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Economia Mundial Divide-se em Três Blocos — e o Ocidente Já Não Surge Como Unidade

A economia mundial não está simplesmente a dividir-se entre um Ocidente liderado pelos Estados Unidos e um Oriente centrado na China. Está a organizar-se em três grandes blocos, nos quais os Estados Unidos e a União Europeia ocupam posições separadas, enquanto China e Rússia formam conjuntamente o terceiro núcleo.

Esta é a principal conclusão do estudo “A Three-Bloc Structure of the World Economy: Evidence of Geoeconomic Fragmentation in International Trade, Financial and Military Data”, de Eszter Boros e Tamás Ginter, publicado na edição de Junho de 2026 da revista Financial and Economic Review.

Ao contrário de grande parte da literatura, que começa por definir os blocos e depois calcula os efeitos da fragmentação, os autores procuram identificar os agrupamentos a partir dos próprios dados. Através de uma análise estatística de 89 países, concluíram que as relações comerciais, financeiras e militares formam três conjuntos centrados nos Estados Unidos, União Europeia e eixo China–Rússia.

A principal novidade não é a confirmação da proximidade entre Pequim e Moscovo. É a constatação de que os Estados Unidos e a União Europeia, apesar dos seus laços políticos, militares e históricos, já não constituem necessariamente um único bloco geoeconómico.

Fragmentação Não Significa Fim da Globalização

Boros e Ginter partem da definição do Fundo Monetário Internacional, segundo a qual a fragmentação geoeconómica corresponde a uma reversão da integração económica mundial impulsionada por políticas públicas e orientada por considerações estratégicas.

A distinção é importante. A redução de determinados fluxos comerciais não constitui, por si só, fragmentação geoeconómica. O fenómeno exige que as relações económicas passem a concentrar-se dentro de grupos de países política ou estrategicamente próximos.

A desglobalização descreve uma diminuição geral das ligações económicas internacionais. A fragmentação significa uma reorganização dessas ligações: o comércio, o investimento, o financiamento e a tecnologia continuam a atravessar fronteiras, mas fazem-no cada vez mais dentro de círculos considerados seguros ou politicamente compatíveis.

É neste quadro que surgem conceitos como friendshoring, nearshoring, reshoring e desacoplamento. O friendshoring privilegia fornecedores de países politicamente próximos. O nearshoring transfere cadeias de produção para mercados geograficamente mais próximos. O reshoring leva a produção de volta ao país de origem. O desacoplamento reduz a interdependência entre economias ou blocos rivais.

Em todos estes processos, as decisões empresariais deixam de ser determinadas exclusivamente pelo custo, produtividade ou dimensão do mercado. Segurança nacional, acesso a tecnologias, risco de sanções, controlo de matérias-primas e resiliência das cadeias de abastecimento passam a influenciar a localização dos investimentos.

Literatura Partia de Blocos Previamente Definidos

Os autores analisaram 14 estudos anteriores sobre fragmentação geoeconómica e encontraram diferenças substanciais na definição dos blocos.

Parte da literatura utiliza uma estrutura de dois grupos: um bloco liderado pelos Estados Unidos e outro centrado na China. Outros trabalhos juntam Estados Unidos e União Europeia num bloco ocidental, contraposto a China e Rússia.

Os modelos de três blocos acrescentam normalmente um conjunto neutral ou não alinhado, composto por países que não apresentam proximidade suficiente com nenhuma das duas grandes potências.

A classificação é frequentemente construída com base no comportamento dos países nas votações da Assembleia Geral das Nações Unidas. Alguns estudos utilizam votações específicas sobre a guerra na Ucrânia ou a suspensão da Rússia do Conselho de Direitos Humanos. Outros recorrem a padrões agregados de votação ao longo de vários anos.

Para Boros e Ginter, esta abordagem é insuficiente porque a fragmentação possui dimensões económicas, financeiras, políticas e militares. O voto nas Nações Unidas pode expressar uma posição diplomática, mas não capta necessariamente a direcção do comércio, a origem do financiamento, o fornecedor de armamento ou a dependência tecnológica.

