos ‘drones’ em atividades de filmagem, cartografia, monitorização e outras operações técnicas, encontrando-se a analisar propostas de colaboração enquanto consolida uma ‘startup’ dedicada ao fabrico, manutenção, comercialização e formação nesta área.
O objetivo, acrescenta, passa por criar uma empresa moçambicana especializada em tecnologia de ‘drones’ e prosseguir estudos em engenharia, admitindo candidatar-se a bolsas de estudo no Japão, Portugal ou Califórnia, nos Estados Unidos – privilegiando Portugal pela proximidade linguística – para aprofundar conhecimentos e desenvolver soluções aplicáveis em Moçambique.
Fonte: Observador