Os autores procuram inverter essa lógica: em vez de decidir previamente quem pertence a cada bloco, utilizam os dados para identificar os países que apresentam relações semelhantes com as principais potências.

Quatro Potências Servem Como Pontos de Referência

O estudo considera Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia como os quatro grandes centros capazes de estabelecer redes económicas e geopolíticas para além das respectivas regiões.

Inicialmente, os autores identificaram cinco dimensões para medir a proximidade de cada país em relação a estas potências: comércio, investimento directo estrangeiro, financiamento internacional ao desenvolvimento, relações militares e opinião pública.

No comércio, calcularam a participação dos Estados Unidos, China, União Europeia e Rússia no total das importações e exportações de mercadorias de cada país em 2022.

No financiamento, consideraram os montantes aprovados pelo Banco Asiático de Investimento em Infra-estruturas entre 2016 e Julho de 2025, tratando-os como indicador de proximidade com a China. Utilizaram também os desembolsos acumulados do Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento, instituição do Grupo Banco Mundial.

Na dimensão militar, analisaram a origem das aquisições de armamento realizadas entre 2016 e 2024, distinguindo equipamentos provenientes da NATO e dos seus aliados asiáticos, da China e da Rússia.

O estudo acrescentou ainda dados internacionais sobre a imagem pública da China, calculando a diferença entre opiniões positivas e negativas.

A componente de investimento directo estrangeiro acabou retirada da análise devido à insuficiência e inconsistência dos dados por país de origem. A exclusão representa uma limitação importante, porque o investimento constitui um dos principais instrumentos de influência geoeconómica.

Três Blocos Emergem dos Dados

Depois de excluir países com população inferior a um milhão de habitantes e economias com dados incompletos, os autores aplicaram uma técnica de agrupamento hierárquico a 89 países e dez variáveis.

O método, conhecido como critério de Ward, aproxima países que apresentam características semelhantes e procura reduzir a variação interna de cada grupo.

O resultado produziu três blocos:

O primeiro bloco inclui Estados Unidos, Austrália, Canadá, Nova Zelândia, Japão, Coreia do Sul, Taiwan, Singapura, Malásia e Tailândia. Inclui igualmente os sete países árabes considerados no estudo em torno do Golfo: Arábia Saudita, Bahrain, Emirados Árabes Unidos, Iraque, Kuwait, Oman e Qatar.

O segundo reúne os membros da União Europeia e vários países ligados ao espaço económico e de segurança europeu. Reino Unido, Ucrânia, Israel, Geórgia, Líbano, Marrocos e Tunísia foram enquadrados neste grupo.

O terceiro inclui China, Rússia, Índia, Irão, Türkiye, Paquistão, Coreia do Norte, Arménia, Azerbaijão, Cazaquistão, Sérvia e outros países da Ásia Central e do espaço pós-soviético.

Bloco Norte-Americano Estende-se Ao Golfo e À Ásia

Os países do bloco dos Estados Unidos apresentam, em média, maior participação norte-americana no comércio do que os restantes agrupamentos, embora a China também seja um parceiro comercial importante.

A principal característica distintiva aparece na segurança. Em média, 85% das aquisições de armamento deste grupo provêm da NATO e dos aliados norte-americanos na Ásia-Pacífico.

A presença dos países do Golfo no bloco dos Estados Unidos demonstra que as relações de segurança podem compensar diferenças políticas ou comerciais. Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar mantêm relações económicas crescentes com a China, mas a arquitectura de defesa e o fornecimento de armamento continuam fortemente ligados ao Ocidente.

O mesmo acontece na Ásia. Japão, Coreia do Sul e Taiwan possuem intensas relações comerciais com a China, mas os seus vínculos militares, tecnológicos e de segurança aproximam-nos dos Estados Unidos.

O agrupamento mostra que um país pode depender comercialmente de uma potência e pertencer, em termos geoeconómicos mais amplos, ao círculo de segurança de outra.

União Europeia Forma Um Bloco Próprio

O resultado mais significativo é a separação entre Estados Unidos e União Europeia.

Os países do bloco europeu realizam, em média, 60% do seu comércio com outros membros da União Europeia. Esta concentração interna é muito superior à exposição aos Estados Unidos, China ou Rússia.

A União Europeia possui mercado único, política comercial comum, regras regulatórias partilhadas, cadeias produtivas regionais, mobilidade de capitais e uma moeda utilizada por grande parte dos seus membros. Esta densidade institucional cria uma estrutura geoeconómica própria.

Os países do bloco europeu também apresentam a percepção pública mais desfavorável da China e dependem predominantemente de fornecedores da NATO para a aquisição de armamento.

A separação estatística não significa ruptura transatlântica. Estados Unidos e União Europeia permanecem aliados na NATO e mantêm profundas relações comerciais, financeiras e tecnológicas. Significa que a estrutura económica europeia possui gravidade suficiente para constituir um centro autónomo.

A conclusão ganha relevância num contexto de divergências sobre tarifas, subsídios industriais, defesa, regulamentação tecnológica, política climática e relações com a China. Washington e Bruxelas podem partilhar interesses de segurança sem adoptar sempre a mesma política económica.

China e Rússia Formam Um Único Núcleo

No terceiro bloco, os países apresentam maior participação da China e da Rússia no comércio, maiores financiamentos do Banco Asiático de Investimento em Infra-estruturas e maior dependência de armamento russo e chinês.

Em média, 26% do comércio dos países deste agrupamento é realizado com a China e 11% com a Rússia. Apenas 4% corresponde aos Estados Unidos, enquanto a União Europeia representa 17%.

Na aquisição de armamento, 42% provêm da Rússia, 16% da China e apenas 20% da NATO e dos seus aliados. A percepção pública da China é também mais favorável neste agrupamento.

A Índia, Türkiye e Sérvia mostram, porém, que o bloco não constitui uma aliança homogénea. A Índia mantém relações estratégicas com os Estados Unidos, participa no agrupamento Quad e possui disputas territoriais com a China. Ao mesmo tempo, compra armamento russo e participa em instituições lideradas por economias emergentes.

A Türkiye integra a NATO, negoceia com a União Europeia e mantém relações económicas e energéticas com Moscovo. A Sérvia é candidata à União Europeia, mas preserva laços históricos com a Rússia e aumentou a cooperação com a China.

Estes casos demonstram que os blocos identificados reflectem padrões de relações, e não compromissos políticos absolutos.

Terceiro Bloco Não É Neutral

Outra diferença face à literatura anterior é a ausência de um grupo verdadeiramente neutral. O terceiro bloco identificado pelos autores não reúne apenas países não alinhados: possui um centro claro formado por China e Rússia.

Este resultado sugere que parte dos países frequentemente descritos como neutrais já apresenta ligações suficientemente concentradas para ser associada ao eixo sino-russo.

A conclusão deve ser interpretada com prudência. A neutralidade diplomática pode coexistir com dependência comercial, financeira ou militar. Um país pode recusar alinhamento político formal e, ainda assim, ter a maioria das suas infra-estruturas financiada pela China ou o seu sistema de defesa dependente da Rússia.

A fragmentação não exige tratados políticos. Pode surgir através da acumulação gradual de contratos, dívida, tecnologia, comércio, pagamentos e equipamentos militares.

Método Explica Apenas 10% das Diferenças

Os próprios autores reconhecem uma limitação estatística importante. A estrutura dos três blocos explica apenas 10,2% da variação total dos dados.

Isto significa que aproximadamente 90% das diferenças entre os países não são captadas pela divisão proposta. Os blocos possuem valor analítico, mas não conseguem representar toda a complexidade da economia mundial.

Os resultados também se mostraram sensíveis ao método utilizado. Quando os autores aplicaram uma técnica alternativa, denominada k-means, 72 dos 89 países foram colocados num único grupo no modelo de três blocos. No modelo de quatro blocos, 67 países ficaram concentrados no mesmo agrupamento.

Apenas o método hierárquico de Ward produziu grupos considerados equilibrados e economicamente interpretáveis. Esta sensibilidade reduz a possibilidade de tratar a estrutura identificada como uma divisão definitiva do mundo.

O estudo constitui igualmente uma fotografia de um determinado momento. Não acompanha a evolução dos países ao longo do tempo e, por isso, não mostra se estão a aproximar-se ou a afastar-se de determinada potência.

África Ficou Praticamente Fora da Análise

A maior limitação para uma leitura africana é a exclusão da maioria dos países da África Subsaariana, assim como das economias latino-americanas.

Os autores começaram com 156 países, mas a falta de dados comerciais, financeiros, militares e de investimento obrigou a reduzir a amostra para 89. Moçambique não integra a classificação final.

A exclusão afecta precisamente as economias que a literatura costuma considerar não alinhadas ou países de ligação entre blocos. São também mercados onde Estados Unidos, União Europeia, China, Rússia e outras potências disputam acesso a recursos naturais, infra-estruturas, mercados, votos diplomáticos e posições estratégicas.

Por esta razão, o estudo não permite afirmar que Moçambique pertence ao bloco China–Rússia, europeu ou norte-americano. Qualquer classificação nesse sentido ultrapassaria a evidência apresentada pelos autores.

A principal utilidade para África está no quadro de análise: comércio, financiamento, investimento, tecnologia, segurança e opinião pública podem apontar em direcções diferentes, permitindo aos países manter relações simultâneas com vários centros de poder.

Moçambique Pode Funcionar Como Economia de Ligação

Moçambique possui características de um potencial país de ligação entre diferentes espaços geoeconómicos.

A China tem presença relevante no financiamento e construção de infra-estruturas, comércio e fornecimento de bens. A União Europeia é um importante parceiro de cooperação, mercado e fonte de investimento. Os Estados Unidos participam através do financiamento ao desenvolvimento, instituições multilaterais, segurança e grandes investimentos energéticos.

A África do Sul acrescenta uma dimensão regional determinante, enquanto Índia, Japão, países do Golfo e instituições financeiras internacionais ampliam a diversidade das relações externas.

Esta configuração permite uma estratégia de multialinhamento económico: cooperar com diferentes parceiros sem converter uma relação comercial ou financeira numa dependência exclusiva.

Para beneficiar dessa posição, Moçambique precisa de avaliar cada parceria em função do custo de financiamento, transferência de tecnologia, conteúdo local, acesso a mercados, impacto fiscal e capacidade de desenvolver empresas nacionais.

A diversificação não deve ser apenas diplomática. Deve abranger mercados de exportação, fornecedores, fontes de crédito, sistemas de pagamentos, tecnologia, logística e formação de quadros.

Empresas Terão de Incorporar Risco Geoeconómico

A estrutura dos três blocos possui implicações directas para as decisões empresariais. Uma empresa que compra tecnologia chinesa, recebe financiamento europeu, utiliza pagamentos em dólares e fornece um projecto norte-americano pode ficar exposta a regras incompatíveis.

Sanções, controlos de exportação, requisitos de origem, normas ambientais, protecção de dados e restrições tecnológicas passaram a influenciar a viabilidade dos investimentos.

As empresas precisam de mapear não apenas os fornecedores directos, mas também os bancos, seguradoras, transportadores, plataformas tecnológicas e beneficiários efectivos envolvidos nas transacções.

A localização de uma empresa num país formalmente não alinhado não elimina o risco. O acesso ao dólar pode exigir conformidade com regras norte-americanas; a exportação para a União Europeia pode depender de normas ambientais europeias; e o financiamento chinês pode determinar equipamentos, empreiteiros ou sistemas tecnológicos específicos.

Para Moçambique, a fragmentação geoeconómica aumenta o valor da flexibilidade estratégica. Mas essa flexibilidade exige instituições capazes de avaliar contratos, gerir dívida, negociar conteúdo local e evitar dependências difíceis de substituir.

O estudo de Boros e Ginter não demonstra que o mundo já esteja dividido em três espaços fechados. Mostra que as relações económicas, financeiras e militares apresentam concentrações suficientemente distintas para desafiar a visão de um único bloco ocidental.

A economia mundial continua interligada, mas os seus fluxos são cada vez mais condicionados por segurança, soberania e rivalidade estratégica. Para países africanos, a questão não é apenas escolher um bloco. É construir capacidade para negociar com todos sem perder autonomia económica.

Fonte: O Económico

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